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Connect Cast · Augusto Tanquinho

Augusto Tanquinho conta como venceu Rafael Mendes depois de quase parar

Campeão de quimono, sem quimono e do ADCC, ele relembra a quebra do domínio da Atos em Abu Dhabi, a cirurgia no pescoço e os bastidores do UFC.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 24 dez 2025 (2:28:11).

Em 2011, a categoria de baixo dos grandes campeonatos de jiu-jitsu tinha dono. Os quatro atletas da Atos chegavam juntos à semifinal e fechavam a chave, sem semifinal nem final de verdade. Foi aí que Augusto Tanquinho, carioca criado na tradicional Academia Kioto, entrou no caminho deles em Abu Dhabi e tirou três dos quatro, antes de vencer Rafael Mendes na final por decisão dos árbitros.

Assisti à conversa dele no Connect Cast e o que mais me chamou atenção foi o que veio depois. Meses após o auge, uma hérnia no pescoço quase o deixou tetraplégico, e o médico disse que ele nunca mais treinaria. Tanquinho voltou, ganhou o Mundial Sem Quimono e bateu o Rafael de novo na final do Mundial de 2013. Hoje, aos 42 anos, mora no Arizona, tem academia própria e passou anos no corner de um campeão do UFC.

“Ficou marcado que eu fui o cara que, das cinco lutas que eu fiz, ganhei quatro da Atos.”

Augusto Tanquinho, no Connect Cast · 0:47:13

O plano para furar o fechamento da Atos

O Tanquinho conta que naquela época o Abu Dhabi Pro só aceitava convidados. Cada atleta ganhava a vaga numa seletiva, e ele conseguiu a dele lutando em Portugal, uma semana antes do Europeu. Em 2011 o evento teve dois fins de semana seguidos: o primeiro sem quimono, o segundo de quimono. Ele contou que foi a única vez que fizeram assim, porque deu trabalho demais.

Chegou doente, com a garganta fechada e febre. Segundo ele, a organização o levou ao hospital e pagou o atendimento. No sem quimono perdeu logo na primeira luta para Davi Ramos, por uma vantagem. Como o peso não subiu durante a semana, os amigos o convenceram a descer de 74 para 65 kg no quimono. Ele nunca tinha cortado peso na vida e diz que quase morreu na sauna, mas bateu.

O grupo de sete ou oito atletas da categoria chegou a pedir para se inscrever todo mundo como uma equipe só, para não se enfrentarem antes de pegar os caras da Atos. A organização não deixou. Na chave, Tanquinho passou por Ryan Hall, depois por Guilherme Mendes, Ary Farias e Ed Ramos. Na final, o Rafael.

Ele reconhece que a luta foi parelha e que qualquer resultado seria justo. A decisão saiu 2 a 1 para ele. Segundo o Tanquinho, o Guilherme passou de quinta a sábado falando no hotel e na internet, e depois Ramon Lemos, professor dos irmãos, foi pedir desculpas pelo comportamento dos meninos no Brasileiro seguinte. A amizade de quem tinha dividido táxi no aeroporto, conta ele, nunca mais foi a mesma.

A hérnia que quase encerrou tudo

Um mês depois de Abu Dhabi, o Rafael venceu o Mundial da IBJJF de 2011 em cima dele, por uma vantagem. No fim daquele ano, treinando, Tanquinho sentiu uma fisgada no pescoço. A dor desceu para a escápula, o peitoral e o bíceps encolheram. A ressonância mostrou uma compressão grande na medula. Segundo ele, o neurocirurgião disse que era caso cirúrgico e que um escorregão no banho poderia deixá-lo tetraplégico. Foram dez dias parado até a operação.

Depois da cirurgia veio a sentença: com sorte daria aula, treinar nunca mais. Ele se mudou para os Estados Unidos, fez a recuperação por lá e insistiu com o médico até conseguir nova ressonância. Foi liberado uma semana antes do Mundial de 2012, que só assistiu. Em novembro de 2012 venceu o Mundial Sem Quimono, com 9 a 0 em cima de Leandro Lo e vitória na final contra JT Torres.

