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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Fábio Gurgel

Fábio Gurgel: do 1º Mundial de jiu-jitsu aos 52 livros lidos em um ano

O campeão de 1996 conta que chegou ao torneio voltando de férias no Havaí e explica o que o lutador precisa estudar para continuar vivendo de jiu-jitsu depois das medalhas.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 1 fev 2021 (1:16:10).

O Fábio Gurgel venceu o primeiro Campeonato Mundial de jiu-jitsu, em 1996, e contou no Jiu Jitsu Podcast, do canal Muito Mais Ação, que nem se preparou de um jeito especial para ele. Passou o Réveillon no Havaí, voltou de férias e treinou duas semanas um pouco mais forte. Segundo ele, era assim que funcionava na época: o campeonato ia acontecer, e ele ia lutar, em forma ou fora de forma.

Assisti à conversa e gostei de como ela sai dessa lembrança para um assunto que o Fábio leva muito a sério: o que o lutador faz com a vida quando a carreira de atleta acaba. Ele fala de livros, de uma rotina de estudo que chega a duas horas por dia, dos alunos particulares que viraram mentores e de por que parou de graduar faixas-pretas.

“Eu estava por passar o Réveillon no Havaí, para você ver o grau de importância.”

Fábio Gurgel, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:01:49

A frase do Jacaré e a final contra o Murilo

A ideia de que lutador não escolhe se vai ou não ao campeonato veio do professor dele, o Jacaré. O Fábio contou que o Jacaré dizia que a escolha de ir treinado ou não era do aluno, mas que ir era obrigação. Ele disse que repassou essa frase para muita gente que veio depois.

Segundo o Fábio, ninguém sabia direito o que esperar de um campeonato mundial num tempo em que o jiu-jitsu brasileiro tinha hegemonia total. Para surpresa dele, a federação conseguiu trazer gente de fora. A primeira luta foi contra um francês, a segunda, pela lembrança dele, contra o Jucão, e a final foi contra o Murilo, que ele venceu. A data da final, pelo que se lembra, foi 26 de janeiro.

O campeonato também marcou a chegada do jiu-jitsu ao ginásio do Tijuca. O Fábio lembrou que, naquela época, o Tijuca era o templo do judô, e o jiu-jitsu não tinha espaço ali. Depois de 1996, todos os Mundiais no Rio foram lá. Ele disse que esteve presente em todos os Mundiais desde o primeiro, sem faltar nenhum.

“Naquela época o Tijuca era o templo do judô, só o judô fazia campeonatos no Tijuca.”

Fábio Gurgel, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:04:25

Carlinhos, a língua e 119 torneios

O Fábio chamou o Carlinhos de visionário por apostar no Mundial quando pouca gente acreditava. Para ele, a segunda decisão certa foi levar a estrutura da federação para os Estados Unidos, o que derrubou a barreira da língua para o jiu-jitsu brasileiro.

Ele fez uma comparação com um livro que tinha acabado de ler, sobre o líder que transformou Singapura num país desenvolvido e adotou o inglês como língua oficial. Segundo o Fábio, o jiu-jitsu fez algo parecido. Ele citou que a IBJJF organizou 119 torneios em 2019, num esporte que em 1996 praticamente não saía do Rio de Janeiro.

A carreira de atleta tem data para acabar

Aqui o Fábio foi direto. Segundo ele, o jiu-jitsu não é uma atividade em que o atleta ganha muito dinheiro, e mesmo que fosse, a carreira tem prazo. Ele disse que pretende viver até os 100 e não quer se desligar do jiu-jitsu. Por isso, quem quer ficar no esporte precisa aprender mais de uma coisa.

Ele citou dois livros. O primeiro, Outliers, fala das 10 mil horas para dominar uma atividade, e o Fábio disse que concorda: para ser campeão, talvez nem isso baste. O segundo, Range, de David Epstein, defende o generalista. A conta que ele faz é simples. O atleta treina três períodos de duas horas, seis horas no dia. Sobram 18. O que ele vai estudar nesse tempo?

“Duas horas cada período, seis horas. Cara, sobraram 18. O que você vai fazer com isso?”

