Pura Connection · Marcus Almeida
Buchecha revela a conversa interna que o fez vencer Rodolfo Vieira em 2012
O multicampeão mundial conta o ritual antes das lutas, a derrota que quase o fez parar e a mudança de vida para entrar no MMA.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 27 mai 2021 (1:16:16).
Nas quartas de final do Mundial de 2012, Marcus Buchecha entrou no tatame para enfrentar Rodolfo Vieira com uma certeza que ele mesmo descreve sem rodeio: só perderia se fosse estrangulado e apagasse, porque bater ele não ia. Foi a segunda luta entre os dois e a primeira vitória do Buchecha sobre o Rodolfo. Segundo ele, foi o divisor de águas da carreira.
Assisti à conversa dele no Pura Connection, gravada quando ele já tinha dez anos de faixa-preta e estava se preparando para estrear no MMA. O que mais me chamou atenção foi o quanto ele fala da cabeça, mais até do que de técnica. Para o Buchecha, o adversário mais perigoso de um campeonato mora dentro do próprio atleta.
“A única maneira de perder aquela luta era se ele me estrangulasse e eu apagasse.”
Marcus Almeida, no Pura Connection · 0:31:07
A derrota que quase o fez parar
O Buchecha conta que teve uma carreira brilhante nas faixas coloridas, com títulos mundiais no peso e no absoluto. Só que, para ele, o que conta de verdade é a faixa-preta, porque é ali que o nível vira profissional e o atleta enfrenta todo mundo.
No primeiro Mundial de faixa-preta, ele perdeu na final do peso e na semifinal do absoluto. Chamou aquilo de um grande balde de água fria. Segundo ele, bateu a preocupação de ter apostado todas as fichas no jiu-jitsu sem plano B, os anos passando, e ele chegou a desanimar e parar de treinar.
A virada veio em 2011. Ele contou que ganhou o Pan-Americano e o Mundial sem kimono, no peso e no absoluto, e aí caiu a ficha de que era campeão mundial faixa-preta e podia viver do esporte. Depois do campeonato em Long Beach, na Califórnia, decidiu nem voltar para o Brasil. Ficou por lá correndo atrás do sonho de ser campeão mundial de kimono, e conta que conseguiu no ano seguinte.
O ritual das duas horas antes da luta
Quando o Buchecha começou a competir, segundo ele, ninguém falava em preparação mental. Ele lembra que por volta de 2010 quase nenhum atleta tinha psicólogo, e isso nunca passou pela cabeça dele. O que ele fez foi criar um hábito próprio: se a luta é ao meio-dia, ele chega ao ginásio às dez.
Nessas duas horas, ele conversa consigo mesmo. Conta que chega cheio de dúvidas, com medo de perder, de ser humilhado por um cara da nova geração ou por um azarão. Aí se pergunta por que está nervoso e lembra que quem escolheu estar ali foi ele, porque aquilo é a paixão e a vida dele. Na hora de descer para a área de competição, repassa cada sacrifício, cada gota de suor e de sangue. Segundo ele, o nervosismo não some, mas a forma de pensar muda completamente.
“A sua cabeça pode ser o seu maior adversário.”
Marcus Almeida, no Pura Connection · 0:28:29
A primeira vez que ele lembra de ter feito essa conversa foi justamente antes da luta com o Rodolfo, em 2012. O Buchecha diz que sabia que aquela luta ia definir se ele seria alguém no esporte ou só mais um. Segundo ele, muita gente considera aquela uma das melhores lutas de jiu-jitsu de competição, e foi a luta mais assistida do YouTube. Depois dali, ele adotou o método.
Treinar menos para render mais
Perguntado sobre a preparação, o Buchecha é sincero: o segredo sempre foi o treino. Ele demorou anos para entender o peso da alimentação. No primeiro ano em que foi campeão, conta, comia mal por pura correria, dando muita aula na Califórnia e comendo em qualquer restaurante.
Com o tempo, aprendeu a separar cansaço, preguiça e corpo pedindo descanso. Aos 31 anos, ele disse que tira a quarta-feira para um treino só e mais tranquilo. Se fizesse dois treinos pesados, o de quinta já não renderia e o fim de semana ia embora deitado. O resumo dele para o sucesso é juntar paixão e trabalho duro.
