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Pura Connection · Roberto Cyborg Abreu

Roberto Cyborg revela o acidente de carro que deu origem ao apelido

O campeão que saiu do Pantanal conta como voltou ao tatame com o braço esmagado, por que foi para os Estados Unidos com 800 dólares e como ensina hoje na Fight Sports.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 9 set 2024 (1:27:10).

Antes de ser o Roberto Cyborg que o mundo do jiu-jitsu conhece, o Roberto Abreu era um garoto do Pantanal com um braço esmagado e um médico dizendo que ia ser difícil voltar a competir. Foi desse acidente de carro que nasceu o apelido. Ele contou a história na conversa com o André no Pura Connection, e é o tipo de relato que explica muita coisa sobre o jeito dele de lutar.

Assisti à entrevista e o Cyborg fala pouco de técnica e muito de cabeça: fé, gratidão, vontade de continuar. Mas no meio disso aparecem histórias muito concretas, do ônibus de 23 horas para lutar no Rio até a faixa verde que ele criou na academia dele nos Estados Unidos.

O acidente e o nome Cyborg

Segundo o Cyborg, na época ele não tinha ganhado nada expressivo, só um estadual pequeno em Mato Grosso do Sul. Ele contou que foi jogado pelo vidro da frente do carro, que o carro parou em cima dele e que o braço ficou esmagado, a ponto de precisar de enxerto.

“O médico falou: cara, vai ser difícil você conseguir voltar a ser atleta.”

Roberto Cyborg Abreu, no Pura Connection · 0:38:16

Ele disse que foi a primeira vez que ouviu um não daquele tamanho e que só ali percebeu o quanto gostava de jiu-jitsu. Saía da fisioterapia e ia sentar na beira do tatame para ver os outros treinando. Depois de uns quatro meses e meio, ainda sem conseguir esticar o braço, voltou a treinar. Um mês e meio depois, segundo ele, foi vice-campeão brasileiro e, logo em seguida, campeão pan-americano.

Foi aí que o professor dele soltou a frase que virou nome.

“Cara, você é um Cyborg.”

Roberto Cyborg Abreu, no Pura Connection · 0:39:17

Do Pantanal ao Rio de ônibus

O Cyborg se define como quase autodidata no jiu-jitsu. Ele contou que foi criado numa fazenda no Pantanal e que, em Mato Grosso do Sul, teve dois professores, um deles o Isaías, ligado ao Carlson Gracie, por pouco tempo. Abriu a Fight Sports com 22 anos, logo depois de pegar a faixa-roxa, sem nenhuma referência de como ser atleta ou empresário.

Para competir, pegava 23 horas de ônibus até o Rio de Janeiro e chegava para lutar contra as grandes equipes com a torcida gritando contra ele. Segundo ele, a faixa-preta veio em cinco anos, dada pelo mestre Toco, na Nova Geração.

“Eu vim aqui para bater.”

Roberto Cyborg Abreu, no Pura Connection · 0:08:56

Ele lembrou também que da primeira vez que chegou ao Rio, ainda faixa-azul, se sentiu uma formiguinha andando num parque de dinossauros, no meio de tanto faixa-preta.

800 dólares e um tatame para dormir

O Cyborg já tinha morado nos Estados Unidos como intercambista e voltou de lá falando inglês. Segundo ele, estava acomodado em Campo Grande, mimado pelo pai e pela mãe, e resolveu sair da zona de conforto. Deixou para trás os faixas-pretas que tinha formado e foi só com o quimono.

“Peguei 800 dólares e fui para os Estados Unidos para passar perrengue.”

Roberto Cyborg Abreu, no Pura Connection · 0:13:41

Ele contou que nunca mais pegou um dólar do pai, que dormiu em tatame, passou fome por anos e chorava quase todo dia. Remontou a Fight Sports do zero, trouxe dois faixas-roxas dele do Brasil para treinar junto e foi fazendo as conexões aos poucos. Para quem acha que ele leva vida de playboy em Miami, ele responde que ninguém vê a construção por trás.

O primeiro título mundial na faixa-preta só veio aos 30 anos. Ele disse que tomou pescoção por muitos anos e que, no começo, perdia para gente que tinha certeza de que ganharia, porque estava se desenvolvendo como atleta, professor e empresário ao mesmo tempo. Segundo ele, já lutou com gente como o Comprido e aposentou umas seis gerações de adversários.

O pai, que ele descreve como durão, passou cinco anos sem visitá-lo. Quando finalmente foi, encontrou o filho lutando no Metamoris, num ginásio em Los Angeles com todo mundo gritando o nome dele. Depois, num churrasco na academia em Miami, o Cyborg pediu desculpas pela juventude turbulenta. Ele admitiu que brigava, aprontava e usava droga antes do jiu-jitsu, e que foi para os Estados Unidos também para fugir daquilo.

Oito lutas num dia e nenhum drill

O André lembrou a participação recente dele no ADCC. O Cyborg contou que, semanas antes, estava todo quebrado e achou que não ia conseguir chegar. Lutou, perdeu, chorou de gratidão e, no dia seguinte, a primeira coisa que fez foi ir malhar. Ele diz que dói pensar que um dia a carreira vai acabar.

Uma parte que me surpreendeu foi ele admitir que não é um estudioso da luta. Disse que tem TDAH, que não consegue ficar olhando para um aluno por muito tempo e que deixa a parte técnica com os coaches da academia, como o Wagner e o Vitor.

“Eu nunca fiz um drill na minha vida.”

Roberto Cyborg Abreu, no Pura Connection · 0:59:49

Ele contou ainda que nunca assiste às próprias lutas. Chega, toca a mão e sai na porrada. O Wagner, que segundo ele foi com ele ao primeiro ADCC, em 2009, e é parceiro de treino desde então, chegou ao ADCC agora ao lado dos dois filhos e medalhou junto com a filha.

A faixa verde da Fight Sports

O Cyborg reconhece que veio de uma escola casca-grossa, em que o aluno era jogado no meio da porradaria e só ficava quem sobrevivesse. Ele disse que demorou para largar essa mentalidade. O que ajudou foram os seminários: segundo ele, são trinta e tantos por ano há quase 20 anos, e em cada lugar aprendeu alguma coisa para levar para casa.

Hoje, contou, 80% da Fight Sports não compete. O aluno novo passa por uma aula de fundamentos sem rolar, faz um teste com dois meses e meio a três meses de treino e só então vai para a turma de iniciantes. No adulto, ele criou uma faixa verde entre a branca e a azul, com teste próprio, porque acha que a branca é a faixa em que mais gente desiste. Até a azul, o aluno já foi testado três vezes.

Ele deu o exemplo de um aluno advogado que começou aos 45 anos, sem nunca ter feito esporte, e que aos 50 foi campeão mundial master. Para o Cyborg, ninguém nasce corajoso ou forte, e o papel da academia é dar tempo para isso aparecer.

O que fica da conversa é um campeão que fala do título do ADCC absoluto como a conquista do impossível para quem saiu sozinho do Pantanal. E que usa isso para dizer aos alunos que, se ele conseguiu, qualquer um consegue.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.