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Podcast Nem Me Viu · Brunno Hulk

Brunno Hulk chorou de joelhos ao saber que ia ao Contender do UFC

O peso-médio da Evolução Thai conta a reunião que mudou a carreira, a visualização com a foto do adversário e o round infinito do mestre Dida.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 10 out 2022 (2:18:55).

Numa segunda-feira de manhã, Brunno Hulk chegou para treinar na Evolução Thai, em Curitiba, e deu de cara com uma reunião. O mestre André Dida tinha mandado mensagem no domingo pedindo que ninguém faltasse. Os empresários estavam lá, um dos investidores da equipe também. O Hulk achou que vinha notícia ruim. Veio a melhor da vida dele: tinha chegado a vez de lutar no Contender, o programa do Dana White que serve de porta de entrada para o UFC.

Assisti à conversa dele com Fabrício Werdum no Nem Me Viu, gravada logo depois de ele assinar com o UFC, e esse momento é o coração da entrevista. Ele contou que travou na frente de umas 40 pessoas.

“Comecei a chorar, ajoelhei. Só agradecer, porque era tudo para aquele momento.”

Brunno Hulk, no Podcast Nem Me Viu · 0:27:01

A galera pulou, gritou, abraçou. Segundo o Hulk, o nome dele já estava na lista do evento desde a sétima luta profissional. A oitava entrou no cartel depois. Da notícia até a luta foi um mês e meio, menos do que os dois ou três meses que ele considera ideais para um camp.

Uma luta com cinco dias de aviso antes do cinturão

O caminho até a reunião foi apertado. O Hulk contou que, com os empresários, tinha traçado a meta de fazer três lutas no primeiro semestre. Lutou no Big Shot em janeiro e já sabia que teria outra no mesmo evento, valendo cinturão, em 4 de junho. Faltava uma no meio. Apareceu uma em Curitiba: ele pegou a luta num domingo, pesou na sexta e lutou no sábado.

O problema é que ele vinha de uma lesão de janeiro e, nesse processo, rompeu o músculo posterior da coxa. O médico disse que ele não podia lutar. O medo dele era perder o Big Shot, que era a chance de ter um cinturão e ser mais visto no Brasil. Ainda assim, topou ser a luta principal de um evento teste em Curitiba, dez dias antes do Big Shot. O Dida brincou no programa que, se soubesse, não teria aceitado. O Hulk disse que precisava sentir a adrenalina e entender como o corpo ia reagir.

No Big Shot, o adversário era o mais alto que ele já tinha enfrentado, 1,98 metro, e faixa-preta de jiu-jitsu. O Hulk nocauteou no primeiro round, com um minuto e 30, e saiu com o cinturão e o cartel de oito vitórias sem derrota. Na volta, fez a cerimônia de casamento na igreja com a Beatriz, com quem já era casado no civil, e contou que quis entrar com o cinturão.

A foto do adversário na porta do quarto

O que mais me chamou atenção foi a preparação mental. O Hulk contou que sempre se machucava de 20 a 30 dias antes das lutas, porque ia no limite até o fim. Para o Contender, o Dida mandou ele treinar tranquilo e fazer acompanhamento com um psicólogo, o doutor Marco, de Curitiba. Ele colou a foto do adversário na porta do quarto, escreveu o que queria que acontecesse e visualizou a luta todos os dias. Na esteira, dava soco no ar. Segundo ele, foi a melhor preparação e o melhor corte de peso das nove lutas que fez.

Em Las Vegas, chegou com 86,3 quilos no sábado, passeou pela cidade, que nunca tinha visto, e no domingo à noite estava com 83. No dia da pesagem, o adversário não apareceu na hora. A organização avisou que ele não tinha batido o peso na primeira tentativa. O Hulk ficou dois minutos achando que a luta ia cair. Quando o outro enfim desceu, ele já estava comendo e se hidratando, e olhou o rival sofrendo.

“A primeira guerra você já perdeu, agora vai sozinho.”

