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Pura Connection · Antônio Assef

Antônio Assef, o Dr. Porrada, conta como saiu de 180 kg para o ADCC

Médico e faixa-preta de jiu-jitsu, ele diz que voltou a ganhar campeonatos depois dos 30 dormindo mais e treinando menos porrada.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 9 mar 2026 (1:41:30).

Aos 24 anos, Antônio Assef se formou em medicina e pegou a faixa-preta de jiu-jitsu no mesmo ano. Logo depois, largou os treinos para trabalhar e, segundo ele, foi de 120 para 180 quilos. Hoje, aos 36, o médico que ganhou o apelido de Dr. Porrada se prepara para lutar o ADCC. No Pura Connection, ele contou como fez essa volta.

Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a franqueza sobre os próprios erros. O Assef fala que foi o primeiro paciente dele mesmo: tudo que ele recomenda hoje para lutador, diz que testou antes no próprio corpo, a começar pelo tombo que levou quando achou que a vida adulta não tinha espaço para o tatame.

“Quando você tira o que te faz feliz, acabou sua felicidade. E o jiu-jitsu é o que me faz feliz.”

Antônio Assef, no Pura Connection · 0:02:03

O garoto que queria trocar porrada

O Assef contou que o pai morreu quando ele tinha nove anos e que, a partir dali, sentiu que precisava ser o homem da casa. Aos 13, no interior de Minas, entrou numa academia de musculação para ganhar corpo. Lá trabalhava um professor que apareceu com a mão enfaixada. O garoto perguntou se ele trocava porrada, ouviu que sim e pediu para treinar vale-tudo.

A surpresa veio no primeiro dia. Segundo ele, para fazer vale-tudo naquela academia era obrigatório saber jiu-jitsu antes, porque a luta ia acabar no chão de qualquer jeito. Ele diz que não gostou da ideia de ficar agarrando os outros e que pretendia fazer só a aula experimental. Nunca mais parou.

O que prendeu, pelo que ele contou, foi ver gente menor ganhando de gente maior. Com 13 anos, treinando no meio de adultos, ele entendeu que conseguiria chegar lá se pagasse o preço. Ele leva isso para tudo: diz que fez o vestibular só na faculdade onde queria passar e passou.

De 180 quilos ao título que ele foi lutar para perder

O jiu-jitsu levou o Assef ao Rio. Ele diz que escolheu a faculdade porque ela tinha equipe de jiu-jitsu e que o plano era sair da cidade formado e faixa-preta. Conseguiu as duas coisas aos 24, mas acabou ficando de vez.

Aí veio a fase ruim. Ele contou que acreditou na ideia de que depois de formado era hora de trabalhar e ganhar dinheiro, tirou o jiu-jitsu da rotina e engordou até os 180 quilos, entre os 24 e os 29 anos. Quando voltou, já pesado, diz que o jiu-jitsu segurou o peso e ele começou a ganhar campeonatos de novo, tudo já trabalhando como médico, com plantões e comida de lanchonete.

A rotina era pesada. Segundo o Assef, dos 25 aos 32 ou 33 anos ele trabalhava de dia no Exército, onde foi médico da brigada paraquedista, e passava seis noites por semana no hospital, dormindo três ou quatro horas. Ele também foi chefe de sala vermelha por cerca de cinco anos e trabalhou em CTI de Covid, cuidando de até 40 pacientes.

O ponto de virada foi um Brasileiro sem kimono. Ele conta que estava cansado, sem preparação, e foi lutar pensando em se aposentar. Ganhou mesmo assim. Foi aí que decidiu arrumar a vida: largou os plantões noturnos aos poucos e passou de seis para dez horas de sono por noite.

“Voltei a performar bem, voltei a sentir energia, só porque eu saí de seis para dez horas de sono.”

Antônio Assef, no Pura Connection · 1:04:43

A guarda que salvou e a internação que virou profissão

Uma das histórias mais curiosas é de quando ele ainda nem tinha entrado na faculdade. O Assef diz que o primeiro professor mandou ele aprender a jogar por baixo, porque era grande e queria amassar todo mundo. A meia-guarda virou a arma dele. No primeiro campeonato adulto, com menos de 90 quilos, ele lutou o absoluto contra adversários acima de 100 e, segundo ele, enfrentou um de 175 quilos na semifinal. Ganhou o absoluto raspando e finalizando na final.

No dia seguinte, acordou travado. Ele conta que ficou cinco dias internado com uma infecção no púbis e a clavícula inflamada, passou por vários médicos e exames sem melhorar. Quem resolveu, segundo ele, foi um primo ginecologista e homeopata que olhou o exame de sangue, conversou com ele e receitou remédios. Em 15 dias o Assef voltou a andar e a treinar. Ele diz que foi ali que decidiu ser médico daquele jeito: ouvir o paciente primeiro e olhar o exame depois.

O que ele mudou para lutar como master

Hoje o Assef trabalha com medicina esportiva e hormônios. Na conversa, ele separa reposição hormonal acompanhada por médico do uso de vários hormônios ao mesmo tempo, que ele diz ter efeitos colaterais graves. Sobre os peptídeos da moda, é cauteloso: segundo ele, ainda faltam estudos de segurança, e ele não prescreve.

Para o tatame, a receita dele é mais simples. Ele diz que a faixa-preta já sabe jiu-jitsu suficiente e que o atleta master perde por não conseguir aplicar o que sabe, por falta de força, gás ou mobilidade. Por isso treina jiu-jitsu e musculação no mesmo peso, e o treino de porrada de verdade acontece a cada 15 dias. Ele também conta que já fez atleta ganhar campeonato mandando treinar menos, porque corpo cansado demora um ou dois segundos a mais para responder.

“O atleta master tem que cuidar do seu corpo mais que cuidar da técnica do jiu-jitsu, porque a técnica ele já tem.”

Antônio Assef, no Pura Connection · 1:20:47

O ADCC, segundo ele, é o evento que motivou a geração dele. O ídolo é Ricardo Arona: o Assef lembra de assistir quando criança e querer lutar igual, sempre andando para a frente, como se estivesse de férias.

O que fica da conversa

Saí da entrevista com a ideia de que o Assef trata a derrota com a mesma frieza com que trata um paciente na sala vermelha. Para ele, o jiu-jitsu ensina a separar os problemas, a controlar a emoção e a voltar depois de perder. Ele diz que está sempre 85% pronto para lutar e só ajusta o resto nas duas semanas antes da competição.

“Quando você perde na competição, você tem dois caminhos. O primeiro é aceitar que você é frouxo e não voltar mais. O segundo é corrigir o problema e voltar mais forte.”

Antônio Assef, no Pura Connection · 0:10:17

“Se lutar amanhã, eu tô pronto.”

Antônio Assef, no Pura Connection · 1:25:22

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.