Pura Connection · Rômulo Arantes Neto
Rômulo Arantes conta como o jiu-jitsu o salvou do bullying e do luto
O ator perdeu o pai aos 13 anos, apanhava na escola e encontrou no tatame a confiança que faltava.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 20 abr 2026 (1:05:19).
Rômulo Arantes Neto perdeu o pai aos 13 anos. Na mesma época, era o menino magrinho de franjinha que virava alvo no colégio. No Pura Connection, o ator contou ao André que duas coisas seguraram ele naquela fase: o esporte e a conexão com a natureza. E, dentro do esporte, foi o jiu-jitsu que deu a ele a confiança que faltava.
Assisti à conversa inteira e o que mais me chamou atenção foi o jeito como ele fala do tatame. Quase não aparece campeonato na história dele. O que ele conta gira em torno de autoestima, de ego e de um gosto curioso: o de apanhar no treino. Como professor, é o tipo de relato que eu ouço muito de aluno e pouco de gente conhecida.
Aos 13 anos, sem o pai
Segundo o Rômulo, o pai era a fortaleza dele. Era separado da mãe, e foi quem colocou o filho nos esportes, começando pela natação. Ele diz que foi um bom atleta nas piscinas e que competiu bem enquanto nadou. Quando o pai morreu, ele ficou sem a pessoa que dava limites e que, nas palavras dele, o centrava de alguma forma.
“Eu tinha 13 anos de idade. Eu não tinha ferramentas, eu não tinha muita maturidade.”
Rômulo Arantes Neto, no Pura Connection · 0:19:22
Ele contou que o caminho, no começo, foi sofrer. Sofreu até chegar no fundo do poço e decidir que precisava sair dali. Para o Rômulo, trauma tem dois destinos possíveis: ou destrói a pessoa pelo resto da vida ou vira combustível para ela ser alguém melhor do que seria sem ele. O que evitou o primeiro caminho, segundo ele, foi a base que o pai tinha deixado: o esporte e o contato com a natureza. Ele disse ter certeza absoluta de que foi isso que o segurou de ir por caminhos muito tristes.
Ele também contou que aprendeu muito na base da dor. Errava, se machucava e, de tanto se machucar, foi aprendendo a errar menos. Hoje diz que o desafio é segurar o ímpeto e agir por consciência, e não por impulso.
O menino de franjinha que sofria bullying
O Rômulo se descreveu criança sem rodeio: um menino bonitinho, de cabelo liso e franjinha, delicado, nem alto nem grande, magrinho. Ele disse que sofreu bastante bullying no colégio. Entrou na escola nos anos 1990 e lembra que havia uma cultura forte de briga, sempre com aquele garoto que se achava o rei da selva e partia para cima.
“O jiu-jitsu aumentou minha autoestima. Eu aprendi a me proteger.”
Rômulo Arantes Neto, no Pura Connection · 0:23:29
Ele contou que, infelizmente, precisou se defender em vários momentos, porque foi colocado nesse cenário de violência. Mas faz questão de dizer que o maior ganho veio de dentro. Saber que tem uma potência física de ataque e de defesa, segundo ele, traz uma segurança enorme, no corpo e na cabeça. O André completou lembrando que essa confiança serve também para proteger um amigo, a família, o filho.
Quando falou de movimento, o Rômulo citou balé, capoeira, natação e escalada. O jiu-jitsu ele colocou numa prateleira separada, a do samurai, ligada à história do ser humano de se defender e de atacar para se proteger. Para a formação dele, disse, isso foi muito importante.
Gostar de lutar, fugir da briga
Aqui entra a parte da conversa que eu mais gostaria que meus alunos ouvissem. O Rômulo chamou confusão de rua de roubada gigantesca e de energia muito negativa. Disse que a regra é correr da briga e dizer não à violência em primeiro lugar.
“Eu gosto de lutar, eu não gosto de brigar. Eu amo lutar.”
Rômulo Arantes Neto, no Pura Connection · 0:25:02
O André puxou o assunto para o lado filosófico. Para ele, a luta é algo primal do ser humano, mas também um jeito de entender valores como respeito e humildade. O Rômulo concordou e resumiu assim: quem luta aprende que sempre vai ter alguém melhor e mais forte, e por isso começa a respeitar tudo. Segundo ele, isso só se aprende vivendo, e quem chegou à faixa-preta passou por esse processo de lidar com o próprio ego.
Apanhar no treino para domar o ego
O Rômulo se define como ariano de ego aflorado. Ele contou que um dos maiores desafios dele é domesticar esses egos, deixar claro que eles são úteis para a sobrevivência, mas que não mandam. E o treino de jiu-jitsu virou o lugar onde ele pratica isso.
“Eu adoro chegar na academia e tomar um amasso de um cara mais técnico, que está treinando mais, que está competindo. Me faz bem.”
Rômulo Arantes Neto, no Pura Connection · 0:28:15
Segundo ele, a turma do treino até tira sarro de quanto ele gosta de um conferê e de apanhar. A explicação dele é que o desconforto é onde a gente cresce, e o conforto costuma ser o lugar do ego. Ele disse que, na época, nem percebia o que estava acontecendo, mas estava sendo treinado na alma, porque no treino você vê o outro como um espelho e começa a enxergar em você aquilo que aponta no colega.
Ele fechou esse trecho com um conselho simples: não se levar tão a sério, conseguir rir de si mesmo e viver com leveza.
Do tatame para a TV e os negócios
Antes da carreira de modelo e de ator, a vida do Rômulo era esporte. Ele contou que era atleta de surfe, de natação e de jiu-jitsu e que a moda apareceu como algo completamente estranho. Levou para esse mundo a disciplina de atleta e, de lá, veio a atuação. O pai dele, segundo ele, tinha feito o mesmo caminho: primeiro atleta, depois ator.
Hoje ele se apresenta também como empresário. Tem uma marca de óculos e contou que é sócio de um hotel na serra, voltado para bem-estar, onde quer colocar jiu-jitsu. Chegou a falar em retiro de yoga com jiu-jitsu, formato que o André já faz em Ubatuba.
No fim, o Rômulo explicou por que aceitou o convite. Disse que sempre olhou o André com respeito por causa do jiu-jitsu e da relação dele com a arte marcial.
“Foi com certeza o jiu-jitsu que possibilitou isso aqui.”
Rômulo Arantes Neto, no Pura Connection · 0:57:38
O que fica da conversa
Em um momento, o André lembrou da entrevista que fez com o Rickson Gracie. Segundo o André, o Rickson falou da morte do filho e contou que, mesmo no fundo da dor, voltou a uma mensagem do pai: sempre existe algo bom, mesmo quando tudo está ruim. A lembrança caiu bem na conversa com alguém que perdeu o pai tão cedo.
O André também defendeu que o jiu-jitsu ganhou o mundo carregando os traços culturais do Rio, a mesma mistura que, nas palavras dele, transformou o açaí no que ele é hoje. O Rômulo acrescentou que cabe a quem vive isso exportar o lado bom junto.
Saí da entrevista pensando no menino de franjinha. O Rômulo encontrou no tatame um lugar para ficar forte, aprender a respeitar e a apanhar sem se perder, sem nunca falar em medalha. Para muita gente que chega na academia com uma história parecida, esse já é o maior título.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.