Pura Connection · Felipe Cesarano
Felipe Cesarano conta como o jiu-jitsu abriu as portas do Havaí para ele
Surfista de ondas grandes, o Gordo lembra do começo com Paulo Caruso, das amizades com Buchecha e Rickson e da faixa-preta que veio depois de 14 anos de treino.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 11 mai 2026 (1:32:59).
Felipe Cesarano, o Gordo, passou 15 temporadas no Havaí surfando ondas gigantes. Mas, pelo que ele contou no Pura Connection, quem abriu as portas da ilha para ele foi o jiu-jitsu. Chegou lá faixa-branca, com dois ou três meses de treino, e saiu com amigos para a vida inteira.
“É o que eu falo: o jiu-jitsu abre portas no mundo.”
Felipe Cesarano, no Pura Connection · 0:22:39
Assisti à conversa e boa parte dela é sobre surfe: vaca em Jaws, tubarão, barco afundando na Indonésia. Mas é no meio dessas histórias que aparece o que mais me interessa aqui: como um surfista que se diz "ruim de jiu-jitsu" chegou à faixa-preta e o que o tatame deu a ele fora dele.
Do tatame da Barra ao North Shore
O Felipe conta que começou no jiu-jitsu com Paulo Caruso, na Barra da Tijuca. E lembra, rindo, que o professor se gabava de ter sido o aluno que mais tempo durou com Rickson Gracie. Para o Felipe, fã do Rickson desde moleque, isso marcou: o mestre é a sua referência.
No Havaí, a entrada foi por acaso. Ele conta que o JD, mestre de uma academia de lá, trabalhava na transmissão do circuito de surfe e tinha visto o Felipe tomar uma vaca histórica em Teahupoo, no dia do Code Red, em 2011. Quando o Felipe apareceu para treinar, o JD reconheceu o "Gordo do Taiti", abraçou e, segundo ele, dali para frente o tratamento foi outro.
O Felipe explica por que isso importa. No Havaí, diz ele, quem é casca-grossa é tratado de um jeito e quem não é, de outro. Treinando, ele passou a conviver com os caras mais respeitados da ilha. Foram 15 anos indo três meses por ano e treinando lá. Ele conta que, a cada graduação, faz uma homenagem ao JD e ao pessoal da academia.
Buchecha, Rickson e Leandro Lo
O jiu-jitsu também foi o caminho para amizades que ele não esperava. O Felipe conta que, há uns 12 anos, Buchecha foi dar um seminário no Havaí e mandou mensagem pelo Orkut chamando para treinar. Viraram amigos. E foi o surfe, diz ele, que o levou a conhecer o próprio Rickson, algo que ele trata como um dos maiores privilégios que já teve.
Ele tem uma história boa de Leandro Lo. Segundo o Felipe, os dois foram fazer um seminário e o Leandro chegou passando mal e vomitou no carro dele. O Felipe usa a cena para falar de calma: bastava o Leandro vestir o quimono que ele se transformava. Cada um, diz ele, fica tranquilo no seu ambiente natural. O dele é a onda grande.
Para ilustrar o medo, ele cita o Rickson: coragem, na visão do mestre, é enfrentar o medo que você sente. O Felipe diz que mergulha apavorado em qualquer lugar do mundo, mas não deixa de ir.
Ele também contou um hábito que serve para qualquer competidor. Na véspera de um swell grande, deita, fecha os olhos, respira de forma contínua e mentaliza o dia seguinte inteiro: acordar, pegar a prancha, descer as pedras, entrar no mar. O detalhe é que ele sempre imagina o mar com o dobro do tamanho da previsão. Assim, diz ele, quando chega a hora, o cérebro já está acostumado com o susto. Quem compete no jiu-jitsu vai reconhecer a ideia.
Faixa-preta sem competir
O Felipe não esconde que o jiu-jitsu foi hobby. Ele diz que se incomoda quando ouve que quem não competiu não é faixa-preta. Na visão dele, a competição dele foi outra: a vida desafiando onda grande. A faixa veio depois de muito tempo de treino.
“Cheguei na faixa-preta porque, 14 anos treinando, o mestre falou: agora chega, toma.”
Felipe Cesarano, no Pura Connection · 1:18:28
Mesmo assim, ele conta que ficou com a pulga atrás da orelha. Acabou fazendo uma luta com o Periquito, amigo de infância e também faixa-preta, mais pesado que ele. Os dois viviam se provocando e nunca tinham treinado juntos. A luta aconteceu num curralzinho, com todo mundo gritando em volta. Ele diz que foi adrenalina pura e que não sabe se quer passar por isso de novo.
Na conversa, os dois falaram também de como o surfe ajuda na base de quem começa no jiu-jitsu. O Felipe acrescenta a natação: quando está nadando para se preparar para uma viagem, diz, o gás no treino é outro. E ele brinca que, se alguém se arrebentar dentro d'água, não adianta saber dar um armlock. Tem que saber nadar.
Respeito como defesa pessoal
Uma história de Taiti resume o respeito que o jiu-jitsu impõe fora do Brasil. O Felipe conta que, anos atrás, foi segurado por seguranças numa festa de hotel depois de fazer bagunça no palco. Soltou que era "Felipe Gracie", faixa-preta da família Gracie. Segundo ele, na ilha quase ninguém sabia jiu-jitsu, mas todo mundo respeitava o nome. Os seguranças soltaram, abraçaram e passaram a noite dando chope de graça.
É desse respeito que ele tira a lição que mais repete. O Felipe levou de presente ao apresentador uma camisa da turma da Prainha com a frase "respeite para ser respeitado", que um amigo tem tatuada nas costas. Para ele, é a melhor defesa que existe.
“A defesa pessoal mais eficaz, até mais que o próprio jiu-jitsu, é o respeito.”
Felipe Cesarano, no Pura Connection · 0:41:08
Hoje, conta, ele dá aula de tow-in, pilota jet-ski para alunos em ondas grandes e leva o filho de criação, o Ivan, para surfar. O que fica da entrevista, para mim, é a imagem de um cara que nunca quis ser o melhor do tatame, mas usou a faixa como passaporte. Ele mesmo diz que, com 40 anos, queria ser faixa-preta e saber mergulhar. Chegou lá.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.