Pura Connection · Wilgner Silva
Wilgner Silva conta como o wrestling virou profissão dentro do jiu-jitsu
Campeão brasileiro de luta olímpica, ele saiu de Nova Iguaçu, fez entrega de bicicleta para pagar o aluguel e hoje ensina queda para faixas-pretas.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 18 jan 2024 (1:29:33).
Wilgner Silva ainda era faixa-azul de jiu-jitsu quando começou a receber faixas-pretas, campeões mundiais e europeus para aulas particulares de wrestling. Ele conta que chegou a se perguntar se merecia aquilo. A resposta veio dos próprios alunos, que começaram a ganhar lutas com as quedas que ele ensinava e a indicar o trabalho para outros.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e gostei do jeito direto com que ele conta a própria história. Aos 27 anos, campeão brasileiro de luta olímpica, o Wilgner tem uma trajetória de sacrifício que muita gente do jiu-jitsu vai reconhecer, e uma opinião firme sobre o que as academias deixaram de ensinar.
Do tatame em cima do sacolão ao wrestling
O começo foi em 2011, numa academia simples de bairro, em cima de um sacolão. Um primo o chamou, e na primeira aula ele tomou uma queda de judô e ficou uns minutos sem ar. O professor era faixa-preta de judô e de jiu-jitsu, e obrigava a turma a treinar entradas de queda antes de cada treino.
A virada veio pela irmã, que já lutava e fazia preparação física com um treinador da seleção brasileira. Segundo o Wilgner, ela sugeriu que o irmão, ainda novo no jiu-jitsu, fosse para o wrestling, pegasse uma base e tentasse uma bolsa de faculdade num esporte olímpico. Ele largou o jiu-jitsu e se dedicou de corpo e alma à luta olímpica.
Ele diz que teve sorte com o momento. Começou no período entre as Olimpíadas de Londres e as do Rio, quando muitos treinadores estrangeiros vieram ao Brasil. Assim ele fez seminários com nomes como Sergei Beloglazov e o cubano Roberto Monzón, vice-campeão olímpico, sem precisar sair do país.
O preço foi alto. Morando em Nova Iguaçu, ele saía da escola às cinco da tarde, pegava o trem até a Tijuca, treinava das oito às dez da noite e acordava às cinco para a escola de novo. Somando ida e volta, eram quase cinco horas por dia no transporte, de segunda a sábado, entre 2012 e 2018.
“Isso aí serviu para mim de bagagem, de resiliência.”
Wilgner Silva, no Pura Connection · 0:51:00
O jeito de ensinar apareceu cedo
Poucos meses depois de começar no wrestling, os quatro treinadores da equipe viajaram para uma competição e deixaram o Wilgner puxando o treino por duas ou três semanas. Ele não era o mais antigo, mas já tinha o hábito de corrigir os colegas. A turma gostou, e ele percebeu que tinha jeito para dar aula.
Por volta de 2015, postou um vídeo tacando o boneco de treino para trás e recebeu a primeira proposta de aula particular, de um atleta que tinha treinado fora do país e voltado convencido de que precisava aprender wrestling. Ele achava que não tinha bagagem para ensinar. Em 2017 as aulas se firmaram, e em 2019, depois de ser campeão brasileiro e primeiro do ranking nacional nos 70 kg do estilo livre em 2018, ele desistiu do sonho olímpico para se dedicar a ensinar.
A faixa-azul veio do mestre antigo de jiu-jitsu de Nova Iguaçu, Aldenir. O Wilgner conta que aparecia de vez em quando para treinar, jogando todo mundo para o alto, e o mestre disse que não dava para ele continuar de faixa verde aos 17 anos.
Faixa-preta que não sabe dar uma baiana
É aqui que a conversa fica mais interessante para quem é do jiu-jitsu. O Wilgner diz que muita gente hoje entra na academia fazendo berimbolo e puxando para a guarda sem saber fazer uma baiana direito, uma queda de quadril ou defender uma gravata. O apresentador concordou e contou que, em seminários pela Europa, encontrou muitos faixas-pretas que tiveram uma formação só esportiva e nunca aprenderam isso.
“O cara já entra na academia fazendo berimbolo, já entra puxando para a guarda sem saber o mínimo de uma baiana.”
Wilgner Silva, no Pura Connection · 0:18:36
Ele separa bem o que é para o tatame e o que é para a rua. Uma guarda como a umbrella funciona na competição, diz ele, mas numa briga o aluno precisa de outra coisa. Até a baiana de competição, com o joelho encostando no chão, não serve no asfalto. Por isso o Wilgner termina muitas aulas com duas ou três técnicas de defesa pessoal usando o wrestling, lembrando que policiais americanos usam muito a luta olímpica para imobilizar.
Ele contou o caso de um aluno que não conseguiu evitar um confronto na rua e usou o wrestling para defender a esposa de um homem que ia fazer mal a ela. Para ele, vale o velho ditado do jiu-jitsu: melhor ter e não precisar do que precisar e não ter.
Ele também criou o que chama de wrestling para executivos, pensado para faixas-pretas que passaram a vida treinando de joelhos, em academias cheias onde não dava para lutar em pé, e que querem aprender a queda sem objetivo de competir.
Entrega de bicicleta e a pandemia
A virada financeira não foi fácil. Em 2019, ganhando cerca de 1.500 reais, ele e a esposa foram assaltados com arma na cabeça quando ele a levava ao ponto de ônibus de madrugada em Nova Iguaçu. Decidiram se mudar para o Rio de qualquer jeito. Para fechar as contas, ele fez entrega de comida de bicicleta nos fins de semana por alguns meses. Morando perto dos alunos, as aulas particulares foram aparecendo, e a renda chegou a seis ou sete mil por mês.
Aí veio 2020. Ele conta que perdeu 90% dos alunos e a renda caiu para 800 reais de um dia para o outro. Com a esposa, abriu um delivery de brownie que chegou a ter perto de cem clientes por semana. Quando as aulas voltaram, ele diversificou o público para não depender só da temporada de campeonatos.
O Wilgner também voltou ao jiu-jitsu em 2018, depois de anos longe, e diz que precisou aprender tudo de novo. O wrestling que sabia não funcionava no jiu-jitsu sem adaptação, porque não dá para oferecer o pescoço nem as costas. Teve de aprender a jogar por baixo, a fazer guarda e a defender e aplicar chave de calcanhar. Para 2024, o plano é treinar mais jiu-jitsu e melhorar a guarda.
O que fica da conversa
Um dos exemplos que ele mais gosta de contar é o de Maurício Melo, faixa-preta de Blumenau com mais de 20 anos na faixa e primeiro aluno da plataforma online. Faixa-roxa, o Wilgner aconselhou o professor a competir menos, descansar mais e focar nos alunos. Segundo ele, a academia do Maurício cresceu depois disso.
“O cara quer saber se você dá uma boa aula.”
Wilgner Silva, no Pura Connection · 0:46:18
O que fica é a lição que ele repete aos alunos ansiosos: a primeira baiana de verdade, sob pressão, só saiu numa competição em 2018 ou 2019, seis anos depois de treinar a posição todo dia. Para quem acha que vai aprender queda em dois meses, é um bom lembrete.
“Todo treino fazia double leg. Olha quanto tempo demorou para sair perfeito.”
Wilgner Silva, no Pura Connection · 0:30:48
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.