Pura Connection · Gabi Pessanha
Gabi Pessanha: da Cidade de Deus a campeã mundial, com Bochecha na mira
Ela conta como uma aula grátis num projeto social virou uma carreira de títulos, por que nunca trocou de academia e qual é a meta que ainda falta.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 19 jan 2026 (1:10:44).
Gabi Pessanha tem um objetivo que não esconde de ninguém, nem do próprio dono do recorde: passar Bochecha em número de títulos mundiais. A menina que tinha nojo do suor dos outros e não sabia fazer uma flexão hoje é, nas palavras dela, a atleta que todo mundo quer bater desde a faixa-azul.
“Hoje o meu maior objetivo é passar o Bochecha na quantidade de título.”
Gabi Pessanha, no Pura Connection · 1:06:12
Assisti à conversa dela no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a clareza. A Gabi fala de nervosismo, de dor de barriga antes da final, de lesão e de perda na família sem pose nenhuma. E volta sempre para o lugar onde tudo começou: um projeto social ao lado de um campo de futebol na Cidade de Deus, no Rio.
A aula experimental que ela não queria fazer
O sonho dela era ser jogadora de futebol, mas ela mesma admite que era muito ruim. Ao lado do campo onde a criançada jogava bola, o pastor Márcio abriu um projeto social de jiu-jitsu e foi chamar os meninos para uma aula experimental grátis. O melhor amigo dela, Lucas, foi primeiro. Ela ia só assistir.
Segundo a Gabi, com 11 anos ela tinha pavor de suor alheio e medo de ser zoada por não saber fazer os exercícios. Até que o Márcio perguntou como ela sabia que não gostava se nunca tinha experimentado. Ela fez a aula, gostou e nunca mais parou.
O clique veio com uma história. O Márcio contou que Lucas Vale, atleta da equipe, tinha conseguido passagem, inscrição e hotel pagos para competir nos Estados Unidos. "Se o cara da nossa equipe pode, eu também posso", pensou. Tirou passaporte e visto e lutou o Pan Kids de 2015. Segundo ela, foi a primeira atleta do Márcio a viajar para competir fora do país. Ganhou, e ali decidiu que queria viver do jiu-jitsu.
Treinar pensando nas faixas-pretas
Desde a faixa amarela e laranja, o professor Edson Diniz dizia para ela treinar pensando nas faixas-pretas. A Gabi levou isso ao pé da letra. Na azul, estudava a rotina da campeã da época, Natiele: quantas vezes treinava, qual era a posição favorita. Contou que depois teve a chance de lutar com ela duas vezes e venceu as duas.
Ela também lembrou que mandou mensagem para Monique Elias quando era faixa laranja, dizendo que o sonho era ser igual a ela. A resposta foi para continuar treinando. A Gabi guarda o print até hoje e diz que responde os fãs por causa disso.
Quando pegou a faixa-preta, aos 18 anos, muita gente questionou o professor por jogar uma menina tão nova "num mar cheio de tubarões". No primeiro ano ela ganhou o Mundial. E fez isso sem trocar de academia, mesmo recebendo convites para treinar fora do país.
“Se eu conseguir ganhar um mundial de azul treinando aqui, roxa treinando aqui, marrom treinando aqui, eu também consigo de preta.”
Gabi Pessanha, no Pura Connection · 0:15:12
A ideia, segundo ela, era mostrar aos amigos que cor, classe social e lugar de treino não decidem nada. Hoje ela diz que, quando luta, a rua fecha e o pessoal assiste na birosca.
O nervosismo que não vai embora
Quem vê a Gabi lutando acha que ela está em paz. Ela garante que não. Antes das lutas dá vontade de vomitar e dor de barriga, e o Márcio sempre responde a mesma coisa.
“Gabi, o dia que tu parar de sentir isso, tu pode se aposentar.”
Gabi Pessanha, no Pura Connection · 0:03:07
O professor também mantém os pés dela no chão: toda luta é 50% para cada uma, não importa quantos títulos ela tenha. A Gabi estuda os próprios vídeos como se fosse uma adversária, anotando o que "a Gabi Pessanha" faz de melhor e em que minuto ela cansa. E varia o jogo para não ficar previsível.
Ela contou uma luta com Giovana Jara, que chegava "enguiçando todo mundo". A Gabi saiu perdendo por 7 a 0, mas já tinha estudado a adversária: se não finalizasse em dois minutos, cansaria. Foi o que aconteceu, e a virada veio.
O momento mais duro não aconteceu no tatame. Durante um camp nos Estados Unidos antes do Mundial, o cunhado dela foi assassinado. Ela contou que parava o treino para chorar, longe da família, achando que não ganharia naquele ano. Voltava e treinava.
Musculação, sem kimono e Japão
A Gabi só treinava jiu-jitsu até passar uma temporada em Abu Dhabi, ainda faixa-marrom. Os homens com quem treinava perguntavam se ela malhava ou tomava bomba e insistiam para começar a malhar. Na preta, ela contratou nutricionista e preparador físico, o Alex Reis, e diz que nunca mais travou as costas.
Com o sem kimono, a relação é de amor e ódio. Ela diz que nunca gostou de treinar sem pano porque se machucava. Em 2024, o Márcio mandou que ela se inscrevesse no Mundial sem kimono e enviasse o print no dia seguinte. Ela foi, fechou o duplo ouro de Brasileiro e Mundial e lutou no Who's Number One. Depois perdeu o Mundial sem kimono numa chave de calcanhar, e a própria adversária ensinou a saída na fila do antidoping. Sobre o ADCC, ela avisa que só vai se for convidada, sem seletiva.
Fora do tatame, um amigo, o Thiago, a convenceu a investir em vez de comprar um Jeep, e deu a ideia de abrir academia ainda como atleta. A primeira é em Tóquio. Segundo a Gabi, não existe academia de campeão mundial por lá, e o plano é crescer pela Ásia antes dos Estados Unidos.
O que fica da conversa é que o título que mais pesa para ela vai além das medalhas. A Gabi diz que o ensinamento do Márcio levou gente da Cidade de Deus a trabalhar como árbitro, fotógrafo e a morar fora do país pelo jiu-jitsu. E ela quer que outras meninas da comunidade olhem para ela e pensem que também podem.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.