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Pura Connection · Tyrone Gonsalves, Aurélie Le Vern

Aurélie Le Vern treinou num quintal na Guiana e virou campeã mundial

A francesa e o marido e professor, Tyrone Gonsalves, contam como o jiu-jitsu cresceu no extremo norte da América do Sul, com tatame na chuva e muita viagem.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 9 dez 2024 (1:28:35).

Durante um ano e meio, a academia de Tyrone Gonsalves foi o quintal de um aluno na Guiana Francesa. Os tatames ficavam no chão, às vezes debaixo de chuva. Foi ali que Aurélie Le Vern, francesa que chegou ao jiu-jitsu depois de anos praticando esporte só por diversão, treinou para virar campeã mundial.

“A gente jogava as placas de tatame ali debaixo da chuva às vezes, e ela foi campeã.”

Tyrone Gonsalves, no Pura Connection · 1:18:51

Assisti à conversa dos dois no Pura Connection, a primeira entrevista que eles deram juntos, e gostei muito de ver o jiu-jitsu contado por quem está longe do centro. A Guiana Francesa fica no extremo norte da América do Sul, faz divisa com o Amapá e, como o Tyrone explicou, é território francês fora da França. Nada ali foi fácil, e é justamente isso que faz a história valer.

Do Pride na TV ao tatame da Guiana

O Tyrone começou em 2007. Ele contou que era fã do Pride e queria fazer aquilo que via no ringue, mas não encontrou jiu-jitsu de cara. Fez um ano de muay thai até que um amigo de infância, o Daniel, o levou para treinar em outra cidade com o precursor do jiu-jitsu no território.

O sonho dele sempre foi viver do esporte. Segundo o Tyrone, a rotina de escritório francesa, de 35 horas por semana, nunca serviu para ele. Antes de o jiu-jitsu dar dinheiro, foi motorista de ônibus escolar, barman, segurança e distribuidor de panfleto. Na faixa-roxa tirou o diploma de educador físico e começou a dar aula em escolas. Na marrom, passou a ensinar adultos numa academia.

Quando o homem que implantou o jiu-jitsu na Guiana foi embora para a França, os alunos seguiram o Tyrone. Ele conta isso sem vaidade e diz que, no começo, as aulas eram improvisadas: um dia raspagem, no outro queda, sem nenhuma continuidade.

Faixa-preta sem guarda

A parte que eu mais gostei foi a honestidade do Tyrone sobre a própria faixa-preta. Ele contou que pegou a preta sem saber fazer guarda. A guarda dele era um leg press: empurrava o adversário e tentava levantar para pegar uma perna no single-leg. Na Guiana, era o rei, todo mundo o conhecia.

Aí chegou Thiago Goiabeira, cearense de Fortaleza que hoje mora na França. Segundo o Tyrone, o Thiago morou dois anos na Guiana e, no primeiro treino, o espancou como se ele fosse faixa-branca.

“Foi um divisor de águas ali onde eu me deparei com a minha verdade.”

Tyrone Gonsalves, no Pura Connection · 0:47:23

Ele tinha duas opções: ficar na zona de conforto ou recomeçar. Escolheu recomeçar e treinou duas vezes por dia com o Thiago durante dois anos. Foi o Thiago quem apresentou a ele a metodologia Ribeiro Jiu-Jitsu. Logo depois vieram Saulo Ribeiro e Xande Ribeiro. O Tyrone contou que teve a honra de ser corrigido pelo Saulo sozinho, os dois no tatame, e que aquilo mudou a técnica e a cabeça dele.

Segundo ele, foi aí que entendeu a importância de ter uma metodologia: separar os alunos por nível e dar sequência ao que se ensina. Depois que começou a fazer isso, o jiu-jitsu na Guiana explodiu, nas palavras dele.

A professora que trocou a escola pelo tatame

A Aurélie nasceu em Aix-en-Provence, no sul da França, e estudou para ser professora de educação física. Fazia escalada, mountain bike e esqui, sempre por diversão. Ao se formar, contou, não podia escolher onde trabalhar: as opções eram Paris, longe da família, ou lugares que quase ninguém quer, como a Guiana Francesa. Escolheu a Guiana e chegou em 2016 com uma bolsa de roupa.

Lá começou no judô. O jiu-jitsu treinava no mesmo espaço, e ela ficava olhando sem entender por que aquela gente continuava lutando depois da queda. Em 2017 fez uma aula experimental e não saiu mais. Para ela, o jiu-jitsu é o passo seguinte do judô: você cai e tem que continuar.

A primeira competição foi com seis meses de treino, na Alemanha, e ela não ganhou nenhuma luta. A primeira vitória veio no Open de Paris. Desde então, segundo ela, foi campeã mundial em todas as faixas coloridas, e acabou de vencer no ADXC do Rio de Janeiro contra uma adversária que lutava em casa, com a torcida toda a favor.

“Ele acreditou em mim mais do que eu desde o início.”

Aurélie Le Vern, no Pura Connection · 0:25:26

O Tyrone é professor dela desde a faixa-branca até a preta. Ela diz que o segredo foi simples: ele já conhecia aquele mundo, e ela só precisava aplicar o que ele mandava.

Um dojô de madeira e uma preocupação com a França

O quintal veio depois que um projeto de reformar um galpão com um sócio deu errado. O Tyrone já tinha comprado quase 200 metros quadrados de tatame trazidos de São Paulo. A solução apareceu por um pai de aluna, dono de uma empresa de construção, que ofereceu construir um dojô aberto de madeira no terreno do amigo Fred, onde eles treinam hoje.

Ele contou também que o que abriu os olhos dele foi viajar. Veio ao Rio acompanhando o antigo professor num Mundial de Masters, treinou na academia do Comprido e percebeu que o jiu-jitsu era muito maior do que imaginava. Depois foi várias vezes a Manaus e aos Estados Unidos. A cada volta, o parceiro que antes o segurava passava a sofrer.

A Aurélie trouxe uma preocupação que me fez pensar. Na França, segundo ela, o crescimento do jiu-jitsu está sendo organizado de um jeito que permite a um faixa-azul abrir academia. Ela diz que aprendeu o esporte com um brasileiro e com a cultura brasileira, e que nunca pensaria em abrir academia na azul.

“Tem coisa que não se explica, que se sente.”

Aurélie Le Vern, no Pura Connection · 1:05:12

O que fica da entrevista é isso. Os dois falam o tempo todo de respeito, de ter um mestre acima de você mesmo depois da preta, e de levar para a França e para a Guiana aquilo que aprenderam com os brasileiros. A Aurélie, inclusive, faz questão de falar português nas redes.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.