Pular para o conteúdo

Pura Connection · Pedro Salomão

Pedro Salomão e a lição de Carlson Gracie sobre a medalha de prata

Escritor e palestrante, o faixa-preta formado na escola de Carlson conta como a mãe o levou para o jiu-jitsu e o que o tatame ensinou sobre tempo, rito e vida comum.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 25 jul 2022 (1:18:18).

Em 1995, depois de um campeonato, a molecada da academia do Carlson Gracie se juntou para uma foto da revista Tatame. Todo mundo com a medalha no peito. O Carlson olhou, viu um monte de prata e mandou sair da foto quem não tinha ganhado. Quem conta a cena é o Pedro Salomão, escritor, palestrante, finalista do Jabuti e faixa-preta, na conversa que teve no Pura Connection.

“Ele mandou todo mundo que tivesse medalha de prata sair. Só quem ganhou o campeonato vai tirar foto.”

Pedro Salomão, no Pura Connection · 0:07:38

Assisti ao episódio e confesso que essa história me pegou. Ela diz muito sobre a escola que formou tanta gente dura no Rio. Mas o Pedro faz questão de contar o final: segundo ele, o Carlson falou daquele jeitão, sem querer diminuir ninguém, e avisou que no próximo campeonato todos iam voltar para buscar o ouro. E a maioria voltou com a medalha de ouro no peito.

O jiu-jitsu que veio pela mãe

Muita gente acha que o Pedro chegou ao jiu-jitsu por influência do pai ou de uma família de lutadores. Ele contou que foi pela mãe. Nascida em Copacabana, ela lembrava das turmas das ruas Miguel Lemos, Bolívia e do Arpoador, e achava charmosos os meninos do jiu-jitsu da família Gracie, como o Robson, que andavam com o kimono debaixo do braço e tinham cuidado com a alimentação.

Segundo o Pedro, ela decidiu ali que, se um dia tivesse um filho homem, ele ia fazer aquilo. Ele acabou sendo o único menino numa família só de mulheres. Aos sete anos, a mãe o levou para a escola do Reylson.

Ele conta que a escola do Reylson ensinava a história para a garotada. Foi assim que aprendeu que Carlos e Hélio eram fisicamente frágeis e usaram o esporte para curar as próprias feridas. Pelo que o Pedro disse, essa ideia moldou o jeito dele de encarar o treino: como exercício de estratégia, e muitas vezes como uma adversidade em que ele se deixa colocar para depois sair.

Na escola do Carlson, na Figueiredo Magalhães

Criado em Copacabana, o Pedro migrou ainda garoto para a academia do Carlson, na Figueiredo Magalhães. Ele lembra de ter sido muito bem recebido pelo Juninho, pelo Saporito, pelo Marcelo Alonso e pelo Ary. Dali em diante, entrou de cabeça.

É uma escola onde, nas palavras dele, a turma já começava competindo no próprio treino. Ele lembra dos campeonatos nos ginásios da Gama Filho e do Tijuca Tênis Clube, com um tatame de lona sobre raspa de pneu que ralava tudo: dedos, testa, o que encostasse.

No campeonato de 1995, que ele acredita ter sido o primeiro organizado pela Confederação, numa época em que o jiu-jitsu era cotado para virar esporte olímpico convidado, a Carlson teve vários campeões no infanto-juvenil. O Pedro foi um deles. Daí a famosa foto.

O que chama atenção é o jeito como ele lê o episódio hoje. Para o Pedro, o Carlson era um homem de muitos afetos, e aqueles simbolismos ajudaram a construir caráter num garoto criado com muita fé e carinho, que talvez precisasse de um pouco de dureza para encarar a vida.

“O Carlson era muito afetuoso, era um cara de muitos afetos.”

Pedro Salomão, no Pura Connection · 0:08:10

O faixa-preta que prefere a média

O Pedro diz que nunca foi competitivo, e isso vira tema dos livros dele. Ele contou que abreviou a carreira de competidor quando precisou escolher entre os estudos, a profissão e o jiu-jitsu. Mas nunca parou de treinar, às vezes mais, às vezes menos.

Ele defende o valor do que é ordinário, do dia comum, num mundo em que todo mundo quer ser extraordinário. E usa o tatame como exemplo: por melhor que seja a performance num campeonato, o dia a dia é feito do sufoco no treino, sozinho com você mesmo. Para quem pergunta se dá para começar aos 50, a resposta dele é que a pessoa vai pegar a melhor parte, que é suar, passar sufoco e ficar feliz quando consegue tirar alguém de cima.

Tem um detalhe curioso: ele quase não fala do jiu-jitsu no currículo. A explicação é que, para ele, a virtude é silenciosa. Ele acha que a surpresa de descobrir um faixa-preta por trás do palestrante encanta mais do que se ele anunciasse.

“Quando você precisa dizer para os outros que você tem uma virtude, você já deixa de ser virtuoso.”

Pedro Salomão, no Pura Connection · 0:14:54

Rito, tempo e o mestre Orlando Cani

Outra ideia forte da conversa é a do rito. O Pedro acha que a vida das telas quer acelerar tudo, e que por isso um jovem estranha um esporte em que se leva uns 15 anos para completar o caminho. Para ele, o jiu-jitsu é uma ferramenta ritualística: quando encontra um faixa-preta de uma escola dura, já sabe por quais apertos de pescoço e dedos tortos aquela pessoa passou, mesmo sem conviver com ela.

Ele também faz uma observação bonita sobre o tempo de luta. Quando se é garoto, dez minutos parecem uma eternidade e a gente torce para acabar. Mais velho, com mais sabedoria, os cinco minutos parecem pouco, porque agora você está começando a entender o jogo do outro.

Na parte final, ele lembra do Orlando Cani, com quem fez bioginástica num momento de mudança de vida, quando estava virando autor. Para o Pedro, foi uma das pessoas que mais o marcaram, e tem o melhor abraço que existe.

O que fica do episódio é a visão de alguém que usou o tatame para outra coisa além das medalhas. A foto de 1995 continua sendo o melhor resumo: o Carlson tirou a prata do retrato, e o Pedro, anos depois, transformou aquilo em reflexão sobre caráter, tempo e paciência.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.