Pura Connection · Rafael Carino
Rafael Carino: o faixa-marrom do UFC que venceu 19 anos de drogas
Cria da luta livre e da Nova União, ele conta como Dedé Pederneiras mudou sua vida e por que hoje trata dependentes químicos.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 10 mai 2024 (1:12:50).
Em 1996, Rafael Carino tinha 23 anos, era faixa-marrom de jiu-jitsu e foi chamado para lutar no UFC. Segundo ele, foi o mais jovem do evento e o único sem faixa-preta. Nos 40 dias antes de assinar o contrato, o professor André Pederneiras, o Dedé, dormiu no pé da cama dele para garantir que o aluno não fumasse maconha. Ele ganhou a luta. As drogas, porém, ainda iriam acompanhá-lo por quase uma década.
Assisti à conversa dele no Pura Connection e é daquelas que a gente não esquece. O Carino fala de peito aberto sobre os 19 anos de uso, sobre as brigas da época da rivalidade entre jiu-jitsu e luta livre e sobre o trabalho que faz hoje como terapeuta de dependência química. E fala do Dedé com uma gratidão que emociona.
“Eu vivia dentro de uma prisão com a porta aberta e não conseguia sair.”
Rafael Carino, no Pura Connection · 1:07:10
Expulso da luta livre
O Carino começou na luta livre. Ele conta que treinou dois ou três anos com Eugênio Tadeu, na Urca, e depois foi para a equipe do Hugo Duarte, onde ficou uns dois anos. Foram cinco anos na luta livre, com títulos estadual e brasileiro e uma luta principal contra Pedro Rizzo na Copa Budokan. Segundo ele, em cinco anos quase não houve campeonato que terminasse, porque a pancadaria começava antes.
Pesado e forte, o Carino treinava duro com todo mundo. Ele conta que os faixas-pretas da equipe não gostaram e reclamaram com o Hugo, que acabou expulsando o aluno e pedindo que ele tirasse o adesivo da luta livre da loja de guaraná que tinha em Botafogo. Era a época da guerra entre jiu-jitsu e luta livre, e a loja, segundo ele, recebia gente dos dois lados, policiais e moradores do morro, sem nunca ter uma confusão.
O Carino também lembra que Carlson Gracie quis fazer dele e do Hugo a luta principal de um evento de vale-tudo. Ele aceitou na hora, e o Hugo não. Ele conta que, no auge da briga, chegou a ir à casa do Hugo, mas recuou: com 44 ou 45 anos, entendeu que um professor não pode brigar na rua, porque nenhum pai coloca o filho numa academia assim.
De branca a preta em 3 anos e 11 meses
Expulso, ele recebeu convites de várias equipes. Escolheu o Dedé. Ele conta que chegava contando histórias de briga e de confusão, e o professor ouvia olhando para o nada. Um dia, o Dedé disse para ele pegar aquela energia toda e canalizar para a competição, que ele ajudava. Aquilo, segundo o Carino, caiu dentro dele de forma muito positiva.
Chegou em 1994 e teve de começar de faixa-branca. Ele reconhece que a base da luta livre ajudou, mas a subida foi um foguete: campeão brasileiro de azul no primeiro Brasileiro da CBJJ, convocado para a primeira seleção, campeão do primeiro Pan-Americano, depois campeão de roxa. Em 1996 pegou a marrom, foi para o UFC e depois foi campeão mundial. Da branca à preta foram 3 anos e 11 meses. Ele acha que o recorde até então era do Pé de Pano.
O Carino lembra também a formação da Nova União em 1995, da junção da equipe do Dedé com a do Wendell Alexander. Uma escola era forte em adultos e masters, no Flamengo, a outra em crianças e jovens, na Vila da Penha. Quando o Dedé foi abrir a primeira Nova União nos Estados Unidos, deixou o Carino, ainda marrom, cuidando da equipe por 40 dias. O time foi campeão estadual e ele ganhou o absoluto.
“O jiu-jitsu é o que me deu o meu nome e sobrenome.”
Rafael Carino, no Pura Connection · 1:02:56
Quarenta dias sem maconha antes do UFC
Quando o Dedé ofereceu a luta no UFC, o Carino achou que era brincadeira. Faltavam 40 dias. Como ele não era faixa-preta, precisou da assinatura do técnico, do pai e da mãe. E o Dedé fez uma exigência: antes de assinar, ele faria tudo o que o professor mandasse.
Segundo o Carino, o Dedé passou os 40 dias com ele, dormindo no pé da cama, para acompanhar a abstinência. Cuidou do treino e da alimentação. Ele perdeu 8 quilos, treinava com um balde no tatame até vomitar e diz que o condicionamento subiu de forma incrível. Ganhou a luta.
“Fui o mais jovem naquele evento e o único não faixa-preta a lutar.”
Rafael Carino, no Pura Connection · 0:27:48
Tem um bastidor curioso. Segundo o Carino, no mesmo evento o Amaury Bitetti perdeu para o Don Frye, e a capa de uma revista já estaria fechada com o Amaury campeão. No avião de volta, o Dedé chamou o Marcelo Alonso num canto e argumentou até a capa ir para o Carino, o que abriu muitas portas para ele.
Joelhos, despedida e 19 anos de uso
Depois vieram as lesões. O Carino conta que rompeu o ligamento cruzado, lutou dois anos e meio assim e fez seis operações nos joelhos. Em 2019 se despediu das competições: foi campeão brasileiro master e perdeu na semifinal do Mundial, em Las Vegas, faltando sete segundos, para o Saldanha. Diz que a luta mais dura da vida foi contra o Baraúna, que virou grande amigo.
Foi olhando para trás naquela noite em Vegas que ele agradeceu. Segundo ele, a droga o acompanhou durante toda a carreira, até 2005, quando parou de lutar MMA depois de perder para o Pezão, a única derrota dele na modalidade. A maconha era o carro-chefe, mas ele conta que usou várias outras drogas. E diz que poderia ter sido preso ou morto em brigas de boate.
Na época da gravação, o Carino somava 17 anos, 10 meses e alguns dias sem usar nada. Ele conta que o filho, de 15 anos, nunca viu o pai usar droga, e que o exemplo vale mais que qualquer sermão.
“Essa paz que eu tenho hoje eu buscava sempre na próxima dose e não chegava.”
Rafael Carino, no Pura Connection · 0:55:31
O esporte como tratamento
Hoje o Carino é formado em educação física, fez formação como terapeuta em dependência química e cursa pós-graduação em transtornos aditivos na PUC. A proposta dele é usar a atividade física e a luta como um dos pilares do tratamento, junto com psiquiatra, psicólogo e nutricionista. Ele deu uma palestra sobre o tema na Alerj, e quem abriu foi o Dedé, que chorou lendo o texto. Segundo o Carino, o Dedé é um segundo pai.
O que fica da conversa, para mim, é a responsabilidade de quem está na frente do tatame. O Carino lembra que o aluno ouve o professor às vezes mais do que ouve o pai e a mãe. Ele mesmo, antigamente, fumava com os alunos. Hoje mede cada atitude, porque sabe o peso do exemplo. E deixa um recado para quem está na mesma situação: a doença atinge qualquer um, e o que o salvou foi pedir ajuda.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.