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Pura Connection · Alexandre Vieira, Gabriela Lobo

Alexandre Vieira revela as loucuras que já fez para bater peso no jiu-jitsu

O peso-pena da Brazilian Top Team conta os cortes que deram errado, o que mudou com a nutricionista Gabriela Lobo e o plano de rodar o mundo dando seminário.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 20 fev 2023 (1:30:04).

Era a seletiva do ADCC no Rio, em 2015. Alexandre Vieira tinha lutado no peso, recuperado três quilos e passado para a semifinal. Só aí avisaram que haveria nova pesagem às 10 da manhã do dia seguinte, sem tolerância. Ele contou que foi para casa, comeu meia lata de atum, acordou às 5 com fome, comeu a outra metade e foi para a Ilha do Governador pular corda de roupa térmica. Pulou três horas. Era o dia do aniversário dele. Bateu o peso e perdeu a final.

Assisti à conversa dele no Pura Connection, ao lado da namorada, a nutricionista Gabriela Lobo, e esse assunto me pegou. Todo mundo que compete já passou por algum aperto na balança. O Alexandre passou por vários e contou todos sem vergonha.

Laxante, antidiarreico e uma final perdida no fim

Na semana seguinte àquela seletiva do Rio, segundo ele, veio a de São Paulo. O peso tinha subido para 68 quilos e ele não queria mais correr. Comprou um laxante, que demorou a fazer efeito e agiu a noite inteira. De manhã voltou à farmácia atrás de um remédio para cortar o efeito. Passou pela semifinal e perdeu a final faltando 30 segundos, exausto.

Ele também contou que já rodou no peso no Mundial de jiu-jitsu, depois de passar pela seletiva da equipe da Carlson Gracie. Disse que essa foi traumática. No começo da carreira, lembrou, quem chegava acima do peso no dia ia correr em volta da quadra até perder.

“Cheguei no Mundial e rodei no peso.”

Alexandre Vieira, no Pura Connection · 0:42:41

Na visão dele, no jiu-jitsu não faz sentido descer muito. Ele contou que transita entre 66 e 70 quilos conforme o evento: 66 no ADCC, 69 no Grand Slam, 70 na IBJJF e 67 no sem kimono. Nas lutas casadas, como no BJJ Stars, pesar na véspera deixa o atleta comer bem e fazer um show de verdade.

O último corte, com a nutricionista em casa

A virada veio com a Gabriela. Ela contou que fez a pós-graduação em nutrição esportiva em parte por causa dele, depois de mudar os hábitos do namorado em casa. E ele admitiu que era do tipo que comia um litro de sorvete no fim de semana e bebia um litro de refrigerante com fritura, achando que estava tudo normal. Quando limpou a alimentação, disse, as dores e o inchaço nos dedos de manhã sumiram, e a recuperação de um dia para o outro mudou.

Para a última luta de MMA dele, a primeira em dez anos, segundo o Alexandre, ele desceu cerca de 10 quilos treinando todo dia. Três semanas antes tinha lutado no BJJ Stars, e em dois dias foi de 66 para 70 quilos. Fez hiper-hidratação, chegou a beber 7 a 9 litros de água por dia e, na reta final, cortou água e carboidrato e foi para a sauna.

A Gabriela contou que ele chorou dizendo que não entrava mais na sauna. Faltavam 500 gramas que não saíam. Ele subiu na balança, leu errado e achou que tinha batido, e já estava se arrumando para ir embora quando ela pediu ao amigo que o acompanhava para mandá-lo de volta. Voltou, bateu o peso e ganhou a luta.

“O mínimo que você tem que fazer pro seu corpo para ter saúde é beber água. E aí eu tiro toda a água do corpo dele.”

Gabriela Lobo, no Pura Connection · 0:48:25

Os dois concordam que ser atleta profissional é estressante para o corpo e que o objetivo ali é a performance no limite. A Gabriela chamou o corte de peso nas lutas de muito agressivo, mas disse que, enquanto a regra não muda, o jeito é fazer da forma mais planejada possível.

Um jiu-jitsu feito de muitas academias

O André elogiou a profundidade técnica do Alexandre, e ele explicou de onde veio. Nunca treinou num lugar só. Fazia amizade com os adversários na área de aquecimento, era convidado para a academia do professor deles e ia. Assim viu como davam aula o Ricardo De La Riva, o Alan Moraes e o Marcelo Garcia, com quem passou mais de uma semana e a quem chama de ídolo. Ele comparou com o Melqui Galvão, que, segundo ele, fez o mesmo de forma pensada, passando uma temporada em cada academia antes de começar a ensinar.

Hoje ele diz que ensina conceito, ideia que entendeu melhor ouvindo os irmãos Mendes: quem entende o conceito de uma posição abre o leque para as variações.

“Eu não falo de posição em si, eu falo de conceito.”

Alexandre Vieira, no Pura Connection · 0:06:17

Os seminários dele, contou, são marcados para uma hora e meia e nunca duram menos de três. Numa turnê pelo Leste Europeu, passou dois meses indo de cidade em cidade: Rússia, Finlândia, Alemanha, Estônia, Letônia e Amsterdã.

“Tem um cara lá no Afeganistão que treina jiu-jitsu numa academia pequena, mas ele sabe quem sou eu.”

Alexandre Vieira, no Pura Connection · 0:02:40

Vender tudo e rodar o mundo

O fim da conversa é sobre a mudança. O Alexandre contou que sempre avisou à Gabriela que um dia iria morar fora. Ela vendeu o restaurante de comida saudável da família, e o empurrão final veio quando a imobiliária pediu de volta o apartamento de frente para o mar onde moravam.

O plano, segundo eles, começa com 30 dias de motorhome pela Austrália, de Melbourne até a Gold Coast, com seminários nos fins de semana. Depois Bali, onde ele contou ter recebido um convite para cuidar do grappling de um novo time de MMA, Tailândia e Califórnia, onde vai tocar a academia de um amigo por 25 dias. Ele também quer visitar as filiais da Brazilian Top Team nos Estados Unidos. Tudo vai para o canal que os dois abriram no YouTube.

O que eu levo desse papo é o recado da balança. Quando cortou peso no improviso, o Alexandre rodou na balança ou chegou exausto e perdeu a final. Quando teve alguém planejando, ganhou.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.