Brunno Hulk, no Podcast Nem Me Viu · 0:40:14

Na encarada, o adversário veio com uma risadinha. O Hulk contou que respondeu na cabeça dele, estilo Curitiba.

“Vamos tirar esse sorriso na porrada.”

Brunno Hulk, no Podcast Nem Me Viu · 0:41:17

Pelo relato dele, a luta seguiu o roteiro. A primeira mão entrou e o sorriso sumiu. Ele fingiu que ia pegar a perna, o adversário baixou a guarda e levou um cruzado na cabeça. Ouviu o Dida gritar que o cara tinha sentido e fechou no chão. Ele disse que chora muito no dia da luta, desde a hora que acorda, pensando na filha, na esposa e na família, e que é assim que relaxa. No fim, chorou de novo na entrevista: foram exatamente quatro anos até aquela oportunidade.

O round infinito e a escola do Dida

O Hulk chegou na Evolução como brigador de rua, sem boxe e sem muay thai. No primeiro dia, o Dida colocou ele no meio com o Toco e os dois saíram na mão. Depois, fecharam uma parceria: o Hulk ensinava judô ao Toco e o Toco segurava manopla para ele, sempre antes do treino principal das 10h30. Como no judô ele lutava com a direita na frente, decidiu virar canhoto no MMA para facilitar as quedas.

Toda quarta-feira havia o round infinito. Depois de cinco rounds de cinco minutos de muay thai e três de três de boxe, o Dida escolhia dois atletas e soltava os dois no meio da roda até ele mandar parar. O Hulk contou que o dele passou de 30 minutos. Segundo ele, é ali que se vê o espírito do lutador.

O Werdum conhece esse tipo de treino. Ele lembrou que conheceu o Dida na Chute Boxe em 2007, quando o mestre era conhecido como Carrasquinho, e que numa roda de "se vira nos 30" num parque de Curitiba, depois de dez quilômetros de corrida no sol, levou um soco do Dida dentro do olho. Contou que ficou um mês e meio vendo duas pessoas.

“Eu sou um produto Evolução 100%, porque eu cheguei lá do zero.”

Brunno Hulk, no Podcast Nem Me Viu · 1:02:26

Ele também citou o Daniel Acácio, que assumiu a parte de luta agarrada quando o Dida foi para os Estados Unidos e ensinou a usar fintas e quedas de perna no MMA. E contou uma lição: num treino, derrubou o Rafael Carvalho de cabeça com um kata-guruma quando o companheiro se preparava para lutar com Lyoto Machida. O Dida ficou bravo, e foi aí que ele diz ter aprendido a treinar sem machucar os parceiros.

Do judô à carta de dez anos

O Hulk vem do judô. Contou que a primeira competição foi em 1996, que pegou a faixa-preta aos 16 anos e que em 2008 já estava nas seleções de base, com título brasileiro escolar. Aos 18, disse, conheceu "o lado escuro": três anos de festa e de briga de rua. Ele falou disso sem problema e contou que foi a esposa, conhecida na igreja, quem acreditou nele quando pesava 128 quilos.

Ele voltou ao judô, ganhou títulos no Paraná, desceu para a categoria até 100 quilos e chegou à Evolução com 108. Foi o Dida quem decidiu que ele seria peso-médio, de 84 quilos. O sonho vinha das fitas de VHS do Pride. Ele guarda uma carta que escreveu naquela época.

“Em 10 anos eu vou estar no UFC.”

Brunno Hulk, no Podcast Nem Me Viu · 1:24:59

Segundo ele, seis anos depois já estava no UFC, casado e com a filha. Falta o cinturão. No fim da conversa, ainda falou do ídolo Wanderlei Silva, que ele encontrou saindo do vestiário no primeiro dia de Evolução e que, na terceira luta de MMA dele, disse que aquele moleque tinha futuro. O que fica da entrevista é um lutador que trata a cabeça com o mesmo cuidado que trata a mão, e que esperou quatro anos sem pular etapa. A estreia no UFC, ele pediu para janeiro.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.