Fábio Gurgel, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:11:45

Para quem quer dar aula, ele disse que é preciso estudar como montar a aula e entender o comportamento do aluno. Para quem quer ter academia, é preciso entender de negócio e de finanças. Segundo o Fábio, o nível vai subir, e ser curioso é o que permite fazer as transições com sucesso.

Ele contou que essa curiosidade vem de quando decidiu viver de jiu-jitsu, aos 15 anos. Olhava o Jacaré, que tinha uma academia legal e um estilo de vida que ele admirava, e queria fazer exatamente o que ele fazia. Depois, procurou saber quem era o melhor lutador (o Rickson, disse) e como davam aula os grandes professores.

Duas horas de leitura por dia

A rotina que ele descreveu é esta: treino das 6h às 7h e leitura das 7h30 às 9h30, um horário que ele chama de sagrado. Segundo o Fábio, ele não vê televisão nem lê jornal. Com essas duas horas, leu 52 livros no ano anterior à gravação. Na semana do podcast, tinha terminado um livro sobre a gripe espanhola, e disse que aprendeu mais sobre pandemia ali do que aprenderia na TV.

“Essas duas horinhas que eu passo lendo me fizeram ler mais de 50 livros ano passado.”

Fábio Gurgel, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:38:34

Ele também contou que, na época, fazia um curso de seis semanas em Harvard sobre estratégias de disrupção, com 350 alunos do mundo inteiro. Mas fez questão de dizer que muito conhecimento está de graça na internet. Para quem acha que não tem tempo, a resposta dele foi que tempo é questão de prioridade, e que a disciplina da arte marcial ensina a construir um tijolinho por dia. Quem não consegue ler duas horas pode começar com 15 minutos.

O Fábio ainda disse que falar inglês é quase obrigação para quem quer viver de jiu-jitsu, porque o esporte virou mundial.

Os alunos particulares como professores

A parte de que mais gostei foi quando ele disse que seus maiores professores foram os próprios alunos. O Fábio contou que sempre deu muita aula particular e que ali conheceu médicos, advogados e empresários que viraram amigos e mentores. Entre os alunos que citou está um executivo que hoje comanda a Ambev e um dos grandes nomes do mercado financeiro.

O Pimentel, da Dream Art, também foi aluno dele, confirmou o Fábio. Na conversa, os apresentadores lembraram que o Pimentel hoje investe dinheiro e tempo no maior projeto competitivo do jiu-jitsu. Para o Fábio, é isso que acontece quando a academia trata bem o aluno: essas pessoas viram formadoras de opinião e mudam o jeito como a sociedade enxerga o jiu-jitsu. Uma aula desleixada, segundo ele, pode afastar para sempre alguém assim.

“Os meus maiores professores na minha vida foram os meus alunos.”

Fábio Gurgel, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:44:57

Ele ligou isso à defesa que faz de uma metodologia de ensino e de turmas separadas por nível. Uma academia montada só para o casca-grossa, disse, nunca vai ter esse tipo de aluno no tatame, porque o ambiente expulsa as pessoas.

Faixa-coral, 139 faixas-pretas e nenhuma faixa fácil

No fim, o Fábio respondeu a quem acha que tratar aluno como cliente diminui a arte marcial. Segundo ele, a relação de mestre e aluno fica dentro do tatame e tem de ser preservada. Fora dele, o aluno é um cliente que paga por um serviço.

E usou a própria história como prova. Contou que tem 31 anos de faixa-preta, acabou de receber a faixa-coral e formou 139 faixas-pretas. Disse que não gradua mais ninguém na preta porque parou de dar aula no dia a dia e não se sente no direito de graduar quem não acompanha no tatame.

“Pergunta pros meus alunos quem ganhou faixa fácil lá, quem comprou faixa na história.”

Fábio Gurgel, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:12:36

Perguntado sobre o que ainda o move depois de conquistar tanto, ele citou o mindset infinito de Simon Sinek: ganhar um Mundial não o torna um gestor, um marido ou um amigo melhor, e o objetivo dele é evoluir sempre. Sobre o futuro do jiu-jitsu, preferiu não prever nada. Disse que o esporte é um barco grande, com a Alliance, a Gracie Barra, a Atos e a federação remando juntas, e que cada um precisa pôr a mão no remo. Para um cara que chegou ao primeiro Mundial voltando do Havaí, a frase do Jacaré continua valendo: ir é obrigação, o resto é escolha.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.