Em 2013, a revanche. Ele conta que venceu Cobrinha na semifinal e entrou na final contra o Rafael com a cabeça inabalável. Na espera, os dois se olharam e o Rafael virou o rosto. Tanquinho ganhou por vantagem.

“Eu não passei por isso à toa. Tudo que eu passei me moldou de novo.”

Augusto Tanquinho, no Connect Cast · 1:14:40

O ADCC aos 36 e a virada do nutricionista

O único título que faltava era o ADCC. Ele disputou quatro edições sem sucesso e diz que em todas deixou algo por fazer. Numa delas, tinha luta marcada no UFC duas semanas depois e torceu o pé no evento. Na quinta tentativa, já com 36 anos, a esposa sugeriu que fosse a despedida, desde que feita do jeito certo. Pela primeira vez na carreira ele contratou um nutricionista e chegou a 4% de gordura.

Tanquinho explica que no ADCC o atleta pesa até três vezes, com pesagem na manhã de cada dia de luta, e que por isso a estratégia mudou tudo. Olhando a chave de 16, pensou que qualquer adversário servia. Ganhou.

“Eu sou bom porque eu pago o preço para ser bom.”

Augusto Tanquinho, no Connect Cast · 1:23:33

UFC, doping e a amizade com Sean O'Malley

Tanquinho foi para o MMA Lab em busca de treino sem quimono e acabou ficando. Lá virou amigo de Benson Henderson, então campeão do UFC. Os dois são padrinhos dos filhos um do outro. Invicto em cinco lutas, ia disputar o cinturão do Legacy quando aceitou substituir alguém no UFC e machucou a costela no dia seguinte. Voltou sem treinar, estourou o peso e perdeu para Cody Garbrandt. Depois venceu Frankie Saenz em Phoenix, levou o bônus de luta da noite e usou esse dinheiro para abrir a academia em 2016.

A parte mais dura foi o doping. Três semanas antes de enfrentar Merab Dvalishvili, ele foi notificado por ostarina. Gastou mais de 20 mil dólares com advogado e o processo levou 13 meses, terminando em seis meses de punição por contaminação. Segundo ele, Sean O'Malley e Kyler Phillips, da mesma academia e da mesma categoria, testaram positivo para a mesma substância em quantidade mínima. Tanquinho acredita que alguém de má-fé colocou algo na água, sem ter como provar.

A relação com o Sean começou quando Tim Welch, faixa-roxa e hoje treinador principal do lutador, pediu para aprender jiu-jitsu com ele. O Tim levou o Sean, ainda amador. Hoje a academia do Tim é filiada à do Tanquinho e segue a metodologia dele.

“Até hoje eu nunca cobrei um dólar do Sean.”

Augusto Tanquinho, no Connect Cast · 1:44:44

O recado para Mica Galvão e o que fica

No fim, ele falou de Mica Galvão, que chama de fenômeno. Contou que o Mica e o pai pediram, antes do ADCC de 2022, uma assessoria sobre corte de peso e perguntaram quanto custava. Ele não cobrou. Para o Tanquinho, o Mica pode brilhar no MMA se tiver paciência para aprender a lutar em pé sem perder o jiu-jitsu. Ele conta que quase caiu nessa armadilha no início: parou de treinar chão, não conseguiu finalizar um faixa-branca no treino e voltou correndo para o quimono.

“Eu sei que um dia eu não vou derrubar alguém. Eu tenho que estar confiante na minha mão.”

Augusto Tanquinho, no Connect Cast · 2:23:43

O que fica da entrevista é um atleta que não arranja desculpa. Ele diz que perdeu muito de faixa-azul, que nunca lutou para impressionar ninguém e que alinhar físico, técnica e cabeça foi o que decidiu cada título. Hoje ganha mais com a academia do que ganhava lutando, e diz que isso já basta.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.