Pura Connection · Fernando Belatto
Fernando Belatto conta por que as medalhas deixaram de bastar no jiu-jitsu
Competidor da Gracie São Paulo, ele conta como era treinar com Ryan, por que as medalhas deixaram de bastar e como a arte marcial virou o centro do método que criou.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 5 set 2022 (1:11:21).
Aos 23 anos, faixa-marrom e ganhando quase tudo no peso dele, Fernando Belatto se viu sem chão. O jiu-jitsu era a vida inteira dele, as medalhas já não preenchiam nada e um psiquiatra deu nome ao que ele sentia: síndrome de desrealização. No Pura Connection, o ex-competidor da Gracie São Paulo e aluno de Ryan Gracie contou como saiu do tatame por anos e voltou por outro caminho.
Assisti à conversa e o que me pegou foi a franqueza. O Fernando fala de depressão sem rodeio e com cuidado ao mesmo tempo. Ele evita dizer que se curou, porque, segundo ele, pode cair numa depressão amanhã. O que diz ter encontrado são ferramentas para lidar com o próprio mundo interno.
Da faixa-azul de Cavallini à Gracie São Paulo
O Fernando começou no jiu-jitsu entre 1995 e 1996, com Celso Cavallini, em São Paulo, e ficou com ele até a faixa-azul. Quando quis levar a competição a sério, foi para a Gracie São Paulo treinar com o Ryan. Segundo ele, o Ryan o recebeu muito bem e o segurou na azul por uns três anos e meio, enquanto ele ganhava tudo no peso.
Pegou a roxa, foi morar em San Diego e treinou por lá com Rodrigo Medeiros, o Comprido, da equipe do Carlson, que também o recebeu bem. Na volta, o Ryan deu a ele a faixa-marrom.
“O Ryan me ensinou tanta coisa, segredos e truques da manga que me ajudam muito até hoje.”
Fernando Belatto, no Pura Connection · 0:07:14
O Ryan que pouca gente conheceu
O André, apresentador do programa, lembrou que o Ryan era muito temido e que tinha gente que brincava que ele tinha pacto com o diabo. O Fernando descreve outro lado. Para ele, o Ryan era honesto com o que sentia, sem meio-termo.
“O Ryan, quando gostava, gostava. Mas quando não gostava, não gostava.”
Fernando Belatto, no Pura Connection · 0:09:17
Ele conta que uma vez chegou ao dojô e o Ryan veio para cima dele falando alto, mas brincando. Quando viu que o Fernando respondeu com a esgrima de braços, parou, feliz. Segundo o Fernando, esse era o jeito do Ryan ensinar: puxar o melhor do aluno e fazer ele lidar com o medo para aprender a lidar com o medo.
O problema veio na fase em que o Ryan passou a se dedicar às próprias lutas. O Fernando diz que foi um período pouco antes da morte do Ryan. A academia ficou com os professores, e ele cita o Pé de Pano, com quem aprendeu muito. Mas sentia falta do mestre ensinando e achava que a academia tinha ficado solta.
Quando a medalha deixou de bastar
Naquela época, com 23 ou 24 anos, a vida dele era cem por cento jiu-jitsu. Sem o Ryan por perto e cheio de perguntas sobre o futuro, ele entrou numa crise que hoje chama de existencial. Não se via dando aula na rotina de academia e as medalhas já não davam sentido a nada.
“Eu fiquei meio sem chão.”
Fernando Belatto, no Pura Connection · 0:10:50
Ele conta que tinha a sensação de viver dentro de um filme, como em Matrix. O psiquiatra receitou um ansiolítico de tarja preta. O Fernando diz que, para um esportista de 23 anos, aquilo soou como sinal de que algo estava errado, e que, por ter desde a adolescência uma busca espiritual forte, preferiu procurar outros caminhos para lidar com a doença.
O resultado foi um longo afastamento. Segundo ele, pegou a marrom por volta de 2003 e só voltou a treinar para valer em 2008. Foram quatro ou cinco anos trabalhando, respirando e tentando descobrir o que fazer da vida. No fim de 2009, conta, já tinha voltado ao jiu-jitsu e pegado a faixa-preta.
A arte marcial para a guerra de dentro
O caminho até ali teve muita busca. Segundo o Fernando, em 2007 um primo o apresentou ao Prem Baba, com quem aprendeu a se observar por dentro. Numa conversa com ele, numa fase em que era publicitário e sentia a vida travada, o assunto foi parar em arte marcial e em Bruce Lee. Ele conta que saiu dali com a arte marcial pulsando por dentro. Entre 2009 e 2010 passou cerca de um mês na Índia, num grande festival espiritual, e chegou a meditar duas horas por dia.
A virada veio numa meditação, quando ele morava num sítio da família perto de São Paulo, depois de uma viagem à Índia e de um projeto de orgânicos que não deu certo. A frase que chegou foi simples.
“Todo mundo tem uma guerra interna.”
Fernando Belatto, no Pura Connection · 0:27:43
Para o Fernando, a arte marcial nasceu para ensinar esse guerreiro interno a lutar essa batalha, e isso se perdeu quando o foco foi todo para competição e eficiência. Ele foi estudar as raízes orientais e, no Rio, fez um curso com Orlando Cani. Numa segunda visita, mostrou ao mestre uma mandala em que dividia o jiu-jitsu em oito partes. O Orlando contou que, quando criou a ginástica natural, se trancava no quarto e deixava o espírito do macaco tomar conta dele por 40 minutos, e sugeriu que o Fernando fizesse algo parecido.
Ele fez. Botou a trilha de O Último Samurai, acendeu uma vela e um incenso, fechou os olhos e a primeira postura que veio foi a da espada. Dali nasceram as posturas marciais do O-DGI, o método dele, que significa o despertar do guerreiro interno. A primeira aluna foi a mãe.
O que fica da conversa
Perto do fim, o Fernando diz que o jiu-jitsu ainda é muito novo e está amadurecendo, e que ganha ainda mais força quando o professor fala de presença e atenção plena durante o treino. Saí da entrevista pensando no Ryan descrito por ele, bem diferente da fama de bravo, e em quantos competidores passam pela mesma crise quando a medalha para de fazer sentido e ninguém fala disso no tatame.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.