Pura Connection · Thor Koringa, Fred Fontes
Thor Koringa vende brigadeiro para competir e vira campeão sul-americano
Aos 12 anos, o faixa-amarela gaúcho conta como saiu da derrota na estreia para o título no jiu-jitsu, enquanto o pai, Fred Fontes, enfrenta um câncer.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 24 fev 2025 (1:33:05).
Thor Koringa tem 12 anos, é faixa-amarela e passa sábados vendendo brigadeiro no sol para pagar as viagens dos campeonatos. Numa dessas, voltou do ginásio no Rio com a medalha de ouro do Sul-Americano, depois de três lutas duras numa chave de 11 atletas. Um ano antes, no mesmo torneio, tinha perdido a final por uma punição.
“Eu sou atleta de baixa renda, eu vendo brigadeiro para poder participar dos campeonatos.”
Thor Koringa, no Pura Connection · 0:54:31
Assisti à conversa do Thor com o pai, Fred Fontes, no Pura Connection, e é daquelas entrevistas que mexem com quem é pai e professor. Tem a evolução de um garoto que, nas palavras do próprio pai, não levava muito jeito. E tem o pano de fundo de uma família que segue apostando no jiu-jitsu enquanto o Fred trata um câncer.
O garoto que apanhava de todo mundo
O Thor começou aos 7 anos na academia do Cléber Oliveira, uma filial da Alliance no Rio Grande do Sul, ao lado de casa, onde os primos já treinavam. O Fred, que trabalhou 14 anos no MMA como empresário de atletas, queria só que o filho não ficasse sedentário. O objetivo dele era formar um faixa-preta capaz de proteger e honrar a família.
O que o Thor mais gostou, segundo ele, foi descobrir uma arte marcial em que não havia soco. Ele garante que nunca brigou na rua e acha que a essência do jiu-jitsu é justamente evitar conflito, mas que, se precisar, é a luta mais eficiente para se defender.
A estreia em campeonato foi em agosto de 2022, num regional gaúcho. Só havia dois na chave, e o Thor perdeu para o garoto que era o melhor do estado. Mesmo assim saiu animado. Ele conta que olhou os banners com os melhores atletas do ano e se imaginou ali.
O Fred foi franco com o filho. Disse que competir exigia abrir mão de muita coisa, que ele não teria uma vida de criança normal e que não dava para voltar atrás. O Thor topou. Trocou de equipe, porque a primeira era mais escolinha, e saiu de um treino por dia para três ou quatro, com open mat aos sábados e competição aos domingos.
“Quando eu fui para essa academia, eu apanhava para todo mundo, literalmente. Ia copiando a galera.”
Thor Koringa, no Pura Connection · 0:24:55
A vingança contra o João
A história que mais me pegou é a do rival. O conselho do Fred era simples: escolher o melhor da academia, copiar tudo o que ele faz e continuar até superá-lo. O Thor apanhava de um garoto chamado João, que o finalizava em 30 ou 40 segundos. Até que, num treino numa academia que o João estava visitando, o Thor encaixou um triângulo e o João bateu.
O Thor diz que, na hora, sentiu mais surpresa do que alegria. E faz questão de agradecer ao João e ao professor dele, Tatiano, por terem ajudado a evoluir o jogo dele.
Em 2024, segundo o Thor, ele decidiu que o topo do ranking estadual seria dele. Lutou as 12 etapas, terminou invicto, finalizou todas as lutas e ganhou o título de melhor atleta do estado, o mesmo banner que tinha visto na estreia. No primeiro campeonato nacional, finalizou a primeira luta e venceu a final por decisão do árbitro, depois de um empate, contra um garoto invicto que liderava o ranking. Ele também conta que foi campeão do Kids International em 2023 e de novo em 2024, em Curitiba.
O câncer do pai e a vaquinha
No meio da conversa, o apresentador pediu ao Fred que explicasse a doença. O Fred contou que foi diagnosticado com câncer no intestino, com metástase no fígado e no pulmão, e que parou de trabalhar. Segundo ele, há dias bons e dias péssimos. Na madrugada antes de um Kids International, ele passou mal, com vômito e calafrio, e o Thor ficou acordado cuidando dele e buscando remédio antes de lutar.
“A parte pior que existe é você ver as pessoas que você ama sofrer.”
Fred Fontes, no Pura Connection · 0:50:22
O Thor conta que a academia fica a 30 ou 40 quilômetros de casa e que, quando o pai não consegue levar, vai de carona, Uber ou ônibus. Ele diz que o jiu-jitsu virou refúgio: treina quando está bem, quando está mal e quando está feliz. O Fred falou do cansaço da esposa, e o Thor, da mãe, que vai todo dia com o pai ao hospital e à quimioterapia. O canal abriu espaço para divulgar uma vaquinha para o tratamento.
Pan em Orlando e luta nos Emirados
A família recebeu ajuda de onde não esperava. O Fred contou que uma brasileira que mora na Islândia, a Miriam, viu o Thor num estadual e pediu aulas particulares para o filho. A família passou a convidá-lo para passeios e, quando perguntou qual era o sonho dele, o Thor respondeu que era disputar o Pan Kids em Orlando. Na semana seguinte, segundo o Fred, ela pagou os vistos e as passagens.
Outra virada veio pelo Instagram. O Thor contou que vendia brigadeiro desde julho para tentar ir a um campeonato nos Emirados Árabes e que não conseguiu juntar o dinheiro. Um mês depois, recebeu mensagem do matchmaker do ADXC com convite de tudo pago para lutar em Al Ain contra o 220, um garoto que ele considera um dos seus ídolos. O detalhe: a luta era sem kimono, e o Thor diz que nunca tinha treinado nogi, fora três ou quatro treinos antes da viagem.
Ele admite que sentiu a pressão e não gostou da própria performance. O Fred, que diz conhecer 23 países por causa do MMA, ficou impressionado com a estrutura do evento. Antes da luta, o Thor fez um camp de alguns dias na casa do 220, sem pagar nada, e elogia a humildade do adversário e da família dele.
Sem pressa, com os pés no chão
Para o futuro, o Thor sonha em ser professor de jiu-jitsu na Flórida e diz que já tem até o nome da academia. O Fred acredita que o nogi e o grappling são o futuro da luta, mas repete ao filho que não há pressa. Ele diz que, lá na frente, ninguém vai dar importância para título de criança, e que o nome se faz como faixa-preta adulto. Se o Thor quiser parar de competir por um ou dois anos, para ele tudo bem.
Perguntado sobre o que falta para o filho viver do esporte, o Fred respondeu direto: dinheiro, investimento e gente capaz de administrar a carreira. Saí da conversa pensando no que o apresentador disse no fim: o Thor não era o garoto talentoso da academia e chegou lá na base da disciplina, que muitas vezes ganha do talento.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.