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Pura Connection · Milton Vieira

Miltinho Vieira conta como saiu do baile funk para o time de Carlson Gracie

Da luta livre em Vila Isabel ao vale-tudo, o lutador lembra o primeiro treino na academia do Carlson, a mão cortada no vidro e o método que hoje ensina aos alunos.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 29 fev 2024 (1:15:36).

Miltinho Vieira chegou à academia de Carlson Gracie com fama de matador de Vila Isabel e, no primeiro dia, quase apanhou de quatro caras antes de subir no tatame. Ele saiu de lá com um corte aberto por uma cotovelada, o elogio do Carlson e a promessa de que ia lutar o Heroes, o evento que o mestre organizava na época. Foi a porta de entrada de um garoto da luta livre, que passava as noites brigando em baile funk, no vale-tudo profissional.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a franqueza. O Miltinho fala da rua, da rivalidade entre luta livre e jiu-jitsu, do mestre que o formou e do método que hoje aplica nas aulas, que ele chama de Blindagem. Tudo no mesmo tom, sem enfeite.

A luta livre que ninguém respeitava

A primeira luta do Miltinho foi de muay thai, aos 12 anos, levado por um tio. Antes ele já tinha passado por capoeira e judô, mas o compromisso de verdade, pagando mensalidade e treinando todo dia, começou entre os 13 e os 14 anos, na luta livre esportiva. Ele conta que era da rua desde cedo e que o pai só descobriu que o filho lutava quando precisou pagar a academia.

Segundo ele, ser da luta livre naquela época era carregar um rótulo. Ele visitava academias de jiu-jitsu e ouvia que luta livre não funcionava. A resposta dele era simples: o que funciona é a técnica que você aprendeu e como você usa.

“A luta livre sempre foi excluída do esporte, sempre era o pessoal mal que não sabia técnica.”

Milton Vieira, no Pura Connection · 0:13:22

Mesmo assim, ele diz que sempre treinou de kimono também. A estreia no jiu-jitsu veio por acaso. Um amigo que era faixa-azul numa academia de Vila Isabel se machucou antes de um campeonato entre academias, e a turma lembrou do Miltinho, que ainda era faixa-amarela na luta livre. Amarraram uma faixa-azul nele, ele entrou no campeonato e finalizou uma luta com um triângulo voador. Saiu com medalha e com a vontade de competir.

Do baile funk ao escritório do Carlson

O Miltinho não esconde o passado. Ele conta que frequentava os bailes funk de corredor com a turma do Morro do Macaco, de quinta a domingo, e que ali a briga era combinada: quem ia, ia para brigar. Segundo ele, isso foi virando uma bola de neve, com envolvimento em coisas erradas, até ele entender que precisava mudar de caminho. Ele faz questão de dizer que nunca fez mal a outra pessoa.

O pai, alfaiate que trabalhava em casa, é personagem central dessa história. O Miltinho ajudava na costura desde os 10 anos e tinha medo de repetir a vida apertada da família. Quando viu que o professor de Vila Isabel ganhava um dinheiro vendendo calça de kimono e faixa para os alunos, entendeu que dava para viver de dar aula. Ele lembra que isso foi por volta de 1990 a 1993, quando ainda não existia UFC nem ninguém ganhando dinheiro com MMA.

“Meu sonho sempre foi ganhar dinheiro dando aula, ensinando.”

Milton Vieira, no Pura Connection · 0:19:09

A ponte até o Carlson foi um vizinho que se dizia faixa-preta e ia todo dia à casa do Miltinho insistir para apresentá-lo ao mestre. O pai perdeu a paciência e mandou o filho ir de uma vez. Antes disso, folheando a revista Tatame com um aluno, o Miltinho tinha olhado a foto da equipe do Carlson e dito que um dia estaria naquele time.

“Um dia eu vou estar nesse time aqui.”

Milton Vieira, no Pura Connection · 0:24:19

No escritório da Figueiredo Magalhães, o Carlson olhou para aquele magrelo e só perguntou se ele tinha trazido roupa. Lá em cima, Jucão e mais três vieram tirar satisfação, e só recuaram quando ouviram que tinha sido o próprio Carlson quem mandou ele esperar ali. O treino era sem kimono, de MMA, e a turma se preparava para o Heroes. O Miltinho diz que fez o treino da vida, tomou uma cotovelada quando estava quase pegando as costas de um adversário e, a partir dali, o Carlson abraçou a causa. Segundo ele, o mestre saiu falando para todo mundo que ele ia ser um fenômeno.

