Dos Nossos Podcast · André Galvão
André Galvão revela como Anderson Silva o socorreu na fase sem dinheiro
No Dos Nossos, o multicampeão de jiu-jitsu lembra a fase sem dinheiro, a ida para San Diego e as rivalidades com Toquinho, Felipe Preguiça e Gordon Ryan.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 15 mai 2025 (1:55:15).
Antes de ter 70 filiais pelo mundo, André Galvão chegou a ter 20 reais no bolso e a conta no negativo, com uma filha de 2 ou 3 anos em casa. Foi nessa fase que Anderson Silva parou o treino dele, levou o amigo para jantar e, no caminho, entregou um envelope cheio de dólares. A história, que segundo o André pouca gente conhece, veio à tona no Dos Nossos Podcast, do Fabrício Werdum.
Assisti à conversa inteira. Ela passa pela ida para San Diego, pelo crescimento da Atos e pelas rivalidades mais quentes da carreira dele, mas foi esse momento com o Anderson que me fez parar o vídeo.
O envelope do Anderson
O André contou que, antes de ir para os Estados Unidos, morava no Recreio, no Rio, e treinava com o Minotauro e com o Anderson, num lugar ótimo para treinar e ruim para o bolso. Na fase do aperto, segundo ele, pagava o aluguel, mas sempre faltava. Num culto, ele diz ter entregue na oferta os últimos 20 reais que tinha, sem saber como faria a próxima compra.
No dia seguinte, batendo no saco sem cabeça para treinar, foi notado pelo Anderson. Segundo o André, o Anderson segurou a luva dele, perguntou o que estava acontecendo e mandou tirar a luva: não queria ver ele treinando daquele jeito. Chamou para comer na casa dele e, no caminho, parou num banco e voltou com o envelope.
“Não, não, não agradece eu, não. Agradece Ele.”
Anderson Silva, no Dos Nossos Podcast · 1:36:49
O André disse que naquela hora ligou o dinheiro ao gesto de fé do dia anterior. Os dois ficaram muito amigos a partir dali, e o Anderson passou a entrar no octógono com o logo da Atos no banner. O professor Ramon Lemos, que fundou a Atos junto com o André, foi técnico do Anderson por anos.
O sonho que virou academia em San Diego
A ida para os Estados Unidos também tem um enredo curioso. Segundo o André, em 2007 ele sonhou que alguém lhe dava uma academia. Em 2009, um amigo de San Diego ligava o ano inteiro oferecendo um espaço de um aluno rico, o Mark. Ele recusava, porque queria seguir no MMA. Em 2010, depois de uma luta no Strikeforce, foi conhecer o lugar e sentiu que era a academia do sonho.
“Em 2007 eu tive um sonho, sonhei que alguém tinha me dado uma academia.”
André Galvão, no Dos Nossos Podcast · 0:10:25
Antes de aceitar, ele contou que pediu ao pastor para orar, e ouviu que daria certo e que nasceria uma igreja dentro da academia. De fato, segundo ele, durante um tempo houve culto aos domingos no tatame. A esposa, Angélica, ficou três meses no Brasil vendendo o pouco que tinham, do liquidificador à batedeira, e os empresários Joinha e Ed Soares ajudaram quando faltava.
Hoje, segundo o André, a Atos tem cerca de 70 filiais, de Nova Zelândia a Filipinas, e 800 alunos só na matriz. Ele lutava e fazia o córner dos alunos ao mesmo tempo, e em 2017 foi campeão mundial pela última vez enquanto treinava o time inteiro. Uma coisa que me chamou atenção foi o código de conduta: pais, professores, competidores e funcionários assinam regras escritas. Pai não pode dar instrução da arquibancada nem amarrar a faixa do filho.
“A academia não é feita pro professor. A academia é feita pro aluno.”
André Galvão, no Dos Nossos Podcast · 0:25:00
Toquinho, Werdum e as brigas que viraram amizade
Werdum puxou vídeos antigos, e o primeiro foi a luta contra o Toquinho no ADCC de 2011, na Inglaterra. O André contou que o Toquinho vinha acabando com todo mundo em um ou dois minutos e estava bem maior. A estratégia foi aguentar os cinco primeiros minutos, porque sabia que o adversário fazia muito MMA e cansaria. Deu certo: nos pontos, ele pegou as costas e venceu depois de 20 minutos. Detalhe: ele tinha sido deportado da Inglaterra em 2008 por ir dar seminário sem o visto certo e precisou pedir cartas à organização para conseguir entrar.
O próprio Werdum já enfrentou o André, na semifinal do absoluto do ADCC de 2007, em Nova Jersey. O André admitiu que foi amassado a luta toda e que os juízes deram a vitória para ele. O Werdum lembrou que o Ryan Gracie passou por ele depois e disse que ele tinha ganho.
As rivalidades de verdade vieram depois. Com o Felipe Preguiça, discípulo do Rômulo Barral, o André venceu no Pan de 2014, perdeu a final do Mundial daquele ano a 30 segundos do fim e, segundo ele, um comentário seu nas redes sociais criou uma inimizade. Perdeu de novo em 2016, venceu na semifinal do Mundial de 2017 e voltou a enfrentar o Felipe no ADCC de 2019. Ali, segundo o André, começou a amizade. Hoje o Felipe treina na academia dele.
Com o Gordon Ryan, adversário da última superluta, em 2022, a história foi mais pesada. O André disse que perdoou tudo depois daquele abraço, que os dois se comentam nas redes e que o esporte não estaria onde está sem aquela luta. Ele também contou que, na época da confusão entre os dois, vivia um momento de escuridão e estava afastado de Deus.
“Se não tivesse a luta comigo, o esporte não estaria onde está.”
André Galvão, no Dos Nossos Podcast · 1:24:54
Uma filha no tatame
O papo começou falando da filha, Sara. Segundo o André, ela treina desde os 4 anos, parou aos 8 para fazer balé, piano e ginástica e voltou aos 12. Aos 18, é faixa-marrom e já ganhou o Mundial sem kimono na faixa. Ele disse que poderia dar a preta, mas a família decidiu esperar ela amadurecer mais.
O que fica da entrevista é a imagem de um campeão que passou por aperto, confusão e muita rivalidade, e que hoje fala de tudo com calma. Ele credita a virada à fé e a quem apareceu na hora certa. Na lista, o Anderson ocupa um lugar especial.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.