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Pura Connection · Fábio Giusti

Defesa pessoal: Fábio Giusti explica por que prefere ser chamado de frouxo

Com mais de 30 anos de artes marciais, o professor de jiu-jitsu conta como evita briga de rua e o que ensina aos alunos e aos filhos.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 23 fev 2026 (1:40:35).

Uma semana antes do Natal, Fábio Giusti deu a volta num estacionamento do Barra Shopping e encontrou um homem em pé, guardando a vaga para um carro que ainda nem tinha aparecido. Ele argumentou com educação, o carro chegou com mais três homens dentro, e a conversa acabou ali. O Fábio, que treina artes marciais desde os 12 anos, conta que tremia, suava e tinha vontade de pegar o cara. Chamou a mulher, foi embora dali e seguiu a noite: jantou, passou na livraria e viu um filme em casa.

Assisti à conversa dele com o André no Pura Connection e o episódio inteiro gira em torno dessa escolha. O Fábio é faixa-marrom de jiu-jitsu, faixa-preta de kickboxing, luva de prata no savate e, segundo ele, presidente da Federação Brasileira de Savate. Mesmo assim, diz que prefere ser chamado de frouxo na internet a machucar alguém na rua. E explica muito bem por quê.

“Se tu quer se provar, é porque tu tá na dúvida.”

Fábio Giusti, no Pura Connection · 0:05:13

A briga de rua sem romantismo

Para o Fábio, a galera romantiza a briga de rua como se fosse um treino: puxa para a guarda, finaliza, cumprimenta e cada um vai para o seu lado. Na rua, lembra ele, tem lâmina, arma de fogo, covardia, gente que não solta o estrangulamento e ninguém para separar. Uma queda sem tatame quebra ombro, clavícula ou cabeça. Ele admite que já brigou na rua, que não se orgulha disso e que ficou depois com o peso de ter machucado alguém sem precisar.

Ele gravou um vídeo com um aluno, o Kevin, para mostrar isso. Deu ao rapaz uma faca de plástico suja de tinta e um minuto para tentar acertá-lo, enquanto ele tentava tomar a arma. Segundo o Fábio, sair sem ser cortado é quase impossível. A conclusão dele é seca: se o cara puxa uma lâmina com você por cima, trinta anos de faixa-preta não resolvem.

No caso do estacionamento havia mais um detalhe. Ele tinha rompido o tendão do bíceps direito num treino no dia 2 de dezembro. Contra quatro homens, e com a chance de um deles estar armado, a conta não fechava de jeito nenhum.

Antecipação, evasão e corpo alinhado com a fala

O Fábio montou um protocolo para lidar com conflito. A primeira etapa é a antecipação: lembrar, toda vez que sai de casa num Rio de Janeiro de trânsito caótico, que é quase certo cruzar com alguém que vai testá-lo. A segunda é a evasão, sair antes do ponto sem volta. A terceira é alinhar o discurso com o corpo. Ele explica que, com adrenalina, ninguém escuta o que você fala, só vê seu queixo alto e suas mãos no ar. Quem está calmo gesticula pouco e fala baixo.

“A palavra é fonte inesgotável. A força é esgotável.”

Fábio Giusti, no Pura Connection · 0:20:48

Depois do conflito evitado vem a elaboração, porque muita gente fica remoendo a sensação de que foi frouxa. O Fábio ensina dois exercícios. No primeiro, a pessoa imagina com detalhe todos os finais ruins da briga que não aconteceu: delegacia, hospital, alguém morto. No segundo, pergunta a quem a ama se agiu certo. Segundo ele, é difícil a mulher ou o filho responderem que você devia ter brigado.

Ele não se considera curado. Compara o controle da raiva ao do alcoólatra que vive um dia de cada vez, e diz que o episódio do shopping serviu de alerta de que a raiva ainda tem brecha para sair.

“O meu controle da raiva é sempre só por hoje.”

Fábio Giusti, no Pura Connection · 0:26:00

Criado no meio de brigas

Boa parte dessa postura, conta o Fábio, vem da infância. Ele diz que a família inteira era brigona de verdade, com gente armada, e que a mãe chegava a sair na mão e a partir para cima com faca. Cresceu em estado de alerta, sempre esperando a próxima briga dos adultos.

Com os filhos, faz o contrário. O mais velho, de 11 anos, perguntou uma vez se ele era super-herói, e o Fábio explicou que não é, mas que qualquer um que entrasse na casa teria de passar por ele antes. Quando reclamou que os meninos eram moles no treino e faltava a eles o sangue nos olhos da molecada do projeto social que apoia em Belford Roxo, ouviu do filho que não tinha motivo para ter ódio de nada, porque a casa deles era de paz. O Fábio achou que o filho tinha razão.

Respeito às mulheres no tatame

A segunda metade da conversa vai para o assédio. O Fábio diz que a geração dele foi educada para insistir depois do não e para secar mulher com os olhos, e que se envergonha de coisas que fez. Para ele, elogio ao corpo de uma aluna na academia sem intimidade construída é invasão, e o professor de jiu-jitsu, que muitas vezes é visto quase como um pai, precisa saber exatamente onde fica o limite.

Ele conta que tem uma aluna de 17 anos, a única menina na turma dela, tratada por todos como irmã mais nova. O pai confia tanto que a deixa malhando sozinha na academia depois da aula. Numa época de academia cheia, quando a mulher dele se incomodou com olhares de alunos novos, o Fábio parou o treino e deu um recado duro na frente de todo mundo.

Na academia dele não tem música, não tem muito apelido e os próprios filhos pedem a palavra chamando o pai de mestre. O irmão, 12 anos mais novo, também dá aula e, segundo o Fábio, é ainda mais disciplinado do que ele.

O jiu-jitsu aos 45

O Fábio diz que o Fábio de 30 anos era talvez mais perigoso, e mais inseguro. Hoje, aos 45 e cheio de lesões, ele sabe que não pega um aluno de 1,96 metro e 100 quilos no treino, e fala isso sem problema para o filho. Muitas das lesões dele, admite, vieram de querer fazer sparring no ritmo da molecada.

“Eu tenho que estar pronto para ser amassado por garotos mais novos, mais leves e menos graduados e não sair de lá chateado.”

Fábio Giusti, no Pura Connection · 1:35:21

Mesmo com o savate, o boxe e o kickboxing no currículo, ele diz que o jiu-jitsu é a arte que mais ama, porque tem a maior curva de aprendizado e todo dia ensina um detalhe novo. Os filhos vão treinar arte marcial até os 18 anos, avisa ele, mesmo gostando mais de futebol. Depois disso, decidem sozinhos. Para o Fábio, a arte marcial funciona como uma religião, e foi no treino que ele se conheceu com medo, com raiva e em dificuldade.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.