Pura Connection · Roberto Monteiro
Roberto Monteiro, CEO da Prio, conta como o jiu-jitsu o reergueu após a OGX
Ele começou a treinar aos 36 anos por ordem médica, virou faixa-preta e levou o tatame para dentro da empresa.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 16 mar 2026 (1:20:51).
Roberto Monteiro tinha 35 para 36 anos quando um exame de rotina da empresa virou susto. O médico mandou descer da esteira e procurar um cardiologista: pressão alta, sobrepeso e mais uma lista de problemas. Hoje ele é CEO da Prio, faixa-preta de jiu-jitsu, tem 52 anos e diz sem rodeio que a vida dele se divide em antes e depois do tatame.
“A minha vida é diferente antes do jiu-jitsu e depois do jiu-jitsu.”
Roberto Monteiro, no Pura Connection · 0:03:10
Assisti à conversa dele com o André no Pura Connection e o que mais me pegou foi como ele usa o jiu-jitsu para explicar tudo: a queda pública depois da OGX, a reconstrução, o jeito de montar a empresa e até o que quer fazer com o resto da vida.
Um médico, um livro e a Alliance do Leblon
Segundo o Roberto, o médico deu duas opções: tomar remédio para pressão e colesterol, como faz a maioria, ou fazer esporte de verdade, sem nada pela metade. Por coincidência, ele estava lendo o livro sobre o mestre Carlos Gracie escrito pela mãe do Roger Gracie, a Reila Gracie. Ele contou que não conhecia a história da família Gracie, porque cresceu no interior de São Paulo e depois morou nos Estados Unidos. Foi pelo livro que se apaixonou.
Na mesma época ele se mudou de Curitiba para o Rio. Gostava de surfar, mas surf não dá para fazer todo dia. Então foi treinar na Alliance do Leblon, onde conheceu o Gigi, que ele chama de mestre. No começo era só atividade física. Ele se define como muito competitivo e, nos dois primeiros anos, entrava em campeonato. Contou que foi ao primeiro Mundial Master ainda faixa-azul.
Com o tempo, percebeu outra mudança. O jiu-jitsu levantou a autoestima dele, e isso mudou o jeito como reage ao estresse no trabalho. Alguém fala duro, ele segue tranquilo, respirando devagar. Ele ainda brincou com o perigo do faixa-azul: a pessoa entende uma parte do sistema e, de uma hora para outra, se sente o super-homem.
A queda da OGX e a tribo que ficou
A parte mais forte da entrevista é a de 2013 e 2014. O Roberto contou que chegou ao Rio em 2010 para trabalhar com Eike Batista nas empresas do grupo EBX e que foi a pessoa encarregada de desatar os problemas da OGX, a empresa de óleo que ruiu. Saiu em 2013 brigado, porque, nas palavras dele, só levava notícia ruim.
Ele chama esses dois anos de anos da derrota. Muita gente que ele julgava amiga parou de atender o telefone. Quem ficou do lado, segundo ele, foi a turma do jiu-jitsu, e ele citou o professor Rodrigo Thiago como um irmão que escolheu para a vida.
“A derrota te aproxima da vitória.”
Roberto Monteiro, no Pura Connection · 0:20:16
Para explicar como se levantou, ele usou uma imagem do Fábio Gurgel, outro professor que conheceu no caminho. Quando você está embaixo de alguém de 100 quilos tomando um amasso, não enxerga todos os passos até repor a guarda e raspar. Mas consegue virar um pouquinho de lado, e aquilo já melhora. Depois mais um pouquinho. Para o Roberto, isso é resiliência.
“Tem hora que você tá por baixo, tomando um sufoco, mas, cara, não vou bater.”
Roberto Monteiro, no Pura Connection · 0:42:31
Ele disse que caiu e o prédio caiu em cima dele. A saída foi confiar no que já tinha treinado e seguir andando devagar na mesma direção, sem inventar nada mirabolante.
O tatame dentro da Prio
Depois veio a criação da Prio, com os investidores Nelson pai e Nelson filho. Desde 2015, segundo o Roberto, a empresa trabalha para criar uma cultura de tribo: gente de formação muito diferente, engenheiro de reservatório ao lado de alguém da comunicação, unida por objetivo e valores comuns. Ele disse que tirou essa ideia do que viveu com os amigos do tatame.
