Pura Connection · Cauã Reymond
Cauã Reymond, faixa-preta, conta como Rickson Gracie virou um pai para ele
O ator lembra o bullying na infância, a turma da Strike que fundou a Alliance, os anos duros em Nova York e a preparação para viver Rickson no cinema.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 23 set 2020 (1:08:57).
Quando era menino, Cauã Reymond tinha a foto do Rickson Gracie na porta da geladeira. Criado sem o pai por perto, ele buscava referências, e o Rickson era uma delas. Anos depois, o ator foi convidado para viver o lutador num filme de José Padilha. No Pura Connection, ele disse que sente que se preparou para esse papel a vida inteira.
Assisti à conversa e fiquei surpreso com o tanto de jiu-jitsu que existe na história do Cauã. Pouca gente sabe, mas ele foi competidor de linha de frente numa das equipes mais fortes do país, campeão brasileiro na faixa-azul adulto e faixa-preta aos 22 anos. O jiu-jitsu, nas palavras dele, deu tudo.
“O jiu-jitsu e a arte marcial me deram tudo na vida.”
Cauã Reymond, no Pura Connection · 0:08:56
Uma infância de bullying
O Cauã contou que cresceu com a mãe e a avó, que era empregada doméstica, numa rua sem saída da Gávea, perto da Rocinha. O pai foi morar no Sul quando ele nasceu. Faltava dinheiro, às vezes faltava comida, e na rua ele era o alvo das brincadeiras. Brigava para se defender.
Aos 12 anos, a família se mudou para Nova Friburgo porque o dinheiro estava acabando. Segundo ele, na quinta série foi eleito o garoto mais bonito da turma, e na sexta, o mais feio. Um colega grandão, filho de empresário, tornou aquele ano um inferno. Foi nessa época que o jiu-jitsu entrou para valer.
A Strike e a turma que fundou a Alliance
O Cauã contou que fez caratê aos 10 anos, mas não se empolgou. Aos 12, numas férias no Rio, o pai o levou para treinar na Strike. O pai treinava em Santa Catarina com o professor Paulo Sérgio Santos, aluno do Jacaré. O menino se apaixonou na hora e passou a ir todo dia, até em horário que não era de criança.
A lista de nomes que ele lembra daquele tatame impressiona: Alexandre Paiva, o Gigi, que viria a ser seu mestre, Fábio Gurgel, o Jacaré, Roberto Traven, e ainda Léo Vieira, que depois fundaria a Checkmat. Segundo o Cauã, era uma época dura.
“Era uma época de muita casca-grossa, muita truculência, muito quem é mais brabo.”
Cauã Reymond, no Pura Connection · 0:17:21
Aos 14, ele foi morar com o pai em Santa Catarina e passou a treinar com o Paulo Sérgio, que era também professor de judô. O Cauã descreveu o mestre como duro, técnico e exigente, sem risada no treino, e que cobrava muito respeito à hierarquia. Ele credita a esse professor e ao Gigi metade cada um da caminhada até a faixa-preta. Competiu até os 18 anos e foi campeão brasileiro adulto na faixa-azul.
O Gigi, segundo ele, criou um ambiente familiar dentro de uma equipe cheia de casca-grossa. Hoje o professor do Cauã é o Victor, filho do Gigi.
Faixa-preta em Nova York
O caminho até o cinema passou pelo jiu-jitsu. O Cauã contou que a marca que o patrocinava resolveu testar atletas numa campanha de moda, e ele foi um dos escolhidos. Trancou a faculdade de psicologia, virou modelo e passou por Milão, São Paulo, Paris e Nova York. Lá, ganhou uma bolsa para estudar teatro e foi treinar na academia da Alliance, indicado pelo Gigi. Pouco depois, já estava dando aula.
A vida em Nova York foi dura. Ele contou que morou no Harlem, dormindo num colchão inflável no quarto do cachorro de um aluno, em troca de aula particular, com 20 dólares por dia. Tinha que escolher entre almoçar ou jantar. Estava lá na época do 11 de setembro e não voltou. Chegou a passar duas noites preso, depois de acompanhar um amigo que furtou barras de proteína numa farmácia, e disse que aquilo o fez valorizar a profissão que começava.
Foi em Nova York também a última competição. O pai, que tinha sido mergulhador de elite da Marinha e parou depois de um acidente surfando, sempre sonhou com um filho atleta, e o Cauã disse que essa pressão foi tirando a vontade de competir. O dono da academia insistiu, ele entrou num campeonato norte-americano e foi campeão. Só ligou para o pai depois, para contar.
Dezessete anos sem quimono
O Cauã voltou ao Brasil aos 22 anos, faixa-preta. O Gigi ofereceu aulas para ele dar, mas em uma semana veio um teste na Globo. Ele foi acompanhar um amigo e quem passou foi ele. Treinou mais um mês e parou. Segundo ele, a decisão foi consciente: se não largasse o que fazia bem, não conseguiria fazer outra coisa bem. Ficou 17 anos sem treinar e só voltou a vestir o quimono no ano anterior à entrevista.
“Eu encontrei a excelência naquele momento em que ganhei a faixa-preta.”
Cauã Reymond, no Pura Connection · 0:33:04
O André, apresentador do programa, contou que treinou com ele e confirmou: depois de uns minutos de ritmo, o Cauã endureceu e mostrou nível de faixa-preta, de quem foi da linha de frente da Alliance.
Rickson, a respiração e o filme
A parte mais bonita da conversa é sobre o Rickson. O Cauã contou que conheceu o mestre quando ele veio morar no Brasil, por meio de um amigo fisioterapeuta. Os dois se cruzavam no consultório, conversavam, saíram para surfar juntos. Veio o convite para o filme, e ele teve que deixar de ser só fã.
“O Rickson, sem nem me conhecer, estava na porta da minha geladeira. Ele foi um pai.”
Cauã Reymond, no Pura Connection · 0:55:39
Foi com o Rickson, segundo ele, que aprendeu a respirar, e isso fez diferença quando a fama pesou. O Cauã contou que teve a primeira insônia quando virou protagonista de novela e que nunca quis tomar remédio controlado. A respiração em quatro tempos virou uma das melhores amigas dele. Ele também citou Carlos Gama, com quem o Rickson desenvolveu uma federação, como importante no aprendizado dessas técnicas.
O que ele mais tenta entender para o papel é a espiritualidade do Rickson. O Cauã lembrou que o mestre lutava três vezes na mesma noite no Japão e encarava qualquer um, mas que o que emociona é a relação dele com a natureza, a ponto de passarinho vir comer na mão.
“Acho que estou me preparando desde que nasci para poder fazer isso.”
Cauã Reymond, no Pura Connection · 1:01:52
Saí da entrevista pensando no caminho: um menino que apanhava na rua, com a foto do Rickson na geladeira, virou faixa-preta, ator e agora vai contar a história do ídolo. O Cauã diz que hoje tenta quebrar os padrões da própria família, guardando o fim de semana para a mulher e a filha. O jiu-jitsu, para ele, ensinou exatamente isso: disciplina para chegar lá e sabedoria para saber a hora de parar.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.