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Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · Marinho Filho

Marinho Filho conta como o Sensei SporTV driblou o veto da Globo às lutas

O jornalista lembra do piloto feito com uma câmera só, do diretor que não conhecia Anderson Silva e das lutas de brincadeira com Lyoto, Cigano, Popó e Jon Jones.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Muito Mais Ação Jiu-Jitsu, publicada em 13 jul 2021 (1:07:44).

Durante muito tempo, segundo o Marinho Filho, luta era assunto proibido na Globo. Ele conta que existia uma ordem para isso, e que foi preciso muita malícia, uma câmera emprestada e um estúdio de dois metros quadrados para o jiu-jitsu voltar à televisão pelo Sensei SporTV.

Eu cresci assistindo ao Marinho, e ouvir essa conversa no Jiu Jitsu Podcast, do Muito Mais Ação, foi como ver os bastidores de um programa que marcou uma geração. Tem história de TV, tem jiu-jitsu, e tem o Marinho, com uns 61 quilos, apanhando de campeão do UFC para o público se divertir.

A ordem que vinha de cima

O Marinho trabalhou 12 anos no SporTV. Ele contou que a Globo teve por muito tempo uma implicância com artes marciais e que há várias teorias para isso. Uma delas é o vale-tudo transmitido ao vivo, com sangue na tela.

A parte mais curiosa veio da família Valente. O Marinho contou que foi recebido na casa do falecido Pedro Valente, cirurgião plástico e figura do jiu-jitsu, e que os filhos confirmaram uma história antiga: Hélio Gracie e Roberto Marinho tinham convivência íntima. Com o tempo, segundo ele, vieram os problemas da época dos bad boys, e a emissora preferiu se afastar.

“Era uma ordem explícita, uma ordem categórica.”

Marinho Filho, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:04:07

Ele tentou mudar isso por dentro. Conta que chegou a tomar café da manhã com um dos homens do topo da emissora, foi preparado, argumentou, e ouviu que quase tinha convencido, mas que não ia ter. Mais tarde, quando surgiu o Canal Combate, ele foi chamado para ser o primeiro editor responsável.

Um piloto sem nome, sem estúdio e sem jiu-jitsu

A chance veio em 2008, depois de um problema interno no programa Zona de Impacto, onde ele cobria surfe. O Marinho e a jornalista Ana Hissa levaram a ideia de um programa de lutas ao diretor-geral do SporTV. A resposta foi um sim com condições: façam um piloto, sem recurso nenhum, e ele não pode ser de MMA nem de jiu-jitsu. O Marinho diz que entendeu a piscada do chefe. Era para fazer, com sutileza.

O apresentador escolhido foi o Flávio Canto: judoca olímpico, bem articulado, com imagem boa para a emissora. O piloto foi gravado num lugar apelidado de Caveirão, com uma câmera e duas poltronas. O Flávio levou o kimono de judô e o Marinho, faixa-marrom na época, pegou uma faixa emprestada.

Como não podia falar de jiu-jitsu nem de MMA, o primeiro episódio falou de judô e de boxe. O judoca João Gabriel Schlittler ensinou o kata-guruma, e a equipe foi a um Jungle Fight pedir ao Anderson Silva, recém-campeão, para comentar a técnica. Assim a luta entrou pela porta dos fundos.

O diretor que não conhecia Anderson Silva

O Sensei durou cerca de quatro anos e 180 episódios, segundo o Marinho, sempre brigando por espaço. Ele contou que um dos chefes não queria o Anderson Silva no programa e disse que não o conhecia, numa época em que o Anderson já era campeão do UFC.

“O Anderson Silva é um herói mundial. Só não era nacional porque a gente não construiu o ídolo.”

Marinho Filho, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:20:35

O quadro de que ele mais se orgulha é o Não Brigue, Lute. A ideia era separar a luta da violência gratuita, levando famosos para contar o que as artes marciais deram a eles. Entre os nomes que ele citou estão o Cauã Reymond, o ator Murilo Rosa, faixa-preta de taekwondo, e o cirurgião Ivo Pitanguy, faixa-preta de karatê, que abriu o escritório para gravar mesmo sem dar entrevistas havia tempo.

O Marinho também lembrou que começou no jiu-jitsu em 1993, no Arpoador, onde, segundo ele, o localismo no surfe era o mais feroz do Brasil. O que o convenceu foi ver o Andrezinho, um aluno magrinho do Malibu, pegar os caras mais fortes nas brigas e fazê-los dormir.

Sem Noção: apanhando de campeão

O quadro mais divertido era o Sem Noção. O Marinho, com uns 61 quilos, desafiava campeões para uma luta de brincadeira. O primeiro foi o Lyoto Machida, na época do título dos meio-pesados do UFC. A entrevista virou amizade, e a luta virou episódio, mesmo com o Marinho sofrendo com uma hérnia lombar.

Depois veio o Cigano, no octógono do Team Nogueira, com Minotauro e Minotouro no córner do Marinho. Segundo ele, o Cigano usava uns 20% da força e mesmo assim encaixou um golpe no fim que o fez vomitar sangue, cena que ficou fora do programa. A pior foi com o Popó, no boxe: o Marinho diz que tomou o soco mais forte da vida.

“Eu fui nocauteado em pé.”

Marinho Filho, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:52:01

O único Sem Noção internacional foi com o Jon Jones, também no Team Nogueira. O Marinho contou que o americano chegou, abraçou o Rogério e pediu uma camisa do time para gravar. No meio da luta, o Jones veio com uma joelhada voadora bem devagar, e o Marinho entrou nas pernas e o derrubou. No fim, levantaram o braço do Marinho. A filha dele, então com 4 anos, diz até hoje que é o melhor episódio.

Jiu-jitsu profissional e as renúncias do Mica

Hoje com canal no YouTube, o Marinho diz que voltou a ter prazer em trabalhar com artes marciais por causa do BJJ Stars, e credita o momento ao Fepa, que o chamou para ser repórter do evento. Para ele, as lutas casadas bem pagas são o caminho, e a próxima geração vai preferir isso a lutar um torneio inteiro por medalha.

Ele citou o Mica Galvão, que gravou com o pai, Melqui, um podcast na casa dele. Com 17 anos, segundo o Marinho, o Mica estava havia uns cinco anos sem comer açúcar, fora da escola tradicional, mas bilíngue e bem informado.

“A vida de um lutador profissional é feita muito mais de renúncias e de lesões do que de diversão.”

Marinho Filho, no Muito Mais Ação Jiu-Jitsu · 0:34:13

O que fica da entrevista é a teimosia de quem passou anos empurrando a luta para dentro de uma emissora que não a queria, e se divertiu apanhando no caminho.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.