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Pura Connection · Fabrício Xavier

Presidente do Sindilutas rejeita CREF obrigatório para professor de luta

Fabrício Xavier, faixa-preta de jiu-jitsu e luta livre, defende o notório saber dos mestres e conta o que viu em 25 anos de projetos sociais nas comunidades do Rio.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 mai 2024 (1:06:08).

Um mestre de capoeira com 70, 80 anos de vida, que trouxe a arte até aqui, pode ser impedido de dar aula por não ter diploma de educação física? Para Fabrício Xavier, presidente do Sindilutas e faixa-preta de jiu-jitsu e de luta livre, isso não faz sentido. No Pura Connection, ele explicou por que é contra obrigar o professor de artes marciais a fazer faculdade de educação física e se inscrever no CREF.

Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi que o argumento vem de alguém com mestrado em educação física. Ou seja, ele teria todos os motivos para defender o diploma. Mesmo assim, defende o notório saber, com base no que viu em mais de 25 anos dando aula em projetos sociais nas comunidades do Rio de Janeiro.

“A gente tem que lutar por políticas públicas para valorização e também de formação desses profissionais.”

Fabrício Xavier, no Pura Connection · 0:37:35

Formação sim, obrigação não

O Fabrício deixou claro que não defende professor sem estudo. Segundo ele, quem quiser fazer educação física deve ser incentivado, e ele é até a favor de critérios objetivos para formar instrutores de artes marciais. O que ele rejeita é obrigar todo mundo a fazer a faculdade, assumir o registro no CREF e no CONFEF e pagar a anuidade.

Para mostrar o outro lado do problema, ele deu um exemplo que ficou na minha cabeça. Contou que, hoje, se alguém assiste ao filme Karatê Kid no fim de semana, pode abrir uma federação em cartório e, depois de uns dois meses, vender diplomas de faixa-preta. Aí um pai ou uma mãe que não conhece o assunto vê o certificado na parede e acha que o professor é bom. A pergunta dele é simples: qual formação esse professor teve?

O convidado também comentou a posição do deputado Luiz Lima, que esteve no podcast e defende outro ponto de vista. O Fabrício disse que entende e respeita, mas não concorda, porque natação e luta são esportes com questões muito diferentes. O André, apresentador do canal, sugeriu juntar os dois numa conversa.

Mais projeto de luta do que de futebol

O argumento mais forte dele vem das comunidades. Segundo o Fabrício, os projetos sociais de luta já passaram os de futebol nesses lugares. A explicação é prática: quase não há campo nem quadra, e os poucos espaços ficam ocupados com a pelada. Já a luta cabe numa sala da associação de moradores com um tatame no chão. Ele disse que cada comunidade tem hoje de dois a dez projetos de jiu-jitsu, boxe e luta livre.

“Hoje tem mais projeto social de luta nas comunidades do que de futebol, que é paixão nacional.”

Fabrício Xavier, no Pura Connection · 0:33:54

Para ele, esses projetos fazem um papel que deveria ser do Estado, e exigir diploma de quem toca o trabalho ali acabaria com muitos deles. O Fabrício também lembrou o que a falta de uma profissão organizada custa: segundo ele, há concurso para professor de educação física, mas não para artes marciais, e ninguém das lutas tem assento no Conselho Nacional do Esporte. Contou ainda que, na pandemia, os professores de artes marciais só foram vacinados com prioridade no Rio de Janeiro, e que isso deu muito trabalho para conseguir.

Ele citou outro contraste da pandemia. Segundo o Fabrício, apareceu muita gente dando aula de luta na orla, puxando manopla sem saber o que fazia. Quem dá aula de funcional na praia sem formação responde por exercício ilegal da profissão, mas um professor de educação física sem formação em luta pode puxar a manopla e machucar punho e joelho do aluno sem problema nenhum.

Tiros na parede da escola

A parte mais dura da conversa foi quando ele falou da realidade dos alunos. O Fabrício contou que, durante boa parte da vida, passou mais tempo dentro dos projetos e das escolas nas comunidades do que em casa. Quando fechou o mestrado, levou pesquisadores da universidade ao Ginásio Educacional Olímpico, uma escola vocacionada para o esporte onde trabalhava. Lá, alguém perguntou o que eram as marcas na parede.

“A parede da escola, a gente contou mais de 20 tiros.”

Fabrício Xavier, no Pura Connection · 0:41:48

Ele lembrou que, quando a coisa complica, pode pegar a moto e dormir em casa, enquanto os alunos se escondem debaixo da cama. Contou também a história de um aluno que foi várias vezes campeão brasileiro e campeão sul-americano com 15, 16 anos. Perto do Natal, o garoto voltou de uma competição em Minas para mostrar a medalha para a mãe, e ela tinha desaparecido. Segundo o Fabrício, ela foi encontrada morta dias depois, e ele deixou a própria família no dia 25 de dezembro para ajudar o aluno no enterro. O rapaz, contou, o chama de pai.

Da lona verde de Hugo Duarte ao abraço com Renzo

O começo do Fabrício nas artes marciais foi na luta livre, com o professor Hugo Duarte, que ele chama de sua bandeira desde a faixa-branca. Depois veio o jiu-jitsu, onde também se graduou. Ele descreveu os treinos antigos com carinho e um pouco de susto: perto de competição, o Hugo estendia a lona verde e a luta era em pé.

“Se tu puxasse pra guarda, tomava. Não existia aquele negócio de puxar pra guarda.”

Fabrício Xavier, no Pura Connection · 0:25:10

Hoje, segundo o Fabrício, o Hugo continua defendendo a luta livre, só que ao lado de Renzo Gracie. Ele contou que viu o primeiro encontro dos dois no lançamento da Calçada da Fama, perto da Arena Olímpica, com mais de mil pessoas de várias modalidades. Os dois se abraçaram ali. Na mesma ocasião, segundo ele, o mestre Robson Gracie subiu ao palco, apontou para o Hugo e para Eugênio Tadeu e disse que aqueles caras o ajudaram a evoluir, porque um puxava o outro o tempo inteiro.

O Fabrício também lembrou o episódio em que o Hugo foi à academia do Hélio Gracie, que chamou Rickson, com 200 ou 300 pessoas do lado de fora. Para ele, o que marcou foi o respeito: mesmo no meio daquela confusão, ninguém cometeu covardia. O André completou que, quando entrevistou o Hugo, ouviu dele que nunca conheceu alguém com a valentia do Hélio.

Ele ainda contou como a própria carreira de atleta acabou. Por volta de 2000, num campeonato estadual, enfrentou Shaolin, que segundo ele já era tricampeão mundial e também competia no wrestling. Perdeu por pontos e, numa tentativa do Shaolin de pegar as costas, machucou o ombro. Precisou de cirurgia, ficou muito tempo parado e decidiu fazer faculdade de educação física e se dedicar às aulas.

O prêmio que juntou as tribos

O Fabrício organiza, com Marcos Castro, o prêmio Melhores do Ano das artes marciais no Rio, e contou que a edição de 2024 será especial, dedicada às lendas do esporte. O André lembrou do auditório lotado com gente da luta livre, do jiu-jitsu, do judô, do muay thai e do karatê lado a lado, algo que ele achava impossível há 20 ou 30 anos.

O que fica da entrevista é a coerência do discurso. O Fabrício disse que se formou em educação física, fez mestrado e está cursando Direito, mas que a formação que mais pesou veio do tatame. É por isso que ele briga para que o mestre sem diploma continue podendo ensinar.

“A minha maior graduação foi adquirida nas artes marciais.”

Fabrício Xavier, no Pura Connection · 1:04:16

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.