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Pura Connection · Ralph Gracie

Ralph Gracie deixa os EUA após 30 anos e conta o que o jiu-jitsu ensina

De volta à Barra da Tijuca, o faixa-coral fala de tempo, fé, alunos que não podiam pagar e do veterano de guerra que achou no tatame um motivo para viver.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 20 set 2026 (2:14:07).

Ralph Gracie passou 30 anos nos Estados Unidos, construiu casa, academias e três filhos americanos por lá, e resolveu voltar para a Barra da Tijuca. O motivo, segundo ele, é simples: o tempo acaba. Aos 55 anos, com um filho de quase 2 e uma filha de 4 para 5, ele diz que recomeçou tudo para estar perto da mãe, da família e da praia onde cresceu.

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que ficou foi um Ralph bem diferente daquela imagem de brigão que muita gente guarda. Ele fala de fé, de honra, de aluno que não tinha dinheiro para pagar a mensalidade e de um militar que, segundo ele, encontrou no tatame a mesma camaradagem que tinha na guerra. E fecha com uma frase que resume a entrevista inteira.

“Eu tenho poder de fazer coisas ruins, mas escolho fazer o bem.”

Ralph Gracie, no Pura Connection · 0:47:18

Por que voltar para a Barra

O Ralph contou que foi embora para os Estados Unidos com 23 anos e que está na Barra desde 1978, do tempo em que a rua era de terra e ele andava descalço pela praia. Ele diz que agradece tudo o que a América deu a ele, mas que não queria os filhos crescendo lá. Sente falta da espontaneidade do Rio, de sair de casa com a mochila no carro sem saber a que horas volta porque encontrou um amigo e foi pegar onda.

Segundo ele, a decisão exigiu coragem, porque largar o conforto assusta. A esposa, contou, tem medo da violência e às vezes quer voltar. Ele não. Diz que não anda armado, que não cresceu para ter medo e que quer uma Barra como a de antigamente. Na conversa ele também fala de política e de uma campanha que está fazendo, sempre com o mesmo argumento: alguém precisa acreditar que dá para mudar.

A infância explica muito do jeito dele. O Ralph lembrou da casa de oito quartos no Quebra-Mar, onde a mãe e a tia criavam dez crianças juntas e onde, pelas contas dele, chegaram a morar 25 pessoas. Tinha noite com 15 dormindo no quarto dele, que era o único com ar-condicionado além do da tia. Um amigo foi passar uma semana e ficou 15 anos. Nos Estados Unidos, segundo ele, a casa também não tinha tranca.

Cada faixa, uma fase da vida

A parte que mais me pegou como professor foi quando ele explicou como enxerga a graduação.

“Eu acredito que a vida, o jiu-jitsu replica a vida.”

Ralph Gracie, no Pura Connection · 0:08:55

Na leitura do Ralph, o aluno chega sem saber nada e muitas vezes arrogante. Na faixa azul a arrogância às vezes até cresce. Na roxa ele já aprende a tratar bem os mais novos, na marrom vem uma certa paz e na preta a noção das coisas. O faixa-preta de verdade, diz ele, leva tudo isso para a vida fora do tatame. Ele contou que tudo o que sabe de amor, carinho e proteção dos amigos veio do tatame, e brincou com a própria graduação.

“Hoje em dia eu sou faixa-coral, irmão. E acredito estar virando coral na vida.”

Ralph Gracie, no Pura Connection · 0:10:31

Ele também separa dois tipos de faixa-preta: o que tem convicção e o que tem dúvida. Para ilustrar, contou que o irmão, Renzo Gracie, um dia viu alguém quebrar um taco de beisebol com um chute, disse que também ia quebrar e quebrou, sem nunca ter treinado chute. Segundo o Ralph, a única diferença entre as pessoas é conhecimento e convicção. O jiu-jitsu, diz ele, é herança do pai, e essa ninguém tira.

O veterano de guerra que achou uma família no tatame

A história mais forte da entrevista é a de um militar que foi várias vezes à guerra, inclusive no Afeganistão. Segundo o Ralph, quando ele se aposentou, voltou com trauma, estava tomando remédio, se divorciando e pensando em se matar. Na guerra, a vida dele dependia do parceiro e vice-versa. Em casa, ninguém mais estava por ele. Aí ele foi treinar na academia do Ralph e depois mandou uma carta.

“Foi o único lugar em que eu senti o mesmo tipo de camaradagem da guerra.”

Ralph Gracie, no Pura Connection · 0:58:53

Na carta, contou o Ralph, o militar disse que a academia salvou a vida dele e deu um novo propósito, mesmo que hoje ele não consiga mais treinar tanto. Para o Ralph, isso mostra por que o jiu-jitsu junta mais gente do que outras lutas: no boxe você precisa bater na cara do outro, e no jiu-jitsu você pega o braço, segura, aperta devagar, o outro bate e vocês começam de novo.

Aluno sem dinheiro e crianças na Mongólia

O Ralph contou que tinha um aluno encanador nos Estados Unidos que passou por uma fase ruim e quis cancelar a matrícula. Ele não deixou: mandou continuar treinando e pagar só quando voltasse a ganhar. Foram oito meses sem pagar. Quando o aluno arrumou emprego, o Ralph perdoou o atrasado. Depois, segundo ele, o mesmo aluno ficou uns oito meses pagando sem ir, porque não quis cancelar.

“Nunca mandei um cara embora porque não tinha dinheiro. Mandei vários porque era mau-caráter.”

Ralph Gracie, no Pura Connection · 1:20:53

Ele também falou de um projeto na Mongólia com 150 crianças treinando de graça, bancado pela academia dele. Segundo o Ralph, tem criança que pega duas horas de ônibus para ir e duas para voltar, e o projeto precisa de 50 mil por ano. Quando o responsável ligou dizendo que o dinheiro tinha acabado, ele mandou acionar todas as academias para doar.

Humildade para aprender com qualquer um

Na parte do tatame, o Ralph se descreve como alguém que sempre foi melhor professor do que lutador, e conta que aprende com qualquer pessoa. Um aluno de uns 70 e poucos anos, o Old Mike, mostrou a ele uma pegada a partir do norte-sul e comentou que os outros não davam valor às dicas dele por causa da idade. Para o Ralph, isso é um erro: pérola pode vir de faixa-branca.

“Eu sempre fui melhor professor do que lutador, da minha percepção.”

Ralph Gracie, no Pura Connection · 1:30:53

Ele mostrou também um jeito de analisar o próprio treino. Se o parceiro reclama de dor numa passagem de guarda, o Ralph volta depois e tenta fazer aquilo doer de propósito, com consciência, até virar técnica. Contou ainda que trouxe para o Brasil, por volta do ano 2000, uma posição contra a De La Riva que nunca tinha visto por aqui, e que hoje faz de outro jeito porque perdeu flexibilidade. E lembrou que é da época em que valia bate-estaca, por isso nunca deixava o adversário levantá-lo pela guarda sem já botar a mão no chão.

No fim, o que fica é um Gracie de 55 anos que diz representar quem já se foi, os filhos e o nome da família, e que não pretende sujar esse nome agora. Concordando ou não com as ideias dele sobre política e fé, dá para entender por que ele fala do tatame como o lugar onde aprendeu tudo.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.