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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Mahamed Aly

Mahamed Aly conta como saiu de garçom para campeão mundial nos EUA

O faixa-preta fala dos bicos para bancar o treino, do começo duro nos Estados Unidos e do que um título mundial muda de verdade na vida de um atleta.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 11 jan 2021 (1:24:15).

Antes de ser campeão mundial, Mahamed Aly trabalhou de garçom nos fins de semana, carregou material de obra e correu atrás de carrinho de controle remoto numa pista de corrida por 40 reais. Tudo para pagar passagem e kimono. No podcast do Muito Mais Ação, ele contou essa trajetória com uma franqueza que eu não esperava e deixou um recado para quem sonha em viver de jiu-jitsu fora do Brasil: ninguém entra no avião pobre e desce rico.

Assisti à conversa inteira, mais de uma hora, e o que mais me chamou atenção foi como o Aly fala de dinheiro, estudo e maturidade sem rodeio. Ele mora nos Estados Unidos desde 2015 e, segundo contou, viaja pelo mundo há 17 anos por causa do jiu-jitsu.

“Você não vai entrar no avião pobre e pousar aqui rico.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:48:32

Os bicos que bancaram o sonho

O Aly contou que era um ano adiantado na escola e terminou o ensino médio com 16 anos, num curso técnico de programação. Nessa época já estava perto da faixa-azul e, segundo ele, pela primeira vez na vida estava apaixonado por alguma coisa. Antes tinha jogado basquete, mas foi no jiu-jitsu que se encontrou. Decidiu usar o ano de vantagem para treinar o máximo possível e ver o que acontecia.

A mãe, conta ele, tinha outros planos, e o clima em casa ficou ruim. Sem poder contar com os recursos da família, ele se virou. Estudava de manhã, ia para a academia, voltava para costurar o kimono que rasgava todo dia e trabalhava de garçom no fim de semana, das dez da manhã às dez da noite. O problema, lembra, é que trabalhando no fim de semana ele não conseguia competir.

A lista de bicos é longa. Ele pediu para trabalhar na recepção de um seminário porque não tinha dinheiro para pagar a inscrição, trabalhou em evento para poder assistir às lutas, foi pedreiro e gandula de carrinho de controle remoto numa pista ao lado de um kartódromo.

A virada veio quando foi para a equipe dos irmãos Nogueira como parceiro de treino. Segundo o Aly, Minotouro se preparava para enfrentar Tito Ortiz, em 2011, se ele não se engana, e o Minotauro confiou nele. Lá ele passou a treinar com os dois e pensou que viraria lutador de MMA. Ele conta que os irmãos não deixaram: acharam que ele era muito novo e deveria seguir no jiu-jitsu. Foi aí que começou a viajar.

A mudança para os Estados Unidos

O Aly disse que nunca teve o sonho de morar fora. Queria ser bom no jiu-jitsu e mudar de vida. Depois de ganhar o Mundial de faixa-roxa e, em seguida, o de faixa-marrom, recebeu o convite para ir para os Estados Unidos em 2015. Ele tinha 19 anos e pensava em voltar para o Brasil para ficar perto da mãe e da família. Então ouviu uma pergunta que mudou tudo.

“Tu quer ser campeão mundial na preta e mudar a tua vida e a da tua família para sempre, ou tu quer praia?”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:11:20

No primeiro ano, ele trabalhou em obra enquanto treinava para o Mundial de faixa-marrom. Contou que todo ano, quando chegava outubro e começava a esfriar, dizia que aquele seria o último ano dele lá. A sensação de estar em casa, segundo o Aly, só veio quando a filha nasceu. Ela é americana e tem as duas nacionalidades.

Ele contou também que aprendeu inglês em três meses e hoje lê em inglês. Para mostrar a diferença que isso faz, comparou cobrar 4 mil reais por um seminário no Brasil e cobrar 2.500 dólares lá fora pelo mesmo trabalho. O Aly foi direto: não contrataria para a academia dele ninguém que não falasse inglês.

Estudo também ganha luta

Um trecho que vale ouvir é quando ele fala de estudo. Na visão do Aly, quem larga a escola para treinar mais leva vantagem de tempo e desvantagem de intelecto. Segundo ele, a burrice funciona até certo ponto, mas lá pela faixa-roxa o atleta precisa tomar decisões muito rápidas e o raciocínio faz falta. E se vier uma lesão, quem não sabe nem escrever um e-mail fica sem saída.

Para quem quer dar aula fora, o conselho dele é conversar com quem já mora lá antes de ir, fazer as contas com calma e saber que vai errar. Ele admite que errou ao alugar um apartamento caro logo no começo. Na conta do Aly, quem chega sem dinheiro e faz tudo certo leva de quatro a cinco anos para começar a respirar.

O que o título mundial muda

O apresentador perguntou quanto ganha um campeão mundial. O Aly contou que levou oito ou nove anos até vencer o Mundial na faixa-preta e que a conquista soltou algo na cabeça dele, uma sensação de que conseguiria qualquer coisa. Mas deixou claro que o título sozinho não resolveu a vida.

“O Mundial sozinho não fez tanto por mim, mas foi uma ferramenta que eu fui usando.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:52:45

Ele contou que ter sido eleito atleta do ano em 2018 rendeu capa de revista e matérias que ajudaram no pedido de green card. E disse que tenta abrir portas de patrocínio para amigos que, segundo ele, ganham muito mais campeonatos do que ele e não recebem nem metade do que ele ganha. Para o Aly, o problema é que muitos campeões não plantam nada fora do tatame. Ele citou o Roleta, que admirou por muito tempo, como exemplo de quem nunca quis viver do jiu-jitsu porque era engenheiro.

“Chegar no topo é muito difícil, manter é muito mais difícil.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:54:23

A maturidade depois do topo

A parte final foi a que mais me tocou. O Aly disse que hoje treina com a cabeça de faixa-branca, querendo entender ângulos e aprender posições que não domina, como a single X. Ele sabe que a concorrência continua pesada, citou Meregali, Erberth e Preguiça, mas contou que a necessidade de provar que é o melhor está cada vez mais distante.

Ele lembrou de uma final que lutou com o pé quebrado e disse que o estresse daquela época foi traumático. Falou do Gordon Ryan como alguém que parece estar sempre buscando esse estresse e disse que não enxerga a própria felicidade nesse caminho. Sobre o ADCC, disse que não concorda com muita coisa das regras e da arbitragem e que não sabe se aceitaria um convite para lutar.

Ele contou que hoje, se para ganhar outro Mundial precisar deixar a filha de lado, prefere dar um passo atrás. E que levou tempo para enxergar força nessa escolha.

“Antes eu achava que era fraqueza.”

Mahamed Aly, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 1:14:17

O que fica da entrevista é o retrato de um campeão que trata cada medalha como mais um tijolo da casa que está construindo, como ele mesmo disse. Para quem está no tatame sonhando com os Estados Unidos, a conversa com o Mahamed Aly é quase um manual: estude, aprenda a língua, faça as contas e prepare-se para ralar por anos antes de colher.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.