Ele também contou uma conversa com o treinador de muay thai, que disse que atleta sem disciplina não chega a lugar nenhum, mas que disciplina demais também pode virar problema. Para o Buchecha, o ponto é saber o equilíbrio.
O sonho dos outros na Flórida
Em 2010, com 20 anos, o Buchecha foi campeão mundial no absoluto e pegou a faixa-preta logo em seguida. O professor dele na época ofereceu a chance de dar aula numa filial na Flórida, e ele foi o primeiro mandado para lá. Encarou como missão de soldado.
Com o tempo, porém, percebeu que dava três, quatro horas de aula por dia e treinava uma. Via os outros atletas evoluindo enquanto ele cuidava da academia de outra pessoa, com alunos que não eram dele. Segundo o Buchecha, estava vivendo o sonho de outro. Largou tudo e voltou para o Brasil.
Ele não esconde que, para ser atleta de ponta, precisou ser um pouco egoísta. Cita Michael Jordan e Kelly Slater como exemplos de gênios chamados de egoístas. Conta que chegou a abrir mão de um relacionamento para correr atrás do sonho.
Contra o trash talk no jiu-jitsu
Um assunto em que o Buchecha foi bem direto: provocação verbal. Ele disse que nunca fez trash talk e não vai fazer. No MMA, entende, porque tem milhões e pay-per-view envolvidos, mesmo sem concordar. No jiu-jitsu, segundo ele, ninguém ganha bolsa milionária para justificar isso, e não combina com a filosofia do esporte. Ele até se diz fã de Conor McGregor como lutador, mas pergunta a quem tem filho no jiu-jitsu se prefere que ele se espelhe no McGregor ou em Georges St-Pierre.
“Nunca fiz trash talk e não vou fazer, porque acho que não tem sentido nenhum no nosso esporte.”
Marcus Almeida, no Pura Connection · 0:13:11
A mudança de vida para o MMA
Na época da entrevista, o Buchecha estava havia quase um ano treinando para o MMA. Ele sabe que nenhum título do jiu-jitsu vai ser traduzido para dentro da grade e conta que tem dia em que não consegue derrubar ninguém nem usar nada do jiu-jitsu. Mesmo assim, garante que não vai trocar uma vida inteira de jiu-jitsu por um ano de boxe e muay thai.
O compromisso é sério. Ele morou dez anos na Califórnia e se mudou para a Flórida só para se profissionalizar no MMA. Diz que botou todas as fichas nisso.
“Não vou treinar dois meses, fazer um camp e botar uma luta de MMA para falar que virei lutador de MMA.”
Marcus Almeida, no Pura Connection · 1:09:03
Os exemplos que o animam são Demian Maia, Jacaré, Werdum e Charles do Bronx. Com o Charles, a história é pessoal: os dois caíam na mesma chave na faixa-azul juvenil dos campeonatos paulistas e nunca se enfrentaram. Ver o Charles, da mesma região, do Guarujá, ganhar o cinturão justamente quando ele se preparava para estrear foi um incentivo gigante. Somam-se o Rodolfo, que segundo ele foi o maior rival no jiu-jitsu e vai bem no MMA, e o Werdum, que foi campeão mundial de jiu-jitsu e depois campeão do UFC.
O que fica da conversa
Se tivesse que resumir o jiu-jitsu numa palavra, o Buchecha escolhe liberdade. Foi por causa do esporte que viajou o mundo, aprendeu inglês, virou cidadão americano e hoje chama de amigos ídolos de infância, como o Kelly Slater e BJ Penn. No Havaí, conta, a primeira coisa que fez foi dar um treino numa academia de jiu-jitsu, e no dia seguinte a galera na água já liberava onda para ele.
Saí da conversa com a impressão de um atleta que se conhece bem. O Buchecha fala de medo sem vergonha, de erro sem drama e de MMA sem prometer resultado. Promete só levar a bandeira do jiu-jitsu para dentro da grade da melhor maneira possível.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.