Quando voltou para casa, pediu ao pai só o dinheiro do almoço e da passagem. O pai tinha acabado de abrir uma pequena oficina de roupas e topou. O Miltinho largou tudo, passou fome e treinou. Isso aconteceu, pelas contas dele, entre 1999 e 2000, logo depois de um acidente em que atravessou uma janela de vidro e cortou a mão direita. Ele perdeu o movimento de pinça e conta que muita gente diz que o triângulo de mão dele entra justamente por causa disso.

O Jope e o jiu-jitsu sem kimono

Quando o assunto é técnica, o Miltinho credita tudo ao mestre Jope. Segundo ele, o Jope sempre trocou posição com gente do jiu-jitsu, treinando com e sem kimono muito antes de o ADCC existir. Ele diz que o mestre foi quem criou o nome jiu-jitsu sem kimono e que, se pudesse, era isso que estaria escrito na porta da academia, e não luta livre.

“O Jope nunca foi uma luta livre ortodoxa.”

Milton Vieira, no Pura Connection · 0:33:55

Ele contou uma história que diz ter ouvido, sem ter vivido: num campeonato em meados dos anos 1980, a turma do Jope ganhou tudo usando armlock, triângulo e guarda, posições que a luta livre não usava. Segundo ele, isso gerou uma discussão entre o Jope e Hugo Duarte, e os dois ficaram muito tempo sem se falar.

O Miltinho é honesto sobre a comparação. Para ele, naquela época o jiu-jitsu tinha um leque técnico muito maior que o da luta livre, e isso explica por que o pessoal do jiu-jitsu se deu melhor nos primeiros ADCCs. A turma do Jope era a exceção. Ele lembra que, quando chegou às academias de jiu-jitsu para treinar sem kimono, levava guilhotinas e triângulos de mão que ninguém tinha visto, e que era mais difícil pegar os leves do que os pesados. Na American Top Team, segundo ele, Conan contou que só entendeu o jogo dele quando soube que era aluno do Jope.

Foi assim que chegou ao ADCC. Na primeira seletiva, perdeu na semifinal depois de seis lutas, mas mostrou posições que os organizadores não conheciam e recebeu o convite ali mesmo.

Luta machucado e o nascimento da Blindagem

A estreia profissional foi contra um lutador da luta livre, uma luta pau a pau que ele perdeu na decisão. Ele brinca que os dois estavam de cabeça raspada e de short preto, e que os juízes nem sabiam quem era quem. O Heroes, a luta prometida pelo Carlson, ele fez com um ligamento da perna quase rompido. Segundo o Miltinho, nessa época ele se preocupava demais com inveja e olho grande, porque trinta caras queriam aquela vaga. Mesmo assim, entrou e lutou.

É daí que vem a Blindagem, o método que ele usa hoje. A ideia, nas palavras dele, é que o que os outros pensam só te atinge se você deixar. Ele junta isso com o que aprendeu morando no Japão, nos Estados Unidos e na Rússia, com trabalho de respiração e com um ritual que chama de GRA, de gratidão, realização e abundância. Aplica nas aulas particulares, com empresários e em palestras.

Um detalhe prático me pegou. O Miltinho diz que, para ativar o que chama de arquétipo guerreiro num aluno iniciante, o muay thai funciona mais rápido que o jiu-jitsu, porque o jiu-jitsu é técnico demais para um faixa-branca sentir a pressão da luta logo no começo.

“Eu sou agressivo para dar amor, eu sou agressivo para trazer o teu sonho.”

Milton Vieira, no Pura Connection · 1:06:00

O que fica da conversa

Aos 45 anos, dando aula na zona sul do Rio, o Miltinho resume a arte marcial numa luta contra o ego, da faixa-branca à coral. É a mesma ideia do garoto que chegou à academia do Carlson ouvindo que luta livre não funcionava e resolveu mostrar no treino.

“O mal da humanidade é o ego, e na luta tu combate o teu ego do início ao fim.”

Milton Vieira, no Pura Connection · 1:12:45

Para quem gosta da história do vale-tudo carioca, a entrevista vale pelos detalhes: o escritório da Figueiredo Magalhães, o Heroes, a turma do Jope levando armlock e triângulo para a luta livre. E pela lembrança de que muita gente boa daquela geração veio do lado que o jiu-jitsu olhava torto.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.