Pura Connection · Fepa Lopes
Fepa Lopes, do BJJ Stars, fala da guerra contra a pirataria no jiu-jitsu
O promotor conta como flagrou faixas-pretas comprando transmissão pirata, como monta o card e de onde veio a vontade de tratar lutador como estrela.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 7 nov 2022 (1:30:01).
Um funcionário do BJJ Stars entrou disfarçado num grupo que vendia a transmissão pirata do evento. A primeira leva custava 10 reais, a segunda, 20. Tinha mais de 250 pessoas no grupo e, segundo o Fepa Lopes, dava para ver pela foto do perfil que muitas eram faixas-pretas. Foi essa a história que mais me marcou na conversa dele no Pura Connection, gravada logo depois de uma edição do evento em São Paulo.
“Os caras não entendem que eles estão dando tiro no próprio pé.”
Fepa Lopes, no Pura Connection · 0:12:04
O Fepa é faixa-preta, publicitário de formação e está no meio do jiu-jitsu paulista desde 1988. Assisti à entrevista e o que aparece é um sujeito que passou anos tentando provar que dá para tratar lutador de jiu-jitsu como profissional, e que ainda briga todo dia para a conta fechar.
A pirataria e a cultura do ingresso de graça
Segundo o Fepa, a mesma pessoa que vendia o sinal pirata já tinha pirateado outros eventos e cobrava 39,90 por mês por um pacote que incluía até UFC. Ele contou que foi esse sujeito quem espalhou o vídeo do Leandro Lo saindo de maca, o que causou revolta na comunidade. O Fepa disse que já sabe quem é e que está atrás dele.
Para ele, a pirataria anda junto com outro costume: o faixa-preta que acha que não precisa pagar ingresso. O Fepa pensa o contrário. Se o objetivo é criar a profissão de lutador, quem é do meio devia ser o primeiro a prestigiar. Ele lembra que traz atletas de fora, paga passagem, hotel e o técnico de cada um, e que a bolsa é só uma parte do custo.
Mesmo assim, ele diz que apoia qualquer evento novo que aparece e grava vídeo para divulgar os concorrentes. Já foi chamado de louco por isso.
“O nosso negócio é desse tamanho. Se a maré sobe, todos os barcos sobem.”
Fepa Lopes, no Pura Connection · 0:14:11
Do Palace ao BJJ Stars: lutador tratado como estrela
A ideia, segundo o Fepa, nasceu quando ele ainda competia. Ele pagava passagem, hotel, comida e treino para ir a um campeonato e, se desse tudo certo, voltava com uma medalha pintada de dourado. Ao mesmo tempo via o público lotando as arquibancadas e achava que aquilo era um produto mal explorado.
Em 2002 ele fez o primeiro evento, um desafio de jiu-jitsu no Palace, uma casa de shows de São Paulo. Pagou hotel e passagem aérea para os atletas. Segundo ele, a bolsa era de 500 reais, e quem vencia levava mais mil. Lutaram ali o Demian Maia, o Saulo Ribeiro, e foi a estreia do Marcelinho Garcia na faixa-preta. Em outra edição, segundo o Fepa, estreou na preta o Jacaré.
Hoje ele faz uma chamada de vídeo com cada atleta contratado. Tem motorista com placa no aeroporto, equipe esperando no hotel e um kit com carta de boas-vindas no quarto. Ele contou que cumprimenta um por um no dia do evento, do carregador ao pessoal da limpeza.
“Vocês são as estrelas do evento. Se em algum momento vocês não forem tratados como tal, me deixa saber disso.”
Fepa Lopes, no Pura Connection · 0:05:39
Na pandemia, com o primeiro evento cancelado, o Fepa tirou da gaveta um reality show: atletas numa casa por 30 dias, mostrando treino e rotina. Segundo ele, o Minotauro viu o programa acontecendo e quis entrar com uma marca de energético, e depois veio a Adidas. A ideia era atrair gente que nunca assistiria a uma luta. Ele contou que funcionou: um espectador que começou a ver por causa do reality ganhou ingresso e depois voltou comprando.
