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Pura Connection · Fernando Reis

Fernando Reis conta o que o jiu-jitsu ensina sobre estresse e emoções

Faixa-preta de Jean Jacques Machado, ele lembra da final em que a adrenalina travou seus braços, da rivalidade com André Galvão e do Pan de 2009.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 28 jun 2024 (1:44:11).

Numa final de campeonato, Fernando Reis estava montado no adversário, que era da academia rival, e o professor gritava da beira do tatame: mata, mata. Ele venceu. Mas, segundo ele, a descarga de adrenalina foi tão forte que os braços ficaram paralisados, e levou quase duas horas para os movimentos voltarem.

“Meu professor ficou do lado do tatame dizendo: mata, mata.”

Fernando Reis, no Pura Connection · 0:12:08

O Fernando é faixa-preta formado por Jean Jacques Machado e hoje trabalha com uma técnica de terapia que ele chama de B.E.M. Boa parte da conversa no Pura Connection foi sobre esse método, mas o que me interessou foi o jiu-jitsu que aparece o tempo todo por trás dele. Ele usa o tatame para explicar tudo: medo, pressão, arrogância, resiliência. E conta umas histórias de competidor que valem o episódio.

O jiu-jitsu depois de perder um irmão

Aos 17 anos, contou ele, o Fernando perdeu um amigo que era como um irmão. O jiu-jitsu foi onde ele colocou aquilo tudo. A família não gostava, achava que a luta ia deixá-lo mais agressivo, e ele chegou a ficar na dúvida se continuava.

“Eu falo que o jiu-jitsu salvou minha vida.”

Fernando Reis, no Pura Connection · 0:04:20

Um dia, com o kimono debaixo do braço, ele chegou para treinar e reparou numa coisa que não sabia: quem tinha construído o prédio da academia era o pai do amigo, que tinha o mesmo nome dele. Estava escrito na placa da porta. Segundo o Fernando, ele não precisava de sinal maior para continuar.

A rivalidade com André Galvão em São José dos Campos

O Fernando treinava em São José dos Campos, na academia de Sérgio Lisboa. Do outro lado da rivalidade estava a academia do Careca, onde treinava um garoto chamado André Galvão. Ele lembra que era faixa-azul quando o Galvão ainda era faixa-branca.

“O cara não só passou, mas virou uma lenda.”

Fernando Reis, no Pura Connection · 0:07:26

Segundo o Fernando, o Galvão conseguiu patrocínio e abriu mão de tudo para competir, enquanto ele sempre teve outras coisas junto. E ele é honesto sobre o próprio talento: diz que gostava do jiu-jitsu, mas não era bom, e que precisou treinar muito duro para chegar lá. Chegou à faixa-roxa no Brasil e, antes de ir para os Estados Unidos, recusou a marrom que o professor queria dar. Tinha medo de chegar lá fora e encontrar todo mundo barra-pesada.

Nos Estados Unidos, a vida foi andando por acaso. Na faculdade, um colega o levou para trabalhar de segurança numa balada. Lá ele conheceu um professor de muay thai que o apresentou a Fabiano Iha, o Rei do Armlock, que o contratou para dar aula de jiu-jitsu na academia dele. Foi por um aluno dessa academia que o Fernando chegou às aulas de desenvolvimento humano que mudaram o rumo dele. Na época, contou, ele era chefe de segurança de uma balada em Los Angeles.

Pan de 2009, meio quilo acima do peso

A outra história de competição é do Pan-Americano de 2009. O Fernando lutava até 85 quilos e contou que um amigo fisiculturista passou três meses na casa dele em Los Angeles, cozinhando e indo aos treinos só para gritar: vamos, Fernando. Mesmo assim, no dia, ele foi pesar e estava meio quilo acima, faltando mais ou menos uma hora. Saiu para correr, pediu emprestada uma faixa fininha para pesar menos e passou.

Antes da luta, segundo ele, o amigo disse que o trabalho já estava feito e que não adiantava mais se preocupar. O Fernando diz que foi um dos melhores campeonatos da vida dele. Chegou à final, deu uma bobeira e ficou em segundo.

“Não ganhei, tá, mas me tornei uma pessoa melhor.”

Fernando Reis, no Pura Connection · 1:14:33

O triângulo, a pressão e o chá quente

O Fernando usa muito o tatame como exemplo de que dificuldade abre porta. Ele contou que tinha perna comprida e que o professor dizia que, quando ele ficasse bom de triângulo, ia dar trabalho. No começo, todo mundo escapava empurrando e amassando. O professor mandou mexer o quadril, fazer ponte e pesar na cabeça. Quando ele passou a segurar, os parceiros começaram a escapar dando a omoplata para ele. Segundo o Fernando, dentro do problema apareceu uma posição nova.

Ele também credita a um colega faixa-preta, Marcelo Ragazini, a descoberta de que o segredo era repetir: os dois faziam cem repetições para cada lado. E guardou duas frases de um professor. A primeira: você só sabe o gosto do chá quando põe água quente nele, ou seja, só conhece alguém debaixo de pressão. A segunda:

“Sucesso rápido gera ego, sucesso lento gera caráter.”

Fernando Reis, no Pura Connection · 0:56:22

O próprio Fernando admite que, quando abriu a escola dele, era bravo e até grosso com os alunos, a ponto de ninguém mais fazer pergunta. Ele diz que a esposa o amansou. E conta com orgulho do Walter, um aluno de 60 e poucos anos que entrou faixa-branca sem conseguir dar um rolamento, parou de beber, perdeu peso e hoje é faixa-roxa indo para a marrom, ajudando com as crianças. Para o Fernando, essa história é tão grande quanto a de qualquer campeão.

O Rickson Gracie também apareceu na conversa, pelas lembranças do André, apresentador do canal. Segundo ele, o Rickson perguntou o que era mais importante na vida dele e, quando o André respondeu família, disse que estava errado: o mais importante é você, porque sem estar bem ninguém cuida de ninguém. O Fernando concordou e chamou isso de egoísmo saudável.

Não sei se a técnica dele funciona do jeito que ele descreve, e o artigo não entra nisso. Mas a leitura que ele faz do jiu-jitsu, como lugar onde a gente aprende a lidar com medo e pressão sem fugir, qualquer um que treina há alguns anos reconhece.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.