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Pura Connection · Patrick Gaudio, Victor Honório

Patrick Gaudio revela o que deu errado na luta contra Gordon Ryan

Ao lado de Victor Honório, o faixa-preta da GF Team conta a preparação, a queda que mudou a luta e por que ainda acredita que pode vencer o americano.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 26 abr 2024 (1:26:06).

Patrick Gaudio entrou na segunda luta contra Gordon Ryan com um plano simples: derrubar o americano e passar 30 minutos pressionando por cima. Tomou a queda logo no começo e não conseguiu mais sair de baixo. No Pura Connection, ao lado do amigo e parceiro de treino Victor Honório, ele contou o que sentiu naquela luta e por que continua achando que dá para vencer o Gordon.

Assisti à conversa e gostei do tom. Nada de desculpa. O Patrick fala da derrota com detalhe técnico, dá mérito ao adversário e deixa claro que quer a revanche. O Honório, que morou com ele durante a preparação, completa com o olhar de quem acompanhou tudo de perto.

“Eu acho que eu fiz tudo que tava no meu alcance.”

Patrick Gaudio, no Pura Connection · 1:09:41

Dois filhos de professor, dois jeitos de ser

Os dois começaram com quatro anos e são alunos dos pais. O Patrick contou que o pai, faixa-preta, tinha um projeto social em comunidades do Rio e levava o filho, garoto de prédio, para treinar com os meninos de lá. A brincadeira da turma era ver quem fazia o filho do professor chorar primeiro. Ele chorava todo dia.

“Hoje me chamam de leão, então foi uma boa troca.”

Patrick Gaudio, no Pura Connection · 0:07:13

Treinando sempre com gente mais velha, ele diz que quase não perdia quando lutava contra meninos da mesma idade. Nunca brigou na rua. As únicas confusões da infância, contou, foram no futebol, onde ele era goleiro e no máximo ouvia que era frangueiro.

O Honório contou que a família dele é da linhagem de Carlson Gracie. Ele competiu pela equipe Carlson Gracie e depois pela Top Brother, que foi mudando o foco para o MMA quando o esporte explodiu. Com o treino de jiu-jitsu perdendo espaço, os dois foram para a GF Team, onde estão até hoje.

Na personalidade, os dois se definem como opostos. O Patrick gosta de rotina, dorme cedo, come certinho e quase não vai a festa. O Honório saiu bastante na juventude, mas diz que sempre escapou das confusões e voltou para casa inteiro.

“Ele é o disciplinado, eu sou o sagaz.”

Victor Honório, no Pura Connection · 0:19:37

A luta contra Gordon Ryan

A primeira luta entre os dois foi em 2018, e o Patrick diz que quase ganhou. A segunda teve 30 minutos, e ele contou que foi a primeira vez na vida que lutou tanto tempo. Para se acostumar, a dupla passou a fazer treinos sem tempo. Num deles, o rola durou 32 minutos.

Olhando para trás, o Patrick mudaria pouco. Acha que treinou demais, ficou estressado perto da luta e acordava cedo demais. Se pudesse voltar, descansaria mais.

O plano, segundo ele, era derrubar. O Patrick não enxergava no Gordon um wrestling tão afiado quanto a passagem de guarda ou o jogo de costas. Só que o americano entrou com um arm drag certeiro e levou a luta para o chão com ele por baixo. A partir dali, o Patrick passou uns sete ou oito minutos empurrando com os braços para cima. Perto dos 17 minutos, arriscou dar as costas para tentar virar por cima. O Gordon pegou as costas, foi para o braço e finalizou.

O Honório acrescentou um detalhe curioso: pouco antes da luta, o Gordon aparecia treinando justamente aquele arm drag. Para ele, o posicionamento por cima do americano lembra o de Roger Gracie, que tinha o apelido de cobertor. Ele se vê mais parecido com o estilo de Rodolfo Vieira, por ser mais compacto.

O que faz o Gordon ser diferente

O Patrick disse que não sentiu uma força física anormal. O que impressionou foi a pegada e a forma como uma posição encaixava na outra, como se o Gordon estivesse sempre um passo à frente.

“Quando ele segura no punho, parece que tá fazendo uma pegada no kimono.”

Patrick Gaudio, no Pura Connection · 1:15:53

Ele credita parte do sucesso a John Danaher, que, na visão dele, estuda os adversários por horas e entrega ao atleta um plano pronto. Somado a isso, diz o Patrick, o Gordon é americano, fala bem e vende a luta. Ele lembrou que o americano começou a aparecer depois do ADCC da Finlândia, em 2017, e que no último ADCC ganhou a divisão e a superluta.

O Patrick também contou que, pelas regras daquele evento, sabia que só venceria finalizando ou com muito domínio, porque numa decisão apertada o resultado iria para o Gordon, que traz público para a organização. Mesmo assim, diz que o americano sempre o respeitou e, depois da luta, até o convidou para treinar com ele e com o Danaher no Texas.

“Eu não quero quebrar ele, só quero ganhar.”

Patrick Gaudio, no Pura Connection · 1:21:41

Treinar menos para lutar mais

Outro assunto que rendeu foi a longevidade. Os dois contaram que já chegaram a campeonatos exaustos de tanto treinar e hoje preferem treinos específicos, com menos rola e mais técnica, para evitar lesões. O Patrick, que já passou por cirurgia, diz que não tem pressa e que o objetivo é durar o máximo possível em alto rendimento.

Ele disse que quer lutar o Mundial e o Brasileiro e que espera ser chamado para o ADCC. Contou ainda que o Honório, mesmo vencendo uma luta recente sem a atuação que queria, conseguiu tirar lição da vitória, coisa que pouca gente faz.

O apresentador lembrou uma passagem do livro de Rickson Gracie, em que Royler conta que um motorista xingou o Rickson a caminho da praia e ele simplesmente seguiu viagem. Os dois convidados se identificaram: dizem que a confiança que o jiu-jitsu dá tira a necessidade de provar alguma coisa na rua.

O que fica é a imagem de dois atletas que cresceram juntos no tatame e hoje estão na linha de frente da GF Team. O Patrick perdeu para o Gordon, mas saiu da conversa com cara de quem está só esperando a próxima chance.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.