Dos Nossos Podcast · Rafael Cordeiro
Rafael Cordeiro conta como virou treinador de Mike Tyson numa garagem
O mestre da Kings MMA falou ao Werdum da primeira manopla com Tyson, da sunga dividida no primeiro vale-tudo da Chute Boxe e da chegada aos Estados Unidos.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 3 mai 2024 (1:38:30).
O Rafael Cordeiro já segurou manopla para quase todos os seus ídolos, mas contou que a mão só tremeu uma vez: no primeiro treino com Mike Tyson, numa segunda-feira, na garagem da casa do boxeador. Ele falou disso ao vivo, de Las Vegas, no Dos Nossos Podcast, do Fabrício Werdum, que ele chama de amigo e aluno de quase 16 anos.
Assisti à conversa e o que mais me pegou foi o caminho. O mesmo cara que dividiu uma sunga roxa com dois companheiros para lutar vale-tudo em Curitiba, em 1993, hoje prepara o Tyson para uma luta contra Jake Paul. No meio disso tem a Chute Boxe, o Pride e uma academia que começou num tatame onde cabiam quatro pessoas.
A primeira manopla com Tyson
Segundo o Rafael, a ponte foi o Rob, que era sócio do Tyson nos negócios e tinha amizade com o Werdum. O Werdum foi para a Tailândia gravar um filme com o Van Damme e levou o mestre junto. Lá o Rafael ficou mais perto do Rob e trocou algumas palavras com o Tyson. Tempo depois, o Rob ligou dizendo que o Mike queria voltar a treinar.
O Rafael ofereceu luva, saco, equipamento. Numa chamada de vídeo, o Tyson perguntou se ele podia ir dar um treino no dia seguinte. Era domingo. Na segunda ele estava lá.
“Foi a primeira vez que eu fiquei nervoso para segurar uma manopla para alguém.”
Rafael Cordeiro, no Dos Nossos Podcast · 0:21:56
Ele contou que o filho do Tyson nunca tinha visto o pai treinar e assistiu a tudo na garagem. No fim, o Rafael juntou as coisas e foi para o carro sem entrar na casa, para deixar a família com aquele momento. Foi quando ouviu o Tyson chamando, ainda com a bandagem na mão, pedindo para ele voltar no dia seguinte. Isso foi quatro anos antes da entrevista.
Segundo o Rafael, a relação deu certo porque ele nunca impôs nada. Ele propõe, pergunta o que o atleta acha, conversa. Foi assim, disse ele, que fez com o Werdum e com os outros alunos.
A rotina de um campeão aos 57 anos
O Werdum perguntou como é o dia do Tyson, e a resposta impressiona. Segundo o mestre, ele acorda às 4 da manhã, às 5 já está fazendo o cárdio, depois alonga por uma hora e dorme. Ao meio-dia faz o treino de boxe com o Rafael, que dura um pouco mais de uma hora. À noite volta para a academia para condicionamento físico. São três treinos por dia.
“Essa rotina dele é uma rotina de psicopata.”
Rafael Cordeiro, no Dos Nossos Podcast · 0:17:46
O Rafael disse isso como elogio. Na visão dele, o Tyson prefere se ver sempre diante de um perigo iminente a ficar no conforto, e é isso que faz o atleta com cabeça de campeão. Ele contou também que o primeiro vídeo de manopla que o Tyson divulgou passou de 2,5 bilhões de visualizações, e que a parceria apresentou o trabalho dele a um público que nunca tinha ouvido falar de manopla.
Sobre a luta com o Jake Paul, o mestre respeitou o adversário, mas deixou claro o objetivo: acabar rápido e sem o Tyson se machucar. Ele explicou que, com a idade, passou a treinar os atletas para se expor menos.
Uma sunga para três no primeiro vale-tudo
A história que o Werdum pediu para ouvir de novo foi a da sunga. Segundo o Rafael, o primeiro vale-tudo da turma da Chute Boxe foi em Curitiba, em 1993, com ele, o Pelé e o Nilsão. Eles tinham visto os vídeos dos cariocas lutando de sunga, mas em Curitiba ninguém usava sunga. Um parceiro da academia, dono de uma marca na cidade, ia fazer as peças, mas só tinha uma amostra: uma sunga roxa, que o Rafael descreveu como horrível.
O Pelé lutou primeiro com ela e venceu por nocaute. Depois foi a vez do Rafael, e depois a do Nilsão. Por baixo, cada um usava uma cueca, e entre uma luta e outra dava tempo de lavar. Segundo ele, os três venceram.
“A gente dividiu uma sunga os três, para dizer que não tinha frescura.”
Rafael Cordeiro, no Dos Nossos Podcast · 0:41:08
O Rafael contou que aquele evento aconteceu porque pessoas da capoeira tinham sido covardes com o Pelé, e a questão foi resolvida em cima do ringue. Ele também lembrou da rivalidade com a academia Muay Thai, do mestre Rubens: disse que o mestre dele brigou com o mestre de lá, e que ele mesmo brigou duas vezes na rua com o Edney, da geração dele, cada um defendendo sua equipe. Hoje, segundo ele, são amigos, e ele chegou a homenagear o Edney num evento em Curitiba.
Da Chute Boxe à Kings MMA
O Rafael chegou aos Estados Unidos em março de 2008. Segundo ele, havia um plano de abrir uma Chute Boxe por lá, mas o sócio desistiu no meio do caminho. Um ano depois ele montou a Kings MMA, que descreveu como um braço da Chute Boxe. O primeiro espaço cabia ele e mais quatro ou cinco pessoas; depois veio uma sala para uns 15; hoje, segundo ele, é uma das maiores academias de Huntington Beach, com franquias.
Ele lembrou que o Werdum, antes de se mudar, viajava toda semana de Porto Alegre a Curitiba para treinar, durante quase todo o ano de 2007. Em 2008, contou o Rafael, deu uma entrevista ao Marcelo Alonso dizendo que um dia queria ser indicado a treinador do ano. Depois disso, segundo ele, foi eleito duas vezes.
Sobre o Pride, o mestre acha que a grande diferença para hoje é a rede social. Naquela época, disse, era preciso provar na porrada quem era melhor. Ele contou que a Chute Boxe foi a academia com mais vitórias no evento, e o Werdum emendou que a regra do Pride era deles. Mesmo assim, o Rafael acha hoje perigosos o pisão e o chute na cabeça do adversário no chão, pelo dano que deixam na carreira do lutador.
O Werdum, o Poatan e o cuidado com a cabeça
Perguntado sobre qual lutador novo venceria o Werdum no auge, o Rafael não hesitou: para ele, o aluno é o melhor peso-pesado da história, campeão no jiu-jitsu, no ADCC e no UFC.
“Tá para nascer um cara que seja campeão em três modalidades diferentes.”
Rafael Cordeiro, no Dos Nossos Podcast · 1:12:27
Sobre o Alex Pereira, ele elogiou o kickboxing, mas disse que hoje o Jon Jones seria favorito se os dois se enfrentassem, pelo peso e pelo wrestling. Na visão dele, o Poatan precisa antes de algumas lutas contra pesados que o levem para o chão.
Também falou do Ben, atleta da Kings. Segundo o Rafael, no ano anterior ele levou cinco pancadas fortes na cabeça: três nocautes em treino e as derrotas para o Charles e para o Arman. Por isso o mestre pediu que ele desse um tempo. Terminei o episódio com a impressão de que o Rafael de hoje pensa tanto em preservar o atleta quanto em ganhar a luta.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.