Pura Connection · Servio Túlio
Servio Túlio explica por que se aposentou do jiu-jitsu aos 31 anos
O faixa-preta da Gracie Barra BH fala da derrota para Mica Galvão, do vídeo que viralizou, do assalto em casa e do que quer fazer longe das competições.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 3 nov 2025 (1:28:43).
Servio Túlio parou de competir aos 31 anos, uma idade em que muito atleta ainda está no auge. Segundo ele, a decisão foi dele. Depois de anos viajando toda semana para lutar, ele diz que quer trabalhar mais, formar família e ajudar outros atletas a chegar mais longe do que ele chegou. Ela foi pensada com calma, contou, ao longo de uns dois anos de despedida.
Assisti à conversa do Servio no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi a sinceridade com que ele olha para a própria carreira. Ele se define como um guerreiro que demorou para virar técnico, conta sem drama a derrota para Mica Galvão e explica por que um vídeo dele empurrando um parceiro de treino contra a parede teve milhões de visualizações.
Duro antes de ser bom
O Servio é faixa-preta da Gracie Barra BH, aluno de Rominho, com dois graus. Ele contou que começou a treinar com 15 anos, quase 16, e que foi abraçado pela turma mais velha da academia. Foi campeão brasileiro na faixa-azul e ganhou torneios rápido, mas diz que naquela época ganhava na vontade, como um cara que não desiste nunca. Segundo ele, começou a ficar bom de verdade a partir da faixa-marrom.
Essa diferença entre ser duro e ser técnico virou uma regra para a vida dele. Ele conta que só entendeu isso de verdade no surf, tentando ficar de pé numa prancha depois de quase quebrar o pé num campeonato. Sem poder se apoiar, aprendeu a remar, a se equilibrar sentado e percebeu que aquilo era técnica. Quem levou o Servio para surfar, aliás, foi Fábio Gurgel. Ele brinca que o Fábio, de outra equipe, não pode ser o sensei dele no jiu-jitsu, mas é no surf.
“Beleza, guerreiro eu já sou.”
Servio Túlio, no Pura Connection · 0:10:51
Vendendo kimono para pagar a carreira
O pai do Servio cresceu na vida pelos estudos e, segundo ele, não sabia se devia incentivar o filho a largar tudo pelo jiu-jitsu. Pagava a faculdade, mas não as viagens para lutar. O Servio contou que resolveu do jeito dele: pegava kimonos com o Rominho, que tinha patrocínio, vendia pelo dobro e acertava a parte do professor meses depois. Chegou a voltar dos Estados Unidos com 25 kimonos na mala.
Ele entrou na faculdade de engenharia aos 18 e fez as contas: se formaria e pegaria a faixa-preta aos 24. Quando se deu conta, contou, já era faixa-marrom rodando o mundo, dava seminários no lugar do Rominho e do Preguiça e só estava no quinto período. Foi campeão mundial na faixa-marrom e pegou a preta logo depois. Hoje, diz ele, o pai é o fã número um do jiu-jitsu e cobra o filho que ainda não pegou a faixa-preta.
Mica Galvão, Dante Leon e a máquina de lavar
O Servio descreve o próprio jogo como uma máquina de lavar: quanto mais bagunçada a luta, melhor para ele. Ele contou que Mica foi um dos poucos que o venceram justamente nessa bagunça. Na final do Brasileiro, disse, estava ganhando de 2 a 0 antes de perder. Quando as pessoas lembraram que o Mica treina desde os 3 anos e ele fazia mil coisas, a resposta dele foi que cada um tem suas vantagens, e que o Mica foi campeão e pronto.
“Eu não sou esse cara da desculpa.”
Servio Túlio, no Pura Connection · 1:03:17
Ele contou também de uma derrota antiga, no Pan-Americano, aos 17 anos e faixa-azul, para Dante Leon. Na época reclamou nas redes que o adversário só tinha amarrado a luta na fifty-fifty. Anos depois, tentando amarrar lutas ele mesmo, percebeu que não conseguia e que aquilo era uma estratégia dentro da regra. Das grandes metas, contou, ficaram faltando duas: ser campeão mundial na faixa-preta e ganhar o ADCC. Na seletiva, perdeu nas quartas de final para Isaque Bahiense, depois de se machucar treinando na semana do campeonato.
Sobre os adversários mais duros, ele citou Wagner Rocha como o cara com mais gás com quem já treinou e disse que Cyborg e Buchecha são gigantes bonzinhos.
O vídeo viral e o assalto em casa
O Servio explicou o vídeo que passou de 10 milhões de visualizações. Ele treinava com o Arturzinho, amigo que conhece desde os 15 anos, num rola muito pegado. Deu uma queda mais forte do que precisava, levou um chute na canela e prensou o parceiro na parede. Os professores separaram, os dois voltaram a treinar no mesmo round e, duas semanas depois, estava tudo resolvido. Para ele, quem comentou sem nunca ter treinado duro não entende que o sangue ferve.
Ele também contou um episódio de fora do tatame. Ainda faixa-marrom, foi abordado por um homem armado na porta de casa e levado para dentro. Segundo o Servio, com a arma nas costas e medo de levar um tiro na coluna, ele virou o cano para a parede, o tiro pegou no rodapé, a arma travou e ele tomou a arma do assaltante, que foi imobilizado com a ajuda do irmão e de um amigo. Mesmo assim, ele diz que prefere ser um cara tranquilo e que nunca brigou na rua por causa dele.
O que vem depois das competições
O Servio contou que o conselho do Rominho para quem se aposenta é parar de treinar com a equipe de competição, para não se enganar achando que ainda está no mesmo nível. Ele contou que o Rominho se espelha no mestre Carlinhos, que perto dos 70 anos ainda treina duro com faixas-pretas de 30. E lembrou que o Draculino, mestre do Rominho, o comparou a Renzo Gracie pela vontade de ajudar todo mundo.
Hoje ele dá aula particular de manhã, das 6 às 9, trabalha com o pai, cursa a segunda faculdade e planeja abrir um estúdio em Belo Horizonte. Faz dez treinos por semana, mas agora misturados com corrida, tênis, futebol e surf. E ainda tem uma vontade: fazer uma luta de MMA. Segundo ele, é da escola do Draculino, e lá se fala que faixa-preta de verdade precisa ter feito uma.
“Meu background é o jiu-jitsu, e eu uso ele para tudo.”
Servio Túlio, no Pura Connection · 1:26:58
O que fica da conversa é um atleta que parou cedo sem parecer frustrado. Ele diz que nunca perdeu um campeonato por falta de dedicação e que, se errou, foi por treinar sem método. Agora quer usar o que aprendeu para fazer outros serem campeões.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.