Como se monta um card
O Fepa explicou que o card mistura luta que vende pay-per-view, ídolo local para vender ingresso em São Paulo, luta feminina, luta de master e gente nova que merece oportunidade. Segundo ele, o nome mais pedido pelo público é o Ricardo Arona, e a garotada nova nem sabe quem ele é. Por isso ele junta o Arona, para a turma da geração dele, e o Mica Galvão, para os mais novos.
“Eu acho que no jiu-jitsu todo mundo tem a mesma importância.”
Fepa Lopes, no Pura Connection · 1:05:53
Ele divulga o atleta da luta de abertura do mesmo tamanho que a estrela da noite. Também defende que o lutador tenha empresário, e citou o Victor Dória: com os atletas dele, segundo o Fepa, o contrato volta assinado rápido e as fotos chegam prontas. Ele contou que muitos atletas renomados nem sabem o tempo de luta que vão fazer.
Para vender uma luta, diz ele, precisa de personagem. O Fepa lembrou do Wallid Ismail, que segundo ele vivia bem do jiu-jitsu sem dar aula porque criava expectativa, com gente querendo ver ele ganhar e gente querendo ver ele perder. Ele citou também a provocação da Bia Mesquita, que disse que a adversária ia ter de comer muito arroz com feijão para ganhar dela. Ninguém desrespeitou ninguém, e a luta pegou fogo.
O plano, segundo ele, é levar o evento para fora de São Paulo. A ideia que mais anima o Fepa é um "Manaus contra o mundo": no card da última edição, ele percebeu que o Mateus Gabriel, o Samuel Nagai, o Mica, o Meyram Maquiné, o Fabrício Andrey e o Luiz Paulo eram todos de Manaus.
O jiu-jitsu paulista em 1988
A parte de história é curta, mas vale. O Fepa começou em 1988, na Companhia Athletica, um clube de São Paulo. As primeiras aulas foram com o Marcelo Behring. Quando voltou para se matricular, quem dava aula era o Valdomiro Peres Júnior, faixa-marrom do Marcelo, que tinha assumido depois de um desentendimento do Marcelo com a academia. Segundo o Fepa, naquela época o jiu-jitsu de São Paulo era muito fraco perto do resto do país.
Ali ele conheceu o Roberto Godoi, a referência de competidor da turma. O Godoi dava aula nos fundos de casa, para uma turma que gostava de briga de rua, e dali saiu o Jorge Patino, o Macaco. Depois vieram a Companhia Paulista, em Moema, e a Godoi Macaco. Segundo o Fepa, o primeiro faixa-preta da Godoi Macaco foi o Barbosa, um judoca da seleção, em 1997. Em 1998 pegaram a preta ele, o Macaco e o Celso Britto.
Depois o Godoi e o Macaco se separaram. Era uma época de muita rivalidade entre equipes em São Paulo, e o Fepa contou que, por ser amigo de todo mundo, levava cara feia por cumprimentar gente de lados opostos.
O projeto social que ele quer retomar
O Fepa passou 13 anos com o Pedra 90, um projeto social de jiu-jitsu. Começou querendo formar campeões e, segundo ele, descobriu que o título era o de menos. Um aluno que vivia fazendo piada hoje trabalha com vídeo e tráfego para o evento. Em 13 anos, ele diz que não lembra de ter chegado atrasado a uma aula.
O projeto está parado porque o evento ocupa o tempo todo e ele quer estar perto dos dois filhos. Mas ele promete voltar.
“Quem mais ganha num projeto social é quem faz.”
Fepa Lopes, no Pura Connection · 1:26:25
O que fica da conversa é a imagem de um promotor que ainda anota 50 ou 60 coisas para corrigir depois de cada evento e que pede à própria comunidade para pagar ingresso e denunciar pirata. Para quem acompanha o jiu-jitsu profissional, é uma boa aula sobre o outro lado do tatame.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.