O jiu-jitsu entrou no escritório quase por acaso. Na pandemia, em 2020, ele parou de treinar. Em julho, o Nelson e o diretor Emiliano disseram que não aguentavam mais o mau humor dele, montaram um tatame pequeno num andar da empresa e chamaram o Rodrigo Thiago sem avisar. Um dia levaram o Roberto para ver uma coisa lá em cima, e o professor estava de quimono no tatame. Os dois treinaram juntos todo dia até janeiro.
Os funcionários viram e quiseram treinar também. Hoje, pelas contas dele, umas 80 das 400 pessoas que trabalham no escritório de Botafogo fazem jiu-jitsu, uma ou duas vezes por semana, sem clima de competição. O cara da comunicação vira amigo da engenheira de reservatório.
O modelo de pagamento segue a mesma lógica: salário fixo abaixo do mercado e um variável alto. Ele contou que 90% do time funciona como sócio.
“Eu não quero um executivo, eu quero um sócio, eu quero o cara que tá ali junto na trincheira.”
Roberto Monteiro, no Pura Connection · 0:48:52
Em 2024, segundo ele, o time relaxou depois de anos batendo meta, o ano foi ruim e ninguém recebeu bônus. A empresa se reestruturou e voltou bem em 2025. Ele compara com o lutador que só ganha e acaba na primeira derrota. No jiu-jitsu, lembra, a gente perde todo dia no treino, até para um garoto de 15 anos faixa-verde.
Contratar pela cultura, com o Reação
Outra ponte com as artes marciais é o Flávio Canto e o Instituto Reação. O Roberto contou que a Prio passou a patrocinar o projeto quando começou a dar lucro. Quando a empresa comprou da Petrobras um campo de petróleo que veio sem funcionários, precisou contratar mais de 200 pessoas. A ideia foi fazer primeiro uma seleção cultural com a equipe do Flávio e só depois a avaliação técnica. Ele disse que contrataram umas 80 pessoas assim, muitas vindas de comunidades, num programa que batizaram de Reação Offshore.
Ele também repetiu uma frase do Maurício Gomes, pai do Roger Gracie, para explicar por que o tatame ajuda a ler gente.
“Você tá de quimono ali, não tem cheque, não tem capa, não tem relógio. É a pessoa como ela é.”
Roberto Monteiro, no Pura Connection · 0:35:42
A Alliance do Rio e a garotada do Cantagalo
Depois da pandemia, segundo o Roberto, o Gigi foi para os Estados Unidos, onde já montou três academias, e a Alliance do Rio ficou para trás. O Roberto entrou como investidor e, com a ajuda de um amigo, convenceu o Rodrigo Thiago a assumir, mesmo com ele dizendo que não ia tocar academia de jeito nenhum. Hoje a turma das 7 da manhã é a mais forte, com a galera mais velha misturada aos meninos do Cantagalo.
O Rodrigo Thiago passou a abrir espaço para jovens atletas. Primeiro o Felipinho, que chegou faixa-roxa, tímido, e virou professor de aula particular. Depois vieram Harrison, Cleon, Leozinho e o Renezinho, de 15 anos. Segundo o Roberto, o professor ensina postura, quimono limpo e como tratar as pessoas. A Prio também contribui com o Instituto Alliance, que o Gigi criou e o Fábio Gurgel toca hoje.
O Roberto admira o modelo americano, mas acha que o Brasil precisa dar condição para o atleta viver aqui. E vê nesses garotos uma ginga muito brasileira: o Renezinho fica pulando em volta, dá umas cambalhotas e, quando você percebe, está nas suas costas.
O que fica da conversa
No fim, o Roberto disse que o futuro dele passa por inclusão social e por devolver à sociedade o que recebeu. Numa época de inteligência artificial, que a Prio já usa, ele insiste que o centro tem que continuar sendo gente, e volta à ideia do Maurício: embaixo do quimono, todo mundo é igual.
O que eu levo dessa entrevista é simples. Ele nunca foi atleta, começou tarde e chegou à faixa-preta. O tatame virou o lugar onde aprendeu a perder, e é isso que ele tenta levar para uma empresa inteira.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.