Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Feu, Alexandre Marciano
Feu e Alexandre Marciano: campeão de jiu-jitsu ganha pouco e é esquecido
O professor de judô e jiu-jitsu e o ex-treinador de MMA falam de pressão para competir, regras que estragam uma luta e atletas abandonados depois do título.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 11 jun 2021 (1:10:47).
Um atleta com mais de sete títulos mundiais de jiu-jitsu precisou pedir ajuda a um youtuber para descobrir como ganhar dinheiro depois que parou de lutar. A história foi contada pelo Alexandre Marciano, sem citar o nome do campeão, no episódio 21 do podcast do Muito Mais Ação Jiu-Jitsu. E ela resume bem o tom da conversa.
Assisti ao papo entre o Alexandre, ex-treinador de MMA e K-1 em Joinville, e o Feu, faixa-preta que veio do judô e ficou conhecido pelos vídeos na internet. O programa prometia temas polêmicos e cumpriu: pressão para competir, regras que tiraram a graça do judô, chave de pé e, principalmente, quanto o atleta de jiu-jitsu recebe por tudo o que entrega.
“Quando ele tava na crista da onda, ele tinha seminário. Ele achava que ia viver a vida toda de seminário.”
Alexandre Marciano, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:51:26
Quem são os dois convidados
O Feu se apresentou como "um atleta de judô que não deu certo", mas logo corrigiu: bateu na trave várias vezes. Ele contou que a primeira medalha é de 1986, que ganhou títulos paulistas e brasileiros e que morou e lutou um tempo em Portugal. O que faltou foi a Seleção Brasileira. Segundo ele, na categoria dele havia dois nomes que eram "pedreiras intransponíveis", e sem seleção o judoca não consegue viver só do esporte.
Já no fim da carreira, ele migrou para o jiu-jitsu, pegou a faixa-preta e passou a dar aula das duas modalidades. Hoje diz ter um quadro com 180 medalhas. Em 2018, contou, voltou a competir no Brasileiro de judô e foi vice-campeão, mesmo morrendo de medo.
O Alexandre chegou ao jiu-jitsu nos anos 90, como muita gente da época, embalado pelas fitas VHS do Royce. Ele contou que sofreu um acidente com queimadura quando era muito jovem, passou por bullying e entrou na luta para descontar a raiva. Uma lesão no joelho e depois uma fratura na perna num acidente de moto, com duas cirurgias, o tiraram do treino por um ano e meio, por volta de 2002 ou 2003.
Foi aí que virou treinador, quase por acaso. Montou um time de alto rendimento de MMA e luta em pé e trabalhou com o Vitor Miranda, que chegou ao UFC. Segundo ele, o time rodou o circuito de K-1 na Turquia, na Hungria, na Eslovênia e na Áustria. Com o tempo, cansou do que viu nos bastidores e trocou a competição por projetos sociais e por uma academia voltada para saúde.
Pressão para competir e o faixa-preta que nunca lutou
Os dois concordam que o jiu-jitsu e o judô de antigamente empurravam o aluno para o campeonato. O Feu falou da própria infância: teve medo da primeira competição até a última, mas não tinha opção. O pai queria, a mãe queria, o professor mandava. Ele lembrou de amigos de infância que largaram tudo e não querem nem ouvir falar de judô por causa disso.
O Alexandre deixa claro na academia dele que o objetivo do time é saúde. Se o aluno quiser competir, a vontade tem de nascer dele. Para esse campeonato em Brusque, disse, vai levar só dois atletas.
Na pergunta sobre se dá para ser faixa-preta sem nunca competir, o Alexandre separou duas coisas que achei muito úteis: nível técnico e nível de luta. Ele contou que ficou três anos na faixa-branca e era duro, mas qualquer faixa-branca de hoje tem mais repertório do que ele tinha. Citou também um aluno de 65 quilos, um dos mais técnicos que tem, que nunca competiu.
“As pessoas não podem confundir nível técnico e nível de luta.”
Alexandre Marciano, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:23:48
O Feu deu à competição uns 10% de peso na formação do faixa-preta. Para ele, o que falta a quem nunca competiu é a experiência para passar adiante: a adrenalina, o frio na barriga. E lembrou a ideia de Jigoro Kano de que o judoca luta para aprender.
O judô que perdeu a graça
Foi o assunto em que o Feu mais se inflamou. Ele defendeu que o judô veio do jiu-jitsu: Jigoro Kano era aluno de jujutsu e, segundo o Feu, montou um sistema com menos golpes, que servia para ensinar criança e o mundo inteiro. Daí, na versão dele, viria até a expressão "para inglês ver".
O problema, para ele, começou quando o judô olímpico saiu da mão dos japoneses. O Feu listou o que mudou: o quimono azul, a proibição de pegar a perna, o fim de golpes clássicos como o kata guruma. Ele disse que essas regras foram criadas para tirar a hegemonia do Japão, com a desculpa de deixar a luta mais televisiva.
“Você quer estragar uma luta? Você transforma ela numa luta olímpica.”
Feu, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:31:05
O Alexandre puxou o mesmo raciocínio para a chave de pé. Segundo ele, muitos professores no passado criticavam o ataque a membros inferiores, porque o aluno que pega todo mundo no pé fica vazio no resto. O resultado é que o brasileiro treinou pouco essas posições, enquanto nos Estados Unidos elas cresceram. O Feu completou: quando você tira uma técnica do treino, alguém em outro lugar continua treinando, e você não sabe defender.
Prêmio baixo e campeão esquecido
O apresentador Jaime trouxe a comparação que puxou a parte mais quente do programa. Ele disse que o Mundial da IBJJF passou a pagar 10 mil dólares ao campeão, o que considera pouquíssimo, enquanto eventos menores, televisionados, pagam o mesmo, e um evento anunciado nos Estados Unidos prometia 250 mil dólares. A imagem que ele usou foi a do índio entregando o ouro ao estrangeiro em troca de espelho.
O Feu mandou um recado às federações e confederações: são elas que precisam de professores e atletas. E fez um teste com o Jaime, pedindo cinco campeões mundiais de alguns anos antes. Saíram Buchecha e Bruno Malfacine, e o resto travou. Para o Feu, quem não é visto não é lembrado, e ele citou até garoto fã de MMA que não sabe o que o Anderson Silva fez.
O caso mais forte veio do Feu, a partir de uma entrevista do Ronaldo Jacaré. Segundo o Feu, quando o Jacaré venceu o Roger Gracie e quebrou o braço, ficou abandonado no ginásio, sem dinheiro para voltar para casa. O Feu contou que o próprio Jacaré diz que não deseja a ninguém o que passou.
“Ele quebrou o braço, ele não tinha dinheiro para voltar embora.”
Feu, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:02:26
O Alexandre tinha levantado outra tese sobre o Jacaré: na opinião dele, o Jacaré não teve chance pelo cinturão do UFC no auge porque o evento já tinha um brasileiro campeão, o José Aldo. Na conversa, também citaram o Charles do Bronx como alguém que quase ficou de lado antes de virar campeão.
O que fica da conversa
Nenhum dos dois é contra competição, e os dois repetiram isso várias vezes. O recado é para o atleta: não romantizar. Enquanto você é bom para o negócio, é bem tratado. Quando para, o patrocínio some de um dia para o outro. O Alexandre contou a história de um recordista que, depois de machucar o ombro, não recebeu nem um telefonema de quem o patrocinava.
No fim, ele pediu ajuda para o projeto social que mantém em Joinville, onde, segundo ele, 22 atletas moram e estão há um ano e meio sem receber recurso. Saí do episódio pensando menos em medalha e mais em plano de carreira, que foi exatamente o que os dois quiseram dizer.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.