Pura Connection · Piter Frank
Piter Frank conta como saiu do fundo do poço e virou astro do jiu-jitsu
O faixa-preta master que conquistou o público do BJJ Stars fala da depressão nos Estados Unidos, do mestre Cavaca e do personagem que criou na internet.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 2 dez 2024 (1:25:33).
Quem vê Piter Frank dançando antes das lutas e fazendo vídeo engraçado na internet não imagina por onde ele passou. Na conversa com o André no Pura Connection, o faixa-preta contou que, durante a pandemia, perdeu o casamento, foi morar dentro do carro nos Estados Unidos com a cachorra, bebia todo dia para conseguir dormir e chegou a tentar tirar a própria vida.
Pouco tempo depois, estava de novo no tatame. Foi campeão mundial master, virou atração do BJJ Stars e hoje diz que a maior vitória dele é outra: falar inglês. Assisti à entrevista e é uma daquelas histórias que mostram o outro lado de quem parece estar sempre feliz.
“O palhaço faz todo mundo sorrir, mas ninguém vê a lágrima dele nos bastidores.”
Piter Frank, no Pura Connection · 0:46:16
De caseiro em Juquehy ao tatame do Cavaca
O Piter nasceu numa cidade pequena do interior de Goiás, numa família pobre. Mudou para o litoral de São Paulo no começo da adolescência, e os pais trabalharam como caseiros na mesma casa por 21 ou 22 anos. Ele sonhava ser jogador de futebol, viveu do surf e trabalhava como chefe dos garçons de um restaurante quando entrou no judô, já com uns 22 ou 23 anos.
Com dois meses de treino foi para a primeira competição e ficou em terceiro. Gostou. O jiu-jitsu veio aos 24 anos, num espaço pequeno em Juquehy. Pouco depois ele se mudou para Santos para fazer faculdade de Educação Física, com ajuda de uma família de Goiás que tinha adotado a mãe dele.
Em Santos, ficou uns nove meses sem treinar direito, até achar na rua um panfleto de jiu-jitsu. Era a academia do Cavaca. Ele diz que ali descobriu o que era jiu-jitsu de verdade e que o mestre o ensinou a ser uma pessoa melhor, a falar melhor e a dar aula. Ficou com o Cavaca até ganhar a faixa-preta, aos 31 anos, pouco antes de ir para os Estados Unidos.
O choque dos Estados Unidos
No Brasil, o Piter era personal trainer com bastante aluno, carro novo e vida confortável. Numa manhã de garoa em Santos, subindo na moto para dar aula às 6 da manhã, decidiu que não queria mais aquilo. Ligou para o amigo Johnny, que sempre o chamava para treinar na Califórnia, deu a moto para a irmã, o carro para os pais e foi embora com uma mala.
Ele esperava chegar e ter patrocínio, como via acontecer com os atletas da academia. Levou o que ele chama de chá de realidade. Sem falar inglês, precisou aceitar qualquer trabalho, qualquer casa e qualquer carro. O jiu-jitsu sentiu: começou a perder e ficou fora do Mundial. Foi o Cavaca, por telefone, que o levantou.
“Se você não sabe falar inglês, você é surdo, mudo e analfabeto.”
Piter Frank, no Pura Connection · 0:21:11
A noite em que a cachorra o salvou
Na pandemia, o casamento com uma americana acabou. O Piter contou que foi morar no carro com a cachorra, a pitbull Kira, e que ficou uns dois meses assim, bebendo uísque e vinho para dormir. Numa noite em que tentou dormir numa casa abandonada, foi atacado por um morador de rua e precisou se defender. Nem com um lugar para morar, conseguido com ajuda de um amigo, a nuvem preta foi embora. Ele parou de treinar.
Ele contou, com a voz tremendo, que num dia de desespero tentou se matar em casa e só parou porque a cachorra começou a uivar, sentou na frente dele e deu a pata. Pensou em quem ia cuidar dela. Abriu a Bíblia no Salmo 91, rezou em voz alta e prometeu a Deus que ia parar de reclamar. Ele diz que não gosta de romantizar essa história, mas que precisa contá-la.
No dia seguinte foi à academia só para sentir o ambiente. O mestre dele nos Estados Unidos avisou que ele ia lutar o Mundial sem kimono, com passagem, hotel e inscrição pagas. O Piter recusou, o mestre insistiu, e ele foi. Chegou à final e, contra o Furão, quase apagou num mata-leão em pé, mas escapou e ganhou no braço.
Campeão mundial e o personagem da internet
No Mundial de kimono seguinte, em Las Vegas, perdeu a final para o Formiga e a do absoluto para Cyborg, por vantagem. Desceu do pódio e fez um contrato consigo mesmo: no ano seguinte seria campeão. Segundo ele, em 2022 ganhou o peso e o absoluto no Mundial.
Na mesma época ele descobriu a internet. Contou que tinha medo de ser filmado lutando, porque travava diante da câmera. Na pandemia, inventou um campeonato virtual de finalizações decidido por votos nos stories e criou o Chicó, um repórter caricato que entrevistava atletas. Os vídeos explodiram. Hoje ele se filma no meio da praia e do shopping de propósito, para treinar a adrenalina que vai sentir diante do público.
Foi com essa cabeça que ele cavou a vaga no BJJ Stars. O organizador dizia que não queria atleta master. O Piter planejou uma luta no Pan-Americano contra Caio Almeida, que tem torcida grande em São Paulo, ganhou na semifinal e usou uma entrevista para pedir o confronto. A luta saiu, e a novela que os dois montaram na internet encheu o evento. Depois veio Celsinho, que ele diz ter convidado por ser fã.
“Eu sou o errado que deu certo.”
Piter Frank, no Pura Connection · 1:10:22
O que ele quer daqui para frente
O Piter jura que é tímido e que, na hora da luta, o palhaço some. Ele usa catimba e provocação para ganhar a cabeça do adversário, mas diz que respeita todo mundo fora do tatame. Tem uma tatuagem do BJJ Stars porque, segundo ele, o evento mudou a vida dele. A próxima luta anunciada era contra Jaime Canuto.
O plano para o futuro é abrir uma academia e ser um exemplo para as crianças que chegarem lá. Depois de tudo que ele contou, fiquei com a ideia de que o jiu-jitsu foi a ferramenta que ele usou para se levantar, e a alegria que ele mostra lutando é de quem sabe do que escapou.
“Primeiramente eu sou o campeão da vida. Depois o jiu-jitsu é minha diversão.”
Piter Frank, no Pura Connection · 1:22:58
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.