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Pura Connection · Fernando Belatto

Fernando Belatto lembra Ryan Gracie e a depressão que mudou seu jiu-jitsu

Aluno de Ryan até a faixa-marrom, ele conta como a crise que viveu no auge da competição virou um método de autoconhecimento baseado nas artes marciais.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 1 jul 2021 (1:00:00).

No ano em que foi campeão estadual de jiu-jitsu, Fernando Belatto estava, nas palavras dele, muito mal fora do tatame. Aluno de Ryan Gracie, competidor focado e disciplinado, ele conta que teve síndrome do pânico e depressão e precisou de remédio para conseguir dormir. Foi dessa crise que nasceu o O-DGI, o método de desenvolvimento pessoal baseado nas artes marciais que ele criou.

“Foi um momento que me deu síndrome do pânico, eu tive depressão, precisei tomar tarja preta para conseguir dormir.”

Fernando Belatto, no Pura Connection · 0:15:40

Assisti à live dele no Pura Connection. O que me chamou atenção foi a honestidade com que o Fernando fala da própria escola: ele veio de uma academia conhecida por formar casca-grossa e, mesmo assim, diz que sem ela o trabalho que faz hoje não existiria.

Do kung fu à academia de Ryan Gracie

O Fernando conta que chegou às artes marciais pelos filmes de Bruce Lee e Van Damme. Com uns dez ou onze anos, foi treinar kung fu com o primo de um amigo do prédio e a primeira coisa que perguntou ao professor foi sobre meditação. O que mais o tocava nos filmes, diz ele, eram os momentos de silêncio antes do desafio.

O jiu-jitsu veio em 1995, aos 13 ou 14 anos, por influência de um amigo do colégio. Ele começou com Celso Cavallini, em São Paulo, e ficou até a faixa-azul. Quando quis se aprofundar na competição, foi para a academia de Ryan Gracie, onde ficou até a faixa-marrom. Em 2001, conta, morou em San Diego e treinou por lá com Rodrigo Medeiros.

Ele lembra do circuito da época sem saudade. Começou a competir em 1996, num ginásio da federação onde era preciso tomar cuidado com os buracos do tatame, e cada fuga de quadril deixava queimadura. Para ele, o jiu-jitsu de hoje está em outro nível.

O Ryan que ele conheceu

O apresentador lembrou que a escola do Ryan era conhecida por formar casca-grossa, e o Fernando não fugiu do assunto. Ele descreve o professor como polêmico, com "Gracie Devil" tatuado nas costas, e diz que todo mundo sabe como o Ryan era. Mesmo assim, conta que a relação dos dois era muito boa. Segundo ele, o Ryan gostava dele porque era um aluno focado em competição, que não era de balada.

“Tecnicamente falando, o Ryan foi o melhor professor que eu já tive.”

Fernando Belatto, no Pura Connection · 0:19:21

O Fernando diz que o Ryan era detalhista e sabia os detalhes das posições como ninguém. E lembra dele gritando na área de luta, uma energia que, segundo ele, dava força a quem estava competindo. Da escola, ele diz ter tirado firmeza, autoconfiança e coragem.

Quando, anos depois, virou discípulo de um mestre espiritual, o Fernando conta que aprendeu a não julgar nenhum dos dois lados. Na visão dele, ter vindo de uma escola voltada só para a luta até o ajudou: sem uma filosofia pronta, ficou livre para desenvolver a sua. E ele é direto sobre a dívida que tem.

“O O-DGI hoje só existe por conta do Ryan também.”

Fernando Belatto, no Pura Connection · 0:18:18

Campeão no tatame, em crise fora dele

A crise, segundo o Fernando, veio entre os 20 e os 22 anos, por volta de 2001 e 2002. O jiu-jitsu ainda não pagava as contas: você ganhava a medalha e ia para casa. Havia pressão em casa e da sociedade para decidir o que fazer da vida, e ele não se via vivendo de arte marcial. Isso abriu um vazio que ele chama de crise existencial.

O mais curioso é que, no ano da depressão, que ele situa por volta de 2004 ou 2005, o Fernando estava bem na competição e foi campeão estadual. Fora do tatame, diz ele, não tinha alegria e achava tudo ruim. A saída foi começar o que ele chama de busca sincera de autoconhecimento.

O apresentador contou que também teve síndrome do pânico quando já era faixa-preta, e os dois falaram abertamente sobre o peso de uma cultura em que homem não pode mostrar fraqueza. Para o Fernando, é justamente ao encarar a vulnerabilidade que a pessoa encontra força de verdade.

“Se o treino por si só resolvesse o autoconhecimento, todo faixa-preta seria muito bem resolvido internamente.”

Fernando Belatto, no Pura Connection · 0:23:57

O-DGI e o jiu-jitsu como ação consciente

O primeiro insight do O-DGI, conta o Fernando, foi levar a arte marcial para quem nunca treinou e não quer trocar soco, mas quer desenvolver força interna. Nesse momento ele foi ao Rio fazer dois cursos com Orlando Cani, que o aconselhou a se trancar num quarto e deixar os movimentos virem. Vieram posturas marciais de espada, arco, soco e chute, e o Fernando, que é músico, montou a prática sobre uma playlist que conduz a aula.

Ele levou o método primeiro para empresas. Só depois de dois anos, conta, teve vontade de voltar a dar aula de jiu-jitsu, e passou a aplicar a filosofia dentro do tatame. Segundo ele, o Casquinha, braço direito de Fábio Gurgel na Alliance, treinou o O-DGI com ele e o levou para os alunos dele.

No tatame, o exemplo que o Fernando usa é a passagem de guarda. Muita gente, diz ele, fica tão preocupada em não deixar passar que empurra o rosto do parceiro e esquece a técnica. Ele pede que o aluno lembre da esgrima, da fuga de quadril, e aceite respirar quando o outro já conquistou a posição. É a mesma ação consciente que, segundo ele, os samurais buscavam.

O que fica da conversa é uma ideia simples, dita por alguém que viu os dois lados. O Fernando diz que quem muito precisa mostrar poder tem muita fraqueza por dentro, e que os mais confiantes costumam ser os mais tranquilos. Para ele, a defesa pessoal só deve ser usada em último caso, e quanto mais calmo o lutador estiver, melhor vai decidir.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.