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Pura Connection · Carlos Sapão

Carlos Sapão diz que ninguém passou sua guarda em 24 anos de jiu-jitsu

O faixa-preta da Barra da Tijuca contou como começou aos seis anos, por que foi embora para os Estados Unidos aos 16 e por que desistiu de ter academia.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 24 jul 2023 (2:10:27).

O apelido de guarda intransponível tem explicação. No Pura Connection, Carlos Sapão contou que competiu por 24 anos e que, em campeonato, ninguém passou a guarda dele. O mais curioso é o jeito como ele falou disso: quase de passagem, dizendo que hoje não liga mais para esse número e que só tocou no assunto porque a conversa era especial.

“Eu competi durante 24 anos, nunca ninguém passou minha guarda em campeonato.”

Carlos Sapão, no Pura Connection · 1:06:04

Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a sinceridade. O Sapão e o André, dono do canal, se conhecem desde 1994, quando o convidado era faixa-amarela e o André estava chegando no jiu-jitsu. Então o papo foi de dois amigos lembrando a Barra da Tijuca dos anos 90, a ida para os Estados Unidos e a escolha de viver do jiu-jitsu sem ter academia.

De Jorge Pereira ao adulto aos 13 anos

O Sapão começou com seis anos. Contou que a mãe, dona Ivone, chilena, era mãe solteira de cinco filhos e o colocou para treinar com Jorge Pereira. Ele disse que nem sabia o que estava fazendo: corria no tatame, fazia fuga de quadril, e só depois entendeu que aquilo era jiu-jitsu. A irmã ia junto, mesmo sem gostar, porque ele era pequeno e chorava sozinho.

Muitos anos depois, em Miami, ele foi visitar o Jorge Pereira, que ofereceu a academia para ele dar um seminário. Foi aí que o Sapão perguntou se o mestre lembrava da mãe dele. Segundo o convidado, a resposta veio na hora: a chilena. Ele disse que não sabia nem como agradecer.

A adolescência foi de muito treino e pouco dinheiro. O Sapão contou que chegou a treinar com quimono emprestado, até a mãe do dono descobrir e pedir a peça de volta. Ficou uns dois meses sem treinar, com vergonha de dizer ao professor que não tinha dinheiro, até ganhar um quimono velho e remendado e voltar ao tatame com Marcão e Cabelinho.

Quem mudou o rumo, segundo ele, foi Zé Beleza. O Sapão contou que competia de faixa azul contra adultos e depois voltava para as faixas coloridas nos campeonatos infantis. O Zé Beleza acabou com isso e deu a faixa azul de vez. A primeira vez que lutou entre os adultos foi em Teresópolis, em 1995, na Copa Esporte e Ação, com 13 anos: chegou à final e perdeu para um dos irmãos Bastos. Ele ficou na azul até os 16 e pegou a roxa aos 17 com Carlinhos.

Medalha de ouro e roleta de ônibus

Em 1997, com 16 anos, o Sapão foi para os Estados Unidos. Ele contou que a mãe, que foi revolucionária contra a ditadura de Pinochet, sempre ensinou que ele não podia deixar ninguém decidir o futuro por ele. Quando disse que queria ir embora, ela respondeu que ele devia ir e fazer a carreira lá fora.

O motivo, segundo ele, era a falta de retorno no Brasil. O Sapão lembrou que voltava dos campeonatos sem dinheiro para a passagem, comia na casa dos outros e passava por baixo da roleta do ônibus com a medalha na mochila.

“Eu me lembro, faixa-marrom, campeão mundial, passando debaixo da roleta de ônibus.”

Carlos Sapão, no Pura Connection · 0:57:04

Nos Estados Unidos, a primeira porta foi a dos Machado. Ele contou que Rigan Machado sempre cuidou dele, perguntava se precisava de alguma coisa e o chamava para competir pela equipe, avisando antes o Carlinhos. Por alguns anos o Sapão ficou indo e voltando, seis meses em cada país, até se fixar por volta de 2000, 2001 ou 2002, quando Ralph Gracie, o Rafa, que já tinha sido professor dele no Rio, o chamou para a equipe de São Francisco.

“Ele consegue tirar o monstro que mora em você.”

Carlos Sapão, no Pura Connection · 0:40:25

Segundo o Sapão, o time do Rafa era temido do galo ao pesado. Quando chegava num campeonato, os outros já sabiam que ia ser difícil.

Por que parou de competir

Como faixa-preta, ele disse que quase não competiu no Brasil. A luta que marcou foi em 2003, quando voltou para lutar contra o Franjinha e fez três lutas na mesma noite. Depois, contou, a mãe ficou doente de câncer, e ele percebeu que a energia gasta para se preparar estava tirando tempo de outras coisas. Passou a se dedicar às aulas particulares, aos seminários e a ela. Entre 2008 e 2009 decidiu parar de vez.

O Sapão foi direto sobre isso: enjoou de competir. E contou o que ganhou depois. Disse que, como competidor, nunca reconhecia o adversário, e que só depois de parar começou a elogiar os outros e virou mais amigo de quem enfrentou do que de muitos que estavam do lado dele.

“Hoje eu treino para aprender, e aprender é infinito.”

Carlos Sapão, no Pura Connection · 1:05:01

Uma marca no lugar da academia

Hoje o Sapão não tem academia. Ele contou que já teve uma com 460 alunos e que em São Francisco chegou a quase 500, sem contrato e sem exigir uniforme. Na pandemia fechou a academia que tinha acabado de construir e saiu dando aula ao ar livre. Percebeu que estava mais feliz sem a pressão do negócio. Agora tem a marca CS Jiu-Jitsu, dá seminários e aulas particulares, e a esposa cuida dos contratos.

Ele disse que não consegue cobrar ninguém. Contou que, numa viagem, levou cem peças de roupa para vender num seminário e deu tudo de presente, porque não sabia que era para vender. A esposa, segundo ele, riu e disse que a partir dali ele não viajava mais sem instrução.

Tem também uma história que resume o estilo dele. Num restaurante no Arizona, um senhor de quase 60 anos viu a camisa de jiu-jitsu e disse que sempre quis treinar, mas tinha medo. O Sapão indicou a academia de Marcelo Alonso, perto de onde o homem morava. Um ano depois, recebeu um e-mail de agradecimento: o senhor tinha pegado a faixa azul.

Defesa pessoal sem trauma

No fim, o Sapão falou de defesa pessoal, que hoje faz parte do treino dele. Ele critica quem ensina montando cenas de ataque, principalmente para mulheres. Contou que tem uma irmã que já foi atacada e que não dá para chegar numa aula feminina e pedir que as alunas imaginem um homem agarrando por trás, porque muitas já viveram isso.

O que fica da entrevista é a figura de um campeão que desceu do pedestal por escolha. O Sapão disse que não gosta de ser o professorzão e que prefere dividir o que descobriu. Contou que foi o Saulo o primeiro que ele ouviu dizer que ainda não se sentia mestre. Com 24 anos de guarda invicta, ele diz a mesma coisa.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.