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Pura Connection · Lúcio Lagarto

Lúcio Lagarto conta como venceu um câncer e bateu Xande e Buchecha

O faixa-preta carioca que abriu caminho para o jiu-jitsu em Londres lembra o linfoma aos 25 anos, o absoluto ganho em pleno tratamento e o título em Abu Dhabi.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 30 jun 2025 (1:17:36).

Em 2007, com 25 anos, Lúcio Lagarto ouviu de um médico que estava com câncer. Pouco tempo depois, ainda em tratamento, ganhou um campeonato estadual no peso absoluto. E, já recuperado, foi para Abu Dhabi e passou por cima de Xande Ribeiro e de Buchecha na mesma chave. Quem conta é ele mesmo, no episódio 199 do Pura Connection.

Assisti à conversa e fiquei impressionado com a calma com que o Lagarto fala de tudo isso. O visto americano negado dez vezes, a mudança para a Inglaterra com 50 euros no bolso, a doença, o médico dizendo que ele não teria filho. Ele fala de cada coisa como quem fala de um treino difícil que já passou.

Dez vistos negados e 50 euros no bolso

O Lagarto começa pela disciplina. Segundo ele, a vida sempre foi regrada: enquanto a turma do Rio bebia e saía à noite, ele ia para casa cedo para acordar cedo, surfar e treinar. O apresentador lembrou que o Lagarto nunca usou droga nem bebeu álcool, e ele confirmou que gostava de ir pelo caminho inverso.

“Tive meu visto negado pros Estados Unidos 10 vezes.”

Lúcio Lagarto, no Pura Connection · 0:05:44

Ele explicou que, naquela época, o jiu-jitsu não era reconhecido no Brasil e ele precisava viver daquilo em que tinha investido a vida inteira. Os Estados Unidos não abriam a porta, então ele conseguiu o visto para a Inglaterra e foi. O lugar escolhido foi Preston, uma cidade pequena no norte do país. Segundo o Lagarto, ele saiu do Brasil com 50 euros e foi tentar a vida num lugar onde chove quase o ano inteiro.

Para um carioca criado surfando, foi duro. Ele contou que vivia triste e que hoje enxerga essa fase como uma das coisas que o levaram a adoecer. Até hoje, em Londres, o surfe dele é numa piscina de ondas a duas horas de carro, onde passa o dia inteiro com algum aluno.

A luta com o Jacaré que mudou tudo

O Lagarto diz que nunca teve talento. O que tinha era repetição: se fizesse uma coisa mil vezes, uma hora ia ficar bom nela. Segundo ele, apanhou muito de todo mundo no começo, mas a dedicação era difícil de igualar.

A virada veio numa luta contra Ronaldo Jacaré. Ele contou que deu muito trabalho, quase venceu e chegou a raspar o Jacaré. Depois disso, passou a ser olhado de outro jeito nos campeonatos.

“Aquela minha luta ali com o Jacaré abriu os olhos do mundo para mim.”

Lúcio Lagarto, no Pura Connection · 0:21:55

Ele admite que demorou a lidar com a atenção. Achava que bastava treinar e se dedicar, e só com o tempo entendeu que não comer isso, não usar aquilo e manter a rotina era justamente o que o separava dos outros.

O linfoma descoberto pelo trapézio

A doença apareceu numa temporada no Rio. O Lagarto estava treinando muito sem quimono e ajudando o pessoal do vale-tudo a se preparar para o MMA quando notou que o trapézio esquerdo estava maior que o direito. O primeiro médico falou em garganta inflamada. Ele achou estranho e procurou outra médica, que mandou investigar.

Com o ultrassom na mão, foi falar com o doutor Alexandre, médico que frequentava a academia. Segundo o Lagarto, aquele médico sempre dizia que dedo quebrado não era nada, e naquele dia ele viu preocupação no rosto dele. A biópsia saiu no mesmo dia, e o telefonema veio à tarde.

“Tem uma boa e uma má notícia para você. Qual você quer primeiro?”

Lúcio Lagarto, no Pura Connection · 0:28:36

A má notícia era um linfoma. A boa, que aquele tipo de câncer respondia bem ao tratamento. Ele contou que, na metade do protocolo, o câncer já tinha sido superado, e que seguiu até o fim.

O tratamento era uma semana sim, outra não. Ele entrava com 97 ou 98 quilos e saía da sessão de quimioterapia com 115, inchado de corticoide. Na semana seguinte, o peso voltava e ele ia surfar, treinar e malhar. Contou também que os amigos que mais o visitavam no hospital eram os mesmos que tentavam estrangulá-lo e quebrar o braço dele todo dia no tatame.

Um absoluto em plena quimioterapia

Aqui está a parte que mais me marcou. Ainda com câncer, o Lagarto lutou o estadual e ganhou o peso absoluto. Segundo ele, venceu um atleta chamado Evangelista num campeonato difícil e fechou a final com Braga Neto, que abriu para ele sabendo que ele estava doente.

Ele descreve a sensação de voltar ao tatame como voltar à vida. Os adversários não sabiam da doença e davam tudo para vencê-lo, e ele ganhava assim mesmo.

Quando foi fazer a radioterapia, um médico disse que ele não poderia ter filhos e que não competiria mais em alto nível. O Lagarto riu. Respondeu que, se não pudesse ter filho, comprava um monte de labrador, e propôs um trato: cada um fazia o seu melhor e depois viam no que dava.

“Eu olhava o câncer literalmente como oponente.”

Lúcio Lagarto, no Pura Connection · 0:35:50

Xande e Buchecha na mesma chave em Abu Dhabi

Depois do tratamento veio a chance de se provar no mundial da federação de Abu Dhabi, o World Pro. Na chave dele estavam o Xande e o Buchecha. Segundo o Lagarto, o Xande já tinha levado a melhor sobre ele em Mundiais antes. Naquele ano, ele venceu os dois.

Ele fala dos dois com carinho, chama os dois de grandes amigos e diz que teve sorte. Mas deixa claro o peso daquela vitória: foi ali que provou para si mesmo que toda a dedicação tinha valido. Ele contou ainda que é um dos atletas com mais títulos no Europeu e que ali derrotava no absoluto gente que já era campeã mundial, enquanto os Estados Unidos continuavam fechados para ele.

E o filho veio. Anos depois, um exame no Rio mostrou que não havia problema. Aos 41 anos, ele teve o Rio, nome escolhido em homenagem à cidade. A esposa está grávida de novo.

O jiu-jitsu como ferramenta

Hoje o Lagarto diz que não quer mais competir. O propósito agora é outro: ver um aluno pegar a faixa roxa feliz da vida, ver um garoto sem pai olhando para os professores da academia como referência. Ele contou a história de um aluno que pensou em desistir várias vezes e que, ao ser graduado faixa-roxa, disse que era o melhor dia da vida dele.

Ele também falou do lado de dono de academia. Quando um professor sai levando alunos, o conselho que recebeu de Pedro Valente foi olhar aquilo como sinal de que a academia virou referência. O Lagarto resume com um ditado: ninguém joga pedra em árvore que não dá fruto.

O que fica da conversa, para mim, é a simplicidade com que ele trata a própria história. Ele acha que tudo aquilo aconteceu para servir de exemplo, e diz que já ajudou muita gente contando essa história. Para os pais que perguntam o que fazer quando o filho não quer ir ao treino, a resposta dele é direta: é igual à escola, tem que ir.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.