Pura Connection · Mahamed Aly
Mahamed Aly conta como perdeu o pai e achou no jiu-jitsu um novo caminho
Campeão mundial fala da infância em Caxias, da mágoa com o primeiro mestre, do choro na Pirâmide e da vida de atleta nos Estados Unidos.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 1 mai 2020 (1:38:46).
Mahamed Aly tinha nove anos quando perdeu o pai num assalto. Foi ele mesmo quem trouxe essa história logo no começo do primeiro episódio do Pura Connection, gravado à distância em 2020, quando o coronavírus impediu a conversa ao vivo. Segundo ele, dali em diante a vida da família virou de ponta-cabeça, e foi no jiu-jitsu que ele encontrou chão de novo.
“Com nove anos de idade eu perdi meu pai num assalto, e aí minha vida virou de ponta-cabeça.”
Mahamed Aly, no Pura Connection · 0:08:51
Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a calma com que o Aly fala das partes pesadas. A morte do pai, a briga com o primeiro mestre, a chegada aos Estados Unidos sem falar inglês, o racismo que ele conheceu por lá. Tudo aparece como etapa, sem drama e sem pose de vítima.
De Duque de Caxias para Jacarepaguá
Aly contou que foi criado em Duque de Caxias até os nove anos, numa família comum: pai, mãe, irmã e cachorro. Até os quatro anos eles moravam num puxadinho no quintal de uma tia. Depois vieram para uma casa que era o sonho da mãe dele.
Com a morte do pai, esse sonho foi junto. Segundo o Aly, o carro da família estava no nome da mãe e não tinha seguro. Ela vendeu o carro, depois vendeu a casa para pagar as dívidas, e ele foi morar com um tio em Jacarepaguá.
“Eu perdi meu pai, mas também perdi meus amigos, a escola, toda a minha rotina.”
Mahamed Aly, no Pura Connection · 0:09:55
Aos 14 anos ele entrou no ensino médio técnico e teve que largar todos os esportes para passar o dia inteiro na escola. Ele conta que virou um adolescente agressivo, que discutia com a mãe e com os amigos. Olhando para trás, acha que era só um garoto muito ativo que de repente ficou parado. O kickboxing ajeitou quase tudo. Até que um colega chamou para um rola e ele tomou um triângulo. Ali decidiu que precisava aprender jiu-jitsu.
A referência veio de perto. Segundo o Aly, Rafael Braga, seis anos mais velho, já treinava, lutava campeonato e ganhava. Andava bem vestido, de moto, e ele pensava: se for para ser igual a alguém daqui, quero ser igual a esse cara. Foi o Rafael quem chamou o Aly para ver um campeonato na academia do Brigadeiro.
O mestre que ele tratou como pai
A primeira cena na academia é das melhores da conversa. Era o intervalo entre os treinos, a turma deitada assistindo Chaves numa televisãozinha. Chegou um homem e todo mundo se ajeitou. O Aly, com 14 anos e sem saber nada de etiqueta, continuou deitado. Depois descobriu que aquele era o dono da academia e o mestre de todo mundo. A conversa foi boa, o mestre chamou para voltar na segunda-feira, e ele voltou.
A dedicação virou marca. Ele contou que acordava de madrugada para esperar o Brigadeiro na porta de casa, porque o mestre dava aula particular cedo e dizia que, se ele quisesse conversar, tinha que chegar lá antes. Mesmo assim o Aly discordava dele quando achava que devia, e diz que essa franqueza evitou muitos problemas.
Com uns 16 anos ele saiu da academia, com a promessa de ficar muito bom. Os dois ficaram cerca de três anos sem conversar direito. O reencontro foi na Pirâmide, na Califórnia, no dia em que ele ganhou o primeiro Mundial, ainda faixa-roxa. Antes disso, contou, teve visto negado e perdeu no primeiro ano. No segundo, chegou convencido de que não tinha como perder, e ganhou sem sentir grande emoção. A emoção veio a caminho do pódio, quando viu o Brigadeiro e o Magno assistindo.
“Eu comecei a chorar muito, chorava e não conseguia falar nada para ele.”
Mahamed Aly, no Pura Connection · 0:21:59
Anos depois ele entendeu de onde vinha a mágoa. Sem o pai, esperava do mestre um papel que não cabia ao mestre. Segundo o próprio Aly, a frustração foi culpa dele.
“Eu projetei no Brigadeiro um papel de pai.”
Mahamed Aly, no Pura Connection · 0:29:20
O apresentador, que conviveu com os dois na academia, lembrou que o mestre nunca falou mal do Aly depois da saída.
Alegria no Rio, raiva nos Estados Unidos
O Aly explica que existem dois tipos de motivação que funcionam: a raiva e a alegria. No Brasil, a dele era a alegria. Tinha pouco dinheiro, pegava ônibus lotado, mas sempre tinha pagode, resenha e Chaves entre dois treinos. Chegava aos campeonatos achando que só de estar ali já tinha vencido, e se perdesse ia tomar uma Coca-Cola no McDonald's e ficar de boa.
Nos Estados Unidos, com 18 anos, veio o outro lado. Ele não falava a língua, o clima era frio, as pessoas eram frias e não tinha resenha depois do treino. Foi aí que a raiva entrou. Segundo ele, Lloyd Irvin soube tirar muito desse lado. Ele também aprendeu a cultura do drill e da força, com treino físico de subir escada carregando um colega nas costas.
“Tu tem que botar aqui para mudar de vida, tu não tá aqui brincando.”
Mahamed Aly, no Pura Connection · 0:57:04
Ele vê qualidades nos dois povos. O americano repete a mesma posição mil vezes e tem disciplina, mas trava quando a situação sai do roteiro. O brasileiro faz o drill dez vezes e já quer outra coisa, mas sabe improvisar. Juntar as duas coisas, diz ele, é muito maneiro.
O lado duro da mudança foi o racismo. O Aly contou que nunca tinha parado para pensar nisso no Brasil e que, lá, o racismo anda com ele o dia inteiro. Até o cabelo muda a forma como ele é tratado no supermercado.
O que o tatame ensina fora dele
Por muito tempo, segundo ele, o Aly montou a própria imagem com pedaços de outras pessoas: a seriedade de um, a orelha estourada de outro. A virada veio com a leitura de um livro de um treinador de Michael Jordan, que defendia que o papel do técnico é ajudar o atleta a descobrir quem ele é.
“Eu comecei a entender que eu não ia conseguir ser o Roger Gracie, e nem seria interessante se eu fosse.”
Mahamed Aly, no Pura Connection · 1:24:37
Para ele, o jiu-jitsu prepara para a vida porque, num mesmo treino de cinco minutos, você passa pelo melhor e pelo pior de si. Aprende que às vezes só resta esperar um segundo numa posição ruim, e que o desespero vai ficando longe. Ele lembrou das manhãs em que saía de casa às cinco e pouco para treinar com o mestre De La Riva às sete: só de entrar naquele ambiente, o dia já melhorava.
Ele contou ainda um caso recente que mostra o peso da faixa-preta. Uma conhecida da academia de musculação, veterana da Marinha americana, pediu para aprender jiu-jitsu, e pelo tom das mensagens ele percebeu que ela queria bater em alguém. Conversando, descobriu que ela sofria agressões do namorado. Depois de algumas conversas, segundo ele, ela terminou a relação.
O que fica da entrevista é um atleta que olha para trás sem apagar nada. O Aly disse que viu tráfico de perto, viu muita coisa que pouca gente vive, e não pretende esconder isso. Hoje, de acordo com ele, os julgamentos pesam cada vez menos e o ombro está mais leve.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.