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Pura Connection · Daniel Pôncio, Saulo Pôncio

Daniel 220V: do treino na laje na Baixada ao título mundial de jiu-jitsu

Aos 12 anos, o prodígio do jiu-jitsu kids conta como perdeu a primeira luta, treina cinco vezes por dia e virou o jogo contra o rival Ícaro.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 14 out 2024 (0:55:59).

O Daniel 220V Pôncio tem 12 anos, veio da Chatuba de Mesquita, na Baixada Fluminense, e já coleciona títulos no jiu-jitsu kids. No Pura Connection, ao lado do apoiador Saulo Pôncio, ele contou uma história que eu gosto muito de ouvir: a do garoto sem estrutura que treinava em casa e chegou a campeão mundial em Las Vegas.

“Eu vim da Baixada Fluminense, treinava em casa e cansei de treinar na laje da minha casa.”

Daniel Pôncio, no Pura Connection · 0:37:24

Assisti à conversa e o que mais me marcou foi a maturidade. O menino fala de treino, de pressão e de crítica na internet com uma calma de atleta veterano. O próprio Saulo contou que um dia viu o Daniel brincando de carrinho com as crianças da casa dele e levou um susto: tinha esquecido que ele era criança.

Começo aos 5 anos e uma derrota que virou combustível

O Daniel contou que começou aos 5 anos. O pai tinha um amigo com academia e o colocou lá para tirá-lo do celular e de casa. Ele diz que sempre gostou de brincar de lutinha com o pai e que, antes de conhecer o jiu-jitsu, a brincadeira era na base da pancada. Quando descobriu que havia competições, se apaixonou.

O primeiro campeonato veio com dois meses de academia, quando ele ainda não sabia quase nada. Perdeu. Em vez de ficar triste, decidiu treinar muito para voltar e ganhar aquele torneio. Segundo ele, depois disso venceu o mesmo campeonato umas 20 vezes.

Cinco treinos por dia

Perguntado sobre o que o diferencia, o Daniel começou pelo treino. Segundo ele, a preparação física começou muito cedo, antes de todo mundo, e ele sempre treinou mais que os outros porque queria ser o melhor.

“Enquanto as crianças da minha idade estavam fazendo dois, três treinos na semana, eu fazia uns cinco, seis no dia.”

Daniel Pôncio, no Pura Connection · 0:12:20

O Saulo acha que tem mais coisa aí. Para ele, o treino explica muito, mas o Daniel tem um instinto raro para decidir em frações de segundo, calmo, no meio da confusão da luta. O Daniel completa dizendo que sempre aprendeu rápido, na escola e no tatame: se o professor explica uma vez, ele já consegue fazer.

Ele também troca festa por treino sem drama. Contou que prefere não ir à festa da família para treinar e que, graças ao jiu-jitsu, já conheceu a Disney e Dubai, onde, segundo o Saulo, ganhou medalha de ouro. Para ele, isso também é ser criança.

A revanche contra Ícaro

A rivalidade mais comentada da carreira dele até aqui é com o Ícaro, outro prodígio, com estrutura forte de treino nos Estados Unidos, como lembrou o André. O Daniel contou que os dois se enfrentaram em 2022, no Pan, e que perdeu por dois pontos. Depois disso, continuou treinando quieto.

A revanche virou uma das lutas mais esperadas da categoria. Segundo o Daniel, a torcida se dividiu em time Daniel e time Ícaro, e ele recebia mensagens dizendo que ia perder. Venceu.

“Se você plantar feijão, você vai colher feijão. Então eu plantei treino e no final colhi o resultado, que foi a vitória.”

Daniel Pôncio, no Pura Connection · 0:36:21

Fora do tatame, ele diz não ter rivais. Contou que meninos que lutavam contra ele iam treinar na academia dele dois dias antes do campeonato e que, depois, todo mundo jogava bola junto. Para o Daniel, cada criança está ali atrás do próprio sonho, e a briga só faz a criança perder a vontade de treinar.

Família, psicólogo e o filtro das redes

Quando perguntam quem é o maior ídolo dele no jiu-jitsu, o Daniel responde: o pai, que o leva a todos os treinos e a todos os lugares. A mãe aprendeu do zero a cuidar do Instagram e é quem edita e posta todos os vídeos, muitas vezes estudando de madrugada.

Esse cuidado vai além das críticas. O Saulo contou que a mãe faz uma filtragem séria das mensagens, porque chegam coisas que ninguém acredita, inclusive de gente mal-intencionada, e porque o menino, forte e sem camisa, nem parece criança nas fotos. O Daniel diz que usa os haters como combustível e que passou a trabalhar a cabeça com um psicólogo, o Nicolas.

“Para fazer eles pararem de falar, é só mostrar o resultado.”

Daniel Pôncio, no Pura Connection · 0:38:57

O apoio do Saulo e o sonho do UFC

O Saulo, músico e faixa-azul, conheceu o Daniel pelo jiu-jitsu e passou a apoiar a carreira dele, inclusive com dinheiro. Ele contou que achou que ia ser uma bênção na vida do menino e que aconteceu o contrário: hoje os três filhos dele têm o Daniel como referência. O que chamou a atenção dele, disse, foi a dedicação. Sem tatame, o menino treinava no chão; sem academia, treinava em casa com um amigo.

“Se o cara tá tocando o violão com essa corda de náilon, imagina se eu der um violão bom para ele.”

Saulo Pôncio, no Pura Connection · 0:46:19

O André lembrou do mestre Pedro Sauer, que costuma dizer que quem começa tão cedo chega à vida adulta com tempo de treino de faixa-preta, e citou o Rhalan Gracie, filho de Ryan Gracie, como exemplo de lutador que virou referência para os mais novos.

E o futuro? O Daniel quer viver do jiu-jitsu, ter a própria academia e ser mais de dez vezes campeão mundial. Também gosta de MMA e pensa em lutar no UFC um dia, usando o jiu-jitsu como base. Por enquanto, treina só jiu-jitsu. O André lembrou o que ouviu de Buchecha e Demian Maia sobre a dificuldade de pegar e finalizar com luvas, com o relógio correndo.

Saí da conversa com a sensação de ter visto o começo de uma história. Quem acompanha o jiu-jitsu kids já conhece o nome. Pelo jeito que ele fala de treino e de família, vamos ouvir falar muito mais do menino da laje.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.