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Pura Connection · Wagner Mota, Flávio Álvaro

Técnico da Fighting Nerds revela como tratou o medo de Demian Maia no UFC

Wagner Mota e Flávio Álvaro contam a parte da luta que ninguém vê: medo, vergonha, código de conduta e uma final de vale-tudo com a mão quebrada.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 6 set 2026 (1:02:29).

Depois de uma derrota no UFC, Demian Maia ouviu uma pergunta simples do amigo que puxava o treino de jiu-jitsu dele: por que você não entrou nas pernas do adversário? A resposta veio sem rodeio. O Demian tinha medo de ser pego na guilhotina. E o medo tinha um motivo que diz muito sobre ele: ele se via como representante do jiu-jitsu, e cair numa guilhotina seria uma vergonha.

“Eu tive medo, pois eu represento o jiu-jitsu.”

Demian Maia, no Pura Connection · 0:10:47

Quem conta essa história é Wagner Mota, hoje um dos treinadores da Fighting Nerds. Ele foi ao Pura Connection ao lado de Flávio Álvaro, ex-lutador com 71 lutas de MMA e vale-tudo, para falar do assunto que menos aparece nas transmissões: a cabeça do lutador. Assisti à conversa e saí com a sensação de que a parte técnica, que a gente adora discutir, é só metade do trabalho.

A guilhotina que virou treino

O Wagner contou que conheceu o Demian dos treinos de jiu-jitsu na TT, onde ele puxava o treino de gente como André Galvão e Cobrinha. O Demian vinha de uma derrota, estava se preparando para lutar com Nate Marquardt e fez o convite: queria o Wagner como treinador de jiu-jitsu. O Wagner diz que nem sabia o que fazer no MMA. Os dois foram aos Estados Unidos conhecer centros de wrestling e de MMA, e passaram também pela academia do Dedé Pederneiras.

Quando o Demian abriu o jogo sobre a guilhotina, o Wagner tomou uma decisão direta. A partir do dia seguinte, o Demian ia levar guilhotina no treino até os dois entenderem como lidar com ela dentro do tempo de um round. Para o Wagner, esse é o centro do trabalho dele: o medo mostra o que o lutador precisa treinar. A maioria, segundo ele, tem medo de cansar. Outros têm um medo técnico específico.

“O medo está falando para você o que fazer.”

Wagner Mota, no Pura Connection · 0:13:23

Foi daí que ele foi estudar o lado emocional. O Wagner contou que passou por várias dinâmicas em instituições que trabalhavam emoções, ouviu falar de programação neurolinguística e foi aprender. Acabou virando professor do assunto e depois estudou hipnose e constelação familiar. Com o Demian, disse que aplicava tudo de forma sutil, sem chegar dizendo que tinha a resposta certa.

Meia-guarda e grade: o jogo pensado para o MMA

Na parte técnica, o Wagner explicou duas escolhas que marcaram o Demian. A primeira foi a meia-guarda. Segundo ele, a guarda fechada já foi solução no começo do MMA e deixou de ser. A meia-guarda seria a única que tira força do ground and pound, porque o adversário só consegue bater com um braço. Os dois trabalharam essa posição por 12 anos, e o Wagner cita um número: em 23 lutas, o Demian tomou dois socos no chão e sete em pé.

A segunda foi a grade. O Wagner lembra que no centro do octógono há campeões de todas as lutas, e por isso eles decidiram lutar encostados na grade. A leitura dele é de jiu-jitsu puro: o adversário preso na grade está com as costas nela e as pernas ocupadas em ficar de pé. Pegar as costas e passar a guarda fica mais fácil. Por isso, diz ele, o time se define como pegador de costas e passador de guarda.

Ele também contou que o caminho até o cinturão foi longo. Segundo o Wagner, o Demian teve cinco vitórias seguidas sem chance de disputar título, perdeu, emendou seis vitórias, perdeu de novo e só depois de sete vitórias seguidas chegou à disputa. Ele atribui parte disso ao que o UFC quer ver. O Pablo, da Fighting Nerds, costuma dizer que para a organização o grappler vale uma nota de 10 e o striker, uma de 50.

Anderson Silva, a melhor derrota

O apresentador lembrou a luta do Demian com Anderson Silva, aquela que incomodou muita gente pela postura do Anderson dentro do octógono. O Wagner contou que o Anderson era ídolo dos dois e deixou de ser ali, mas continuou sendo um modelo de referência. Para ele, foi a melhor derrota que o Demian teve, porque ele manteve a conduta.

“Eu protejo uma mensagem, e você está ferindo tudo que eu entendo como artista marcial.”

Wagner Mota, no Pura Connection · 0:35:31

Com o tempo, o Wagner mudou o julgamento. Hoje ele vê o Anderson como o primeiro modelo do show que o UFC queria, com o McGregor depois como o maior exemplo disso. A frase dele sobre isso é boa: o UFC não quer o que ele gostaria que o UFC quisesse. Ele ainda contou um detalhe daquela noite. O Demian levou uma pancada no nariz, assoou no intervalo sem saber que não podia e o olho inchou.

Caio Borralho e o menino que tinha medo de brigar

O outro atleta citado o tempo todo é Caio Borralho. O Wagner disse que, com o Caio, podia falar abertamente das ferramentas que usava. Numa dessas conversas, o Caio lembrou de um garoto que o desafiou para a briga quando ele era criança. Segundo o Wagner, o Caio tinha pavor de apanhar. O trabalho foi aceitar esse medo, agradecer aquele menino e dizer para o Caio criança que ele ia virar um grande lutador mesmo assim.

Sobre a derrota do Caio para Imavov, o Wagner deu uma explicação curta. O Caio tem um recurso natural de perceber quando o plano de luta não está funcionando e mudar. Naquela luta, esse recurso não ligou. Agora eles treinam um gatilