Connect Cast · Viktor Doria
Ex-manager de Mica Galvão aponta maior erro da IBJJF e exalta Roger Gracie
Vitor, o Vitão, critica o árbitro ligado a equipe, o VAR e as finais fechadas, e conta o que viu no treino de Roger Gracie em Londres.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Connect Cast, publicada em 22 mai 2025 (2:35:57).
Assisti à conversa do Vitor, o Vitão, no Connect Cast, e o assunto que mais rendeu foi a arbitragem da federação. Ele cuida da carreira de dezenas de atletas de ponta, comenta eventos e é campeão master. E disse sem rodeio o que vê como o grande problema dos campeonatos da IBJJF: o árbitro que também é líder de equipe.
Segundo o Vitor, na federação existe a disputa por equipes, e boa parte dos árbitros está ligada a alguma academia. Ele deu um exemplo: um atleta da Alliance contra um da Gracie Barra, com um árbitro de uma terceira equipe que tem interesse no resultado para não perder pontos no ranking. Ele fez questão de dizer que não enxerga má intenção nos árbitros. Mas, enquanto esse vínculo existir, a desconfiança vai existir junto.
“O árbitro ser afiliado a uma academia é conflitante. É conflito de interesse.”
Viktor Doria, no Connect Cast · 0:06:48
Regra demais e ponto que some do placar
A segunda crítica foi ao excesso de regra. O Vitor contou que, além do árbitro central e dos dois laterais, a federação passou a usar dois árbitros de vídeo. Na prática, segundo ele, um atleta faz uma raspagem, leva os dois pontos, e mais de um minuto depois o vídeo tira a pontuação sem que o árbitro avise ninguém. Quem descobre é o corner, que precisa gritar que a luta está 0 a 0 e que o atleta está perdendo na vantagem com um minuto para o fim.
Ele reconhece que a federação fez isso tentando acertar. Só acha que passou do ponto. Contou que já ouviu árbitro dizer que um lance 'depende do ponto de vista', coisa que, para ele, não pode existir: quem está na arquibancada tem que entender o que aconteceu. E lembrou quanto custa perder assim. Na conta dele, entre inscrição, passagem para Los Angeles, hotel em Long Beach e carro, o atleta gasta muito para ser eliminado na primeira luta por uma vantagem discutível.
“Ele tem que ser um controlador do ambiente, muito mais do que um definidor do destino daqueles caras ali.”
Viktor Doria, no Connect Cast · 0:12:37
O modelo que ele prefere é o dos eventos em que o árbitro decide pouco. Citou o Who's Number One, com 15 minutos sem pontos e três juízes laterais decidindo, e o novo formato do UFC Fight Pass Invitational, com três rounds de 5 minutos, sem pontuação e sistema de 10 a 9 igual ao do MMA. A frase dele resume: quanto menos regra, menos influência do árbitro.
Final fechada devia dar punição
Outro ponto que o Vitor bateu forte foi a final que não acontece porque os dois atletas são da mesma equipe. Para ele, não existe motivo plausível para não lutar, seja amizade, treino junto ou parentesco. Ele lembrou de uma final de pesado no Tijuca Tênis Clube, anos atrás, que foi fechada entre Murilo e Paulão, e disse que naquela época isso se explicava pela honra das equipes. Hoje, com transmissão ao vivo e patrocinador, ele acha que vai contra o negócio.
Na visão dele, a federação não pode obrigar ninguém a lutar, mas pode punir: tirar do pódio, cortar premiação e pontos. A solução que ele sugere vem do ADCC, que obriga atletas da mesma equipe a se enfrentarem até a segunda luta. Foi assim que Fabrício Andrey e Diogo Reis, que treinavam juntos, se pegaram no ADCC de 2022, contou o Vitor. Os dois lutaram de novo em 2024, quando o Fabrício já estava na Alliance, e seguem amigos. Ele ainda citou Lyoto Machida, que sempre lutou com os irmãos em campeonato porque o pai mandava.
