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Pura Connection · Jansen Gomes

Jansen Gomes, o Nenego, conta como venceu Tainan Dalpra no Mundial

Cria do projeto social do Cantagalo, ele fala do pai que largou o emprego pelo sonho dos filhos, do choro nas derrotas e da final que parou a pirâmide.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 5 out 2023 (2:19:31).

Faltavam uns 15 segundos para acabar a final do peso médio no Mundial de jiu-jitsu. Tainan Dalpra, dois anos invicto e duas vezes campeão mundial, girava tentando uma raspagem. Do outro lado, Jansen Gomes, o Nenego, ganhava por duas vantagens e só pensava em não deixar o adversário pontuar. Deu certo. O garoto que começou a treinar num projeto social do Cantagalo saiu dali campeão mundial.

“Na minha cabeça só passava: nove minutos de luta, o cara não fez ponto, não fez nada. Não é agora no finalzinho que eu vou deixar.”

Jansen Gomes, no Pura Connection · 2:06:36

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me pegou foi a sinceridade. O Jansen fala sem filtro de como chorava nas derrotas quando era moleque, de como o pai largou o emprego para apostar tudo nos filhos e de como o primeiro ano de faixa-preta foi bem mais duro do que ele esperava.

O pai que apostou tudo no jiu-jitsu

O Jansen começou com seis anos, no projeto social do Cantagalo, levado pelo exemplo do irmão mais velho, Jonata, e do pai, Antônio Carlos, que já treinavam. O primeiro professor, segundo ele, foi Douglas Rufino, o Trator. O pai começou tarde, com 27 anos, e chegou a dar aula no projeto. Hoje ainda ensina na Fight Zone.

A família tinha seis filhos e morava na comunidade. O Jansen conta que o pai tinha medo de ver os filhos parados na rua, perto de coisa ruim, e enxergou no esporte a chance de mudar a vida de todo mundo. Teve uma época em que ele parou de trabalhar para se dedicar só à carreira dos meninos. Fazia rifa, pedia ajuda, levava os dois para todo campeonato. Quem segurava as contas da casa, com oito pessoas, era a mãe.

“Esse aqui vai ser o caminho, meu filho. Você vai furar a bolha, vai viajar, vai conhecer novas pessoas, tudo através do jiu-jitsu.”

Jansen Gomes, no Pura Connection · 0:21:42

O preço foi alto. O Jansen conta que parou de estudar no nono ano porque não dava para conciliar as viagens com a escola, e que o pai foi muito criticado pela decisão, até pela diretora. Ele diz que hoje quer terminar os estudos num supletivo e deixa o recado para quem puder: termine a escola.

O moleque que chorava e o irmão que batia

Uma das partes mais bonitas da entrevista é quando ele admite que chorava por qualquer coisa. Chorava quando apanhava no treino, chorava quando perdia. Numa competição interna do projeto, viu o tamanho do adversário e chorou tanto que nem lutou. Às vezes fugia para a casa da avó, no Catete, e passava uma semana dizendo que ia parar.

Na primeira viagem internacional, com 14 anos, foi aos Estados Unidos com dinheiro de rifa e ficou em terceiro. Ele lembra que olhava em volta do ginásio achando que todo mundo estava olhando para ele e pensava em quem tinha ajudado a pagar a passagem.

De onde veio a garra, então? Para o Jansen, do irmão. O Jonata era mais velho, maior e mais técnico, e amassava o caçula todo dia no treino. Ele conta que foi juntando uma raiva por dentro, porque tentava e não conseguia, e que isso virou combustível na competição. Ele mesmo diz que o irmão e o amigo Dudu eram mais talentosos, e que o jogo dele sempre foi na raça.

“Eu tinha muito mais vontade, e ainda tenho, muito mais vontade de guerra do que talento.”

Jansen Gomes, no Pura Connection · 0:45:43

Ele também fala de Tererê, que o pai colocava para ele assistir desde criança como o pioneiro que quebrou as barreiras da comunidade. A primeira foto com o ídolo só veio em 2020. Neste ano, numa viagem à Europa com a turma do projeto, ganhou uma aula particular dele depois de um Open, com correção de posição e tudo.

Direto da faixa-azul juvenil para a roxa

Nas faixas coloridas, o Jansen ganhava quase tudo. Depois de ser campeão mundial juvenil duas vezes, ele conta que o professor Ricardinho e o pai decidiram pular a faixa-azul adulta e mandá-lo direto para a roxa. Muita gente criticou. Ele perdeu na primeira competição, sentiu a diferença de força e, pouco depois, foi campeão mundial de roxa, vice do Pan-Americano e campeão do World Pro.

Na roxa, ele conta que lutou três vezes com o Tainan. Perdeu a primeira e a do Pan, e venceu a final do Mundial por decisão do juiz. Foi ali, diz ele, que caiu a ficha de que precisava levar a preparação física a sério.

A marrom veio na pandemia. Em 2021, ganhou o Pan-Americano, o Mundial sem kimono, um campeonato por equipes e o Mundial de marrom, e com isso recebeu a faixa-preta.

O primeiro ano de preta

A estreia na preta foi um choque. No primeiro campeonato grande, o Pan, ele caiu nas quartas contra o Leandro, perdeu por 5 a 0 e saiu impressionado. Segundo o Jansen, o próprio Leandro foi falar com ele depois e disse que ele era muito duro. No Mundial daquele ano, perdeu no primeiro dia.

Morando nos Estados Unidos havia dois anos, com o pé machucado e muita saudade de casa, ele diz que ficou para baixo como nunca tinha ficado. Foi o Leozinho quem mandou ele para o Brasil tratar a lesão e ver a família. A passagem foi comprada para dois dias depois. O Jansen conta que a volta renovou a energia: fez fisioterapia, voltou a treinar e ganhou o Grand Slam do Rio com cinco lutas numa chave de 35 atletas.

Em 2023 veio o título que ele chama de divisor de águas: o Europeu, na França, no meio-pesado. Na final, contra Pedro Machado, que já tinha vencido ele duas vezes, o adversário foi desclassificado ao sair da área preso num Ezequiel. O Jansen explodiu na comemoração e diz que muita gente não entendeu o grito.

“Esse título foi muito importante porque mostrou para mim que eu podia estar entre os melhores.”

Jansen Gomes, no Pura Connection · 1:29:19

O corte de peso e a final contra Tainan

Para enfrentar o Tainan de novo, o Jansen precisava descer para o peso médio, coisa que não fazia desde 2021. Ele admite que começou a dieta tarde, com 88 quilos, e quase desistiu quando o peso travou em 86. No meio disso, ainda correu atrás de uma entrevista de visto em Dubai para conseguir voltar aos Estados Unidos. Bateu o peso um dia antes, sem sauna.

No Mundial, finalizou as duas primeiras lutas pegando as costas. Na semifinal, venceu o Tye Ruotolo por 4 a 0 e uma vantagem, numa luta que ele descreve como muito movimentada. Na final, o Tainan puxou para a guarda. O Jansen conta que desmontou a guarda com um long step, ganhou a esgrima e chegou às costas por menos de dez segundos. O ginásio foi abaixo. O resto foi defender a base e segurar as duas vantagens até o fim.

“Meu sonho era ser campeão mundial desde criança.”

Jansen Gomes, no Pura Connection · 2:08:09

O que fica da entrevista, para mim, é a imagem que ele mesmo descreve depois da luta: olhando para todo lado sem saber como comemorar, com o irmão, o pai e o professor na frente dele. Ele fecha com um recado para quem vem de baixo: vai ser difícil, precisa fazer em dobro, e quando as coisas começarem a melhorar tem que continuar batendo na mesma tecla.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.