Pura Connection · Márcio Pé de Pano
Pé de Pano conta como foi campeão em três faixas no mesmo ano de 1999
O faixa-preta lembra da derrota para Ricardo Arona que mudou seu jogo, do conselho de Carlinhos Gracie e da academia que construiu nos Estados Unidos sem vender faixa.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 abr 2023 (1:49:04).
Em janeiro de 1999, Márcio Pé de Pano era faixa azul e ganhou o Pan-Americano. Em julho, já de roxa, foi campeão mundial. Em setembro ou outubro, de marrom, levou o Brasileiro. No ano seguinte, foi campeão brasileiro de faixa-preta no peso e no absoluto. Foi assim que ele abriu a conversa com o André no episódio 100 do Pura Connection.
“Em um ano e meio de azul eu sou campeão na preta, ganhando os caras top da categoria.”
Márcio Pé de Pano, no Pura Connection · 0:18:34
O Pé de Pano lembra que hoje isso não poderia se repetir, por causa das regras de tempo mínimo em cada faixa. Assisti à conversa inteira e o que me pegou foi como esse cara, que parece tão seguro, conta que na infância tinha o apelido de Chorão. E como uma única luta perdida definiu o jeito dele de lutar pelo resto da carreira.
A luta com Arona e o conselho de Carlinhos
No Brasileiro de 1999, a primeira luta dele na faixa-marrom foi contra Ricardo Arona. Segundo o Pé de Pano, o Arona já era campeão do ADCC e aquela seria sua última luta de marrom antes da preta. Ele conta que o Arona não conseguiu passar a guarda dele e acabou raspado. Aí alguém gritou para ele segurar a vantagem.
O problema, diz ele, é que nunca tinha treinado para segurar ninguém. Ficou travado na guarda e, faltando pouco, o Arona raspou de volta e venceu na vantagem. Depois da luta, Carlinhos Gracie o chamou num canto e disse que ele ia lutar o absoluto, sem se preocupar com o resultado, do mesmo jeito que fazia na academia.
“Eu finalizei todo mundo depois disso e fui campeão brasileiro absoluto.”
Márcio Pé de Pano, no Pura Connection · 0:22:11
Para o Pé de Pano, a lição ficou para sempre. Cada lutador tem seu estilo, e o dele era fazer o adversário se mexer para abrir espaço. Desde aquele dia, ele conta, nunca mais segurou ninguém. Se perder, que perca no próprio jogo. Ele faz questão de dar crédito a Margarida, que, segundo ele, foi quem mudou o jiu-jitsu com a busca pela finalização e pela agressividade, antes dele. Lembrou também que, no seu primeiro nacional, enfrentou Léo Dalla.
O menino Chorão que achou confiança no tatame
O Pé de Pano descreve a própria infância como a de uma criança tímida, que virou um adolescente inseguro. Ele contou que não conseguia nem cumprimentar as pessoas: quando a mãe mandava falar com a tia, ele escondia a cabeça. Hoje ele dá palestra para três mil pessoas e diz que entra no palco tirando onda.
Por isso ele insiste que os pais coloquem os filhos no jiu-jitsu, pensando na confiança que o tatame dá. Contou que, no aniversário do filho de 8 anos na academia, ficou assustado com a diferença entre as crianças que treinam e as que não treinam. Duas nem conseguiram entrar no tatame por medo de uma criança maior. Para ele, o dia em que o menino bate num colega maior muda tudo.
“Antes do jiu-jitsu eu não conseguia cumprimentar as pessoas.”
Márcio Pé de Pano, no Pura Connection · 0:31:51
A academia nos Estados Unidos
O Pé de Pano chegou aos Estados Unidos em 2009, logo depois da crise de 2008, sem falar inglês. Segundo ele, os primeiros anos foram de quebrar pedra: academia pequena, contas pagas com seminários e lutinhas, e um olhar de decepção em quem chegava esperando ver a academia de um campeão. Ele ainda teve o crédito destruído por um cartão falso feito em seu nome.
A virada veio quando o dono da loja vizinha ofereceu o espaço. Com um cartão de 300 ou 400 dólares, ele comprou tatame e os alunos se juntaram para reformar. Em 2017, quando o prédio foi posto à venda, ele conta que conseguiu, com a ajuda de uma consultora de financiamento, comprar três lojas. Hoje é dono do próprio espaço, tem cerca de 120 crianças treinando e sete faixas-pretas no treino.
A regra da casa é dura. Não tem open mat para visitante, a faixa está incluída na mensalidade para não virar negócio, e quem pergunta sobre graduação recebe a faixa seis meses depois do dia em que ele achar que está pronto. A esposa levou cerca de 12 anos para chegar à preta. O filho mais novo treina desde os três anos e segue na faixa cinza e preta.
“Eu tenho até o slogan: jiu-jitsu não é para todos. É para pessoas especiais.”
Márcio Pé de Pano, no Pura Connection · 1:26:29
Ele critica academias que graduam só pela presença e pelo tempo mínimo da federação. Para ele, cada aluno deve ser avaliado pelo desempenho, e, se um aluno de quem o professor cuida todo dia não passa no teste, quem falhou foi o professor.
Carlinhos, a IBJJF e a família Gracie
O Pé de Pano diz que conviveu muito com a família Gracie. Morou com Ryan em São Paulo e teve passagens com Rickson, que para ele sempre foi intocável. Contou que só ficou nervoso uma vez na vida, e foi ao entrevistar o Rickson, mais do que em qualquer luta de MMA.
Para ele, o maior legado de Carlinhos Gracie é a federação. Segundo o Pé de Pano, o primeiro Brasileiro foi organizado por Dedé Pederneiras, mas a confusão foi tão grande que ele desistiu, e o Carlinhos assumiu. No primeiro Mundial, em 1996, quando os organizadores diziam que nunca mais fariam aquilo, o Carlinhos teria previsto campeonatos em todos os continentes no mesmo dia. O Pé de Pano vê nele o mesmo tipo de visão que atribui a Carlos Gracie.
O que fica da conversa é a coerência de um cara que diz preferir ficar com o próprio erro a seguir o acerto dos outros. Dá para discordar dele em muita coisa, e ele mesmo diz isso. Mas é difícil não respeitar.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.