A visita a Roger Gracie
A parte do título sobre Roger Gracie veio quando o assunto era idade. O Vitor contou que levou seus atletas à academia do Roger em Londres, e que o Roger treinou com todos eles. Com Jonathas Gracie, de kimono, ele deu o que o Vitor chamou de 'um amasso', mesmo o Jonathas sendo bem mais leve e muito mais novo. Pela descrição do Vitor, o Roger prende o adversário, diminui o ritmo, joga o peso por cima e vai engolindo o outro.
Ele também comentou um vídeo recente do Roger treinando com um faixa-preta que joga guarda de lapela. Para o Vitor, foi um duelo de gerações, e deveria ser obrigatório para quem treina.
“Você tem uma técnica que não existia há 10 anos atrás sendo aniquilada por uma que existe há 50.”
Viktor Doria, no Connect Cast · 1:33:32
O Vitor já foi duas vezes ao camp do Roger em Cagliari, na Sardenha, e disse que é alucinante. A próxima ida estava marcada para logo depois do AIGA no Cazaquistão, onde ele acompanharia o Fabrício.
Para ele, o jiu-jitsu se expande
Isso tudo sustenta uma ideia que o Vitor repete: ele prefere dizer que o jiu-jitsu se expande. As técnicas novas somam, e as antigas continuam funcionando. Segundo ele, se o Roger lutasse o Mundial hoje do jeito que lutou na época, seria capaz de ganhar.
“A técnica que o Royce Gracie usava em 93, ela continua funcionando.”
Viktor Doria, no Connect Cast · 1:27:44
Formado em educação física, ele aplica o mesmo raciocínio ao treino. Quem quer gás no jiu-jitsu tem que treinar jiu-jitsu, e nadar ou pedalar não resolve. Ele contou que, quando reclamou de falta de gás com o mestre Carlson Gracie, ouviu que era para treinar com a academia inteira e continuar mesmo cansado, apanhando e se defendendo. O resto, para ele, é dormir bem, comer comida de verdade e treinar no tatame.
Do tatame do Carlson ao trabalho de manager
O Vitor chegou à academia do Carlson em 1993, com 17 anos, vindo da seleção brasileira de polo aquático. No primeiro treino, ainda faixa-branca, foi colocado com um faixa-amarela 20 kg mais leve, que estourou o braço dele. Ninguém tinha explicado que era para bater antes de doer.
“Eu fui jogado aos leões.”
Viktor Doria, no Connect Cast · 1:36:08
Ele contou que no Carlson todo treino começava de joelhos, e só cabiam quatro duplas em pé para 30 ou 40 alunos. Ele acha que a falta de espaço nas academias brasileiras explica tanta puxada dupla para a guarda nos campeonatos e pediu ao perfil Scout Grappling um levantamento dos double pulls na faixa-preta adulto do Brasileiro.
Hoje o Vitor trabalha com 50 atletas. Contou que o contrato do Fabrício com o ONE tinha 23 páginas e foi e voltou umas oito vezes até ele assinar, e que o texto permite ao atleta lutar em outros eventos quando não há luta marcada. Sobre o Mica Galvão, disse que, quando a relação dos dois foi interrompida, o atleta tinha feito três ou quatro das 12 lutas do contrato com a FloGrappling, e que hoje quem cuida da carreira dele é o pai. Ele também disse que briga por quarto de hotel em escala longa e que já recusou uma viagem de 42 horas para um atleta.
“Eu faço por eles aquilo que eu gostaria que tivesse feito por mim, quando eu tava lutando.”
Viktor Doria, no Connect Cast · 2:31:59
O que fica da entrevista é um recado para a federação e para os eventos: menos poder na mão do árbitro, mais lutas acontecendo e mais cuidado com o atleta. E, no meio disso, a lembrança de que o jiu-jitsu do Roger continua resolvendo.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.