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Pura Connection · Nicolas Renier

Nicolas Renier, francês da luta livre, conta como lotou academias em Paris

Seis vezes no ADCC, ele passou oito anos sem acertar o negócio, perdeu dinheiro, mudou horário e preço e hoje tem mais de 2 mil alunos.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 21 mar 2024 (1:18:09).

Nicolas Renier disputou seis edições do ADCC, é faixa-preta de luta livre e tem quatro academias em Paris com mais de 2 mil alunos. Mas o que mais me chamou atenção na conversa dele no Pura Connection foi ele admitir que passou oito anos fazendo tudo errado com a primeira academia. Pagava as contas dando seminário na Europa todo fim de semana, porque o tatame não se pagava sozinho.

Sou professor e dono de academia também, então fui ouvindo com caneta na mão. O francês, que hoje mora no Brasil, falou de horário, de preço, de aluno que para de pagar, de um prejuízo enorme com um imóvel ruim e de como aprendeu a ganhar dinheiro com luta sem depender só de campeonato.

Do kung fu que não rolou à luta livre

O Nicolas contou que começou em 1998, aos 12 anos, numa academia perto de Paris. Ele queria fazer kung fu, porque gostava de Jackie Chan. No dia da aula experimental, o professor faltou e quem deu a aula foi um aluno meio sem jeito. Aí ele experimentou o jiu-jitsu, o professor deu muita atenção ao menino no meio da turma de adultos, e ele ficou.

Segundo ele, o jiu-jitsu tinha acabado de chegar à França e os professores tinham pouca técnica para passar. A academia era filiada a Rickson Gracie e depois passou a ser ligada a Flávio Behring, com quem ele diz ter aprendido muita coisa. Quando a academia trouxe um professor de luta livre para desenvolver o sem kimono, o Nicolas viu aquele estilo brasileiro, cheio de posição nova a cada aula, e decidiu que era aquilo que queria. Ficou na luta livre até hoje.

Ele tem uma leitura curiosa da velha rivalidade. Para o Nicolas, o jiu-jitsu cresceu porque sempre teve competição, federação e uma visão de expansão da família Gracie, enquanto na luta livre, pelo que ele viu gravando uma websérie com mestres como Hugo Duarte, Eugênio Tadeu e Roberto Leitão, cada um treinava no seu canto, sem organização. Ele também lembra que, na época, quem ganhava no sem kimono costumava ser o mais forte e explosivo, e cita Cacareco e Alexandre Pequeno, que foi um dos professores dele.

O ADCC como vitrine

O Nicolas contou que percebeu cedo que era um dos poucos na França a começar tão novo e que, se se dedicasse, podia viver daquilo. Segundo ele, entre 2007 e 2017 lutou todos os ADCC: foram seis participações, com quatro vitórias na seletiva europeia e dois convites. Lutou nos Estados Unidos, na Espanha, na Inglaterra, na China, na Finlândia e no Brasil, em 2015.

“Se eu consigo fazer uma coisa lá, eu vou conseguir fazer um nome.”

Nicolas Renier, no Pura Connection · 0:20:05

Ele diz que vê muitos alunos errando ao lutar eventos que não dão retorno nenhum. Ele mesmo foi campeão mundial de uma federação de grappling e, segundo ele, hoje ninguém dá valor a isso, enquanto ganhar a seletiva do ADCC abre porta. E faz uma observação que eu acho justa: poucas lutas deixam o atleta ganhar dinheiro com instrucional, roupa e seminário. No judô, lembra ele, quase ninguém faz isso.

Oito anos errando e um prejuízo de R$ 600 mil

A ideia da academia veio de uma viagem ao Brasil. O Nicolas treinou numa academia em São Paulo onde os caras treinavam de segunda a domingo, manhã, tarde e noite, e concluiu que, com três horários por semana, os parceiros dele nunca iam evoluir. Voltou para a França, alugou uma sala com dinheiro emprestado pelos pais e passou a dar aula o dia todo.

“Eu vou ter que formar meus parceiros de treino para poder continuar evoluindo.”

Nicolas Renier, no Pura Connection · 0:55:14

Não deu certo por oito anos. Segundo ele, errava no preço, nos horários e na divulgação, escolhendo o que era bom para ele e achando que servia para todo mundo. Quando surgiu um convite para dar aula em Nova York, ele e a esposa combinaram um prazo de um ano para fazer a academia funcionar. Ele estudou as academias que davam certo e as que não davam, e mudou tudo.

As mudanças que ele contou são simples. À noite, três turmas seguidas (18h, 19h e 20h30), para quem sai tarde do trabalho. Turma de manhã cedo. E preço por frequência: uma vez por semana custava o mesmo que a academia de musculação mais barata de Paris, e o valor subia a cada dia a mais. O pior ano, segundo ele, foi quando cobrou um preço único com acesso livre: quase fechou, porque ninguém queria pagar aquilo para ir uma vez por semana. O site próprio e o Google com geolocalização também ajudaram, já que a academia ficava numa rua sem movimento.

Nem tudo acertou. Uma parceria com uma rede de musculação obrigava o aluno a pagar dois planos e não vingou depois de um ano e meio de insistência. E um imóvel mal isolado, com barulho incomodando os vizinhos e mofo no inverno, custou caro.

“Eu perdi mais de R$ 600 mil com essa academia.”

Nicolas Renier, no Pura Connection · 0:41:57

Aluno preso à academia, e não ao professor

Hoje, segundo o Nicolas, são quatro academias em Paris, mais de 20 funcionários e aula das 7h às 22h, de segunda a domingo, com luta livre, jiu-jitsu, muay thai, MMA e preparação física. O aluno paga uma vez e pode treinar em qualquer uma das unidades. Quase todos os professores foram alunos dele. Para o problema de quem para de pagar, ele adotou na pandemia a marcação de aula pela internet: se o pagamento não passou, o aluno não consegue marcar e resolve em casa, antes de chegar ao tatame.

“Você tem que fazer o aluno ser apegado à academia, e não ao professor.”

Nicolas Renier, no Pura Connection · 0:49:23

BJJ Fanatics, Meregali e a rotina com Melqui Galvão

Por volta de 2018 ou 2019, contou ele, mandou um e-mail para a BJJ Fanatics oferecendo um instrucional e, em 30 minutos, tinha passagem comprada para Boston. Na pandemia, com a academia fechada, virou gravador da empresa na Europa e diz que isso o salvou. Já no Brasil, gravou Nicholas Meregali, Leandro Lo e Roger Gracie. Com o Meregali, segundo o Nicolas, fez quase o primeiro treino sem kimono da vida dele, quando o Meregali já pensava em ir treinar com John Danaher nos Estados Unidos. O Nicolas também fez aulas com o Danaher e diz ter sentido ali uma vibe de luta livre.

Foi gravando em Manaus que ele conheceu Melqui Galvão e o filho, Mica. Hoje, morando em São Paulo, ele treina com o Melqui em Jundiaí quatro vezes por semana e quer voltar a competir, primeiro no master. Segundo ele, o Melqui paga apartamento, comida, inscrição e viagem dos alunos, não falta um dia e não tem vergonha de perguntar a opinião dos outros. Até deixou o francês dar aula de defesa de guilhotina.

“Ele está fazendo um trabalho de pai, sabe? De pai professor.”

Nicolas Renier, no Pura Connection · 1:13:34

O que fica da conversa é um cara de 38 anos que ainda quer aprender. Ele diz que, na luta, você tenta a posição, não dá certo, tenta de novo até dar, e que é igual no negócio. Pela história dele, dá para acreditar.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.