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Pura Connection · Flávia Távora

Flávia Távora, a psicóloga que compete no jiu-jitsu para entender atletas

Com poucos anos de tatame, ela contou como usa as próprias derrotas no consultório e por que quer ensinar jiu-jitsu para mulheres.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 11 jan 2024 (1:44:55).

Quatro meses depois da primeira aula de jiu-jitsu, a psicóloga Flávia Távora já estava competindo. O motivo, segundo ela, era profissional: queria sentir na pele o que os atletas que atende sentem antes de uma luta. No Pura Connection, ela contou que usa a si mesma como laboratório e que as derrotas no tatame viraram material de trabalho no consultório.

“Competindo, eu conseguia sentir o que os atletas estavam sentindo e transformar isso numa base do meu trabalho.”

Flávia Távora, no Pura Connection · 0:05:27

Assisti à conversa e gostei de como ela fala de psicologia sem complicar. O André, dono do canal, conheceu a Flávia narrando um evento em que ela lutou e disse que ela parecia ter a mente blindada. A entrevista mostra que essa mente foi construída com muita derrota no caminho.

Do quartinho do namorado ao campeonato

A Flávia contou que não conhecia o jiu-jitsu antes de conhecer o namorado. Tinha feito judô quando criança e corria, mas só entendeu o que era a arte suave indo com ele a uma competição. Lá, viu uma mulher fazendo o corner de um lutador e, no fim da luta, ele dedicando a vitória a ela. Pensou que queria aquilo no relacionamento dela também.

Começou com aulas particulares no quartinho que o namorado tinha em casa, foi para uma academia e, em quatro meses, estava competindo. Ela disse que já vinha se salvando de certas coisas quando chegou ao tatame, e que o jiu-jitsu potencializou esse processo. Hoje compete na categoria master e, quando era faixa-branca, lutava entre as adultas.

A cabeça no dia 12

A queixa que mais chega para ela, segundo a Flávia, é a ansiedade antes da competição. A receita dela é manter a cabeça no presente. Deu um exemplo: se a luta é no dia 12 e faltam dez dias, ela visualiza a estratégia, mas não vive o dia 12 na cabeça. Quando o pensamento vai lá, ela traz de volta para o que precisa fazer hoje.

Ela separa visualizar de fantasiar. Visualizar, para a Flávia, é se ver fazendo aquilo que já faz no treino, como o single leg que sempre tenta. Imaginar um armlock voador que nunca deu é fantasia, e isso não ajuda. Outro erro comum, segundo ela, é colocar o foco no adversário: estudar a rival faz parte, mas o treino tem que ser do próprio jogo.

“Eu li em algum lugar que o jiu-jitsu era uma meditação ativa.”

Flávia Távora, no Pura Connection · 0:20:49

O André trouxe um caso dele que ilustra bem o assunto. Contou que, num Mundial, foi chamado para lutar e descobriu que a mochila, com carteira e tudo, tinha sumido da área de aquecimento. Entrou completamente desconcentrado e perdeu. Para a Flávia, esse é o exemplo clássico de problema de fora que entra na área de competição.

Perder para aprender a ganhar

A Flávia contou que, quando começou a competir, achava que tinha obrigação de mostrar que era boa de cabeça, por ser psicóloga. Foi desmontando isso com as derrotas. No ano retrasado e no ano passado, disse, perdeu muita coisa, lutando contra meninas bem mais novas. Só depois começou a ganhar.

“Eu perdi muito antes de começar a ganhar as coisas.”

Flávia Távora, no Pura Connection · 1:25:38

Ela citou uma derrota recente. No Brasileiro deste ano, venceu a primeira luta e perdeu a semifinal, mesmo tranquila e confiante. O detalhe, segundo ela, é que bateu o peso de manhã e lutou à tarde. Disse que analisou tudo e seguiu para a próxima. Ela também contou o caso de uma atleta que voltava de cirurgia: trabalharam seis meses a cabeça para o Mundial, usando a própria recuperação da lesão como prova de superação, e ela foi campeã numa chave de umas 30 meninas.

Na conversa, o André lembrou uma frase que ouviu do mestre Orlando Cani: o nível máximo de um profissional é quando ele se torna o próprio laboratório. É o que a Flávia faz. Ela resume a relação assim: o jiu-jitsu tira o estresse no tatame, mas o problema continua lá quando a aula acaba, e é aí que a terapia entra.

Um espaço só delas

O projeto novo da Flávia é ensinar. Ela e o namorado, Rogério, abrem em janeiro uma Gracie Barra em Realengo, e ela já avisou que a turma feminina é dela. Está fazendo o curso de instrutor da equipe e disse que o jiu-jitsu despertou uma vontade de infância, quando dava aula para os primos.

A motivação tem história. A Flávia contou que já foi assediada dentro de ônibus, na época em que trabalhava e dependia do transporte, e desceu chorando, ligando para o pai, sem saber o que fazer. Ela disse que gostaria de ter conhecido o jiu-jitsu antes e que quer ensinar às alunas, além da defesa pessoal, a inteligência emocional para lidar com esse momento.

“Eu gostaria muito de ter conhecido o jiu-jitsu antes, na época que eu trabalhava, que eu pegava ônibus.”

Flávia Távora, no Pura Connection · 0:15:39

O André contou que aprendeu isso do jeito difícil. Convidou Kyra Gracie para dar uma aula de defesa pessoal para as alunas dele e deixou dois alunos homens participarem. Segundo ele, levou uma bronca na frente de todo mundo, porque nem ele devia estar ali. A Flávia concordou: num evento só para mulheres na Gracie Barra da Taquara, fizeram questão de uma câmera mulher, porque é ali que as alunas se abrem.

O que fica da entrevista é uma ideia simples. A Flávia disse que incentiva todas as alunas a competirem pelo menos uma vez, para sentir como é. Ela mesma, com poucos anos de tatame, parece ter encontrado o lugar onde o jiu-jitsu, a competição e a psicologia se juntam.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.