Pura Connection · Filipinho Assis, Rodrigo Thiago
Filipinho Assis: do projeto social na favela à faixa-preta da Alliance
O atleta conta como o jiu-jitsu o afastou do tráfico, e o professor Rodrigo Thiago explica por que diz que ele compete com 30% do que treina.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 10 fev 2025 (1:30:28).
Filipinho Assis começou no jiu-jitsu com 8 ou 9 anos, num projeto social da comunidade onde mora, e um dos motivos, ele admite, era o lanche. Hoje é faixa-preta, atleta da Alliance no Rio e campeão europeu na marrom. No meio do caminho, perdeu a mãe aos 10 ou 11 anos e viu de perto o tráfico entrar na própria casa.
Assisti à conversa dele no Pura Connection, ao lado do professor Rodrigo Thiago, e é das histórias mais fortes que ouvi sobre o que o jiu-jitsu faz dentro de uma favela. O Filipinho fala pouco e fala direto. O Thiago completa com a visão de quem o trouxe para dentro da academia.
A irmã presa e o tio na cadeira de rodas
O Filipinho contou que, depois da morte da mãe, uma irmã se envolveu com o tráfico. Durante uns dois anos ele viu o dinheiro e os pagamentos passando por casa, até ela ser presa. Um tio, quando jovem, também entrou para o tráfico, levou um tiro e ficou cadeirante.
Segundo ele, foram esses os maiores exemplos, do jeito mais duro possível. O tio sempre repetia que não valia a pena. Ele ouvia as histórias da cadeia e decidiu que aquilo não era para ele.
“Tenho medo, meu irmão. Imagina a hora da trocação de tiro. Eu preferi o jiu-jitsu.”
Filipinho Assis, no Pura Connection · 0:23:18
Ele contou também que a irmã hoje está bem e trabalhando. E fez questão de lembrar da segunda mãe, a mulher que cuidava dele, e dos amigos e vizinhos que davam conselho para não seguir aquele caminho.
O lanche, o passinho e a viagem dos amigos
O começo foi cheio de idas e vindas. O Filipinho estudava em colégio integral, chegava em casa no fim da tarde e ia para o projeto porque os amigos iam e porque tinha lanche. Parou várias vezes e chegou a trocar o tatame pela dança, o passinho.
A virada veio quando viu dois garotos da comunidade viajarem para competir no exterior. Ouvir deles como era a vida lá fora despertou a curiosidade de novo. O pai também pressionava: dizia que ele era grande demais para ficar dançando e mandava voltar para o jiu-jitsu. Ele contou que também se inspirava em atletas como o Tererê e acompanhava pelo Facebook a vida de quem viajava, vivia do esporte na Europa e ajudava a família.
No juvenil, voltou e só perdia. Não pegava medalha nem em open. Mesmo assim treinava muito, a ponto de fugir da escola para chegar no treino a tempo. Ele admite que foi uma besteira de garoto.
Portugal, Suécia e a vergonha de pedir ajuda
A primeira viagem internacional foi com uns 18 anos, para Portugal, no primeiro ano de adulto. Perdeu, mas voltou convencido de que o jiu-jitsu podia abrir portas que o estudo não ia abrir para ele. Depois foi para a Suécia, onde a pandemia o prendeu por três meses. Na faixa-azul ganhou o Sul-Americano. Na roxa venceu opens e foi campeão brasileiro.
Foi na azul que conheceu o Thiago. O Filipinho contou que a inscrição da CBJJ custava uns 200 reais, o equivalente a dois dias trabalhando na praia com o pai. Ele escrevia a mensagem pedindo ajuda, morria de vergonha, e acabava mandando. O Thiago sempre dava um jeito, muitas vezes falando com algum aluno da academia.
O Thiago conta o outro lado. Segundo ele, o que o fez chamar o Filipinho para trabalhar com ele foi justamente o garoto nunca ter pedido nada: nem camisa, nem short, nem almoço, e nunca ter contado uma história triste para se lamentar. Ele levou o Filipinho para o próprio mundo, para comer onde ele come e andar com quem ele anda.
“Para mim ajudar é quando você doa o teu tempo para a pessoa e quando você traz a pessoa para o seu mundo.”
Rodrigo Thiago, no Pura Connection · 0:28:27
Depois do Filipinho, outros garotos da comunidade chegaram à academia. O Thiago diz que foi ele quem abriu essa porta.
Os 30% e o medo de perder
A frase que mais me marcou foi do Thiago. Ele diz que já treinou com todo mundo e sabe o que está falando: o Filipinho não compete com 30% do que mostra no treino. O Filipinho concorda. Segundo ele, trava de nervoso, tem medo de arriscar e o maior medo é perder.
Quem ajudou a entender isso foi a terapia. Um aluno da Alliance, vendo que ele não era o mesmo na competição, sugeriu que ele procurasse um terapeuta. O Filipinho contou que achou estranho no primeiro dia e hoje diz que é onde fala coisas que não fala nem com os amigos. Foi ali que lembrou que, na primeira competição, pediu ao pai para não ir assistir, com medo do que ele ia achar se perdesse.
“Na nossa mente de competidor, eu perdi, é o fim do mundo, ninguém vai gostar mais de mim.”
Filipinho Assis, no Pura Connection · 1:25:22
Na marrom, ele contou, foi ao Europeu sem ser favorito, venceu na semifinal um dos garotos mais cotados e ficou com o título. E reclamou que quase ninguém postou. Hoje a referência dele na categoria é o Braguinha, campeão mundial, com quem nunca lutou. Segundo ele, um dia vai ter que vencê-lo para ser o cara.
Uma academia onde competidor treina com todo mundo
O Thiago explicou a regra que criou quando assumiu a academia: os competidores treinam em todos os horários, de segunda a sábado, com os alunos que não competem. Segundo ele, quem ensina evolui, e o aluno comum ganha a chance de treinar com atleta de alto nível. Ele diz que a academia não é lugar para quem quer se sentir exclusivo.
Para dar o exemplo de que dá para ser muito bom e continuar gente boa, ele cita o Flávio Canto, que segundo ele fica três horas explicando qualquer coisa que você perguntar. E conta que o que quer para os alunos vale mais do que a medalha: que um dia, lembrando dele, eles façam pelo outro o que ele fez por eles.
O Filipinho já pensa no depois. Quando parar de competir, quer ser um bom professor e dar na comunidade o que ele diz que mais falta lá: conselho. Ele conta que as crianças do morro já o param na rua para cumprimentar. Para mim, é aí que a história dele começa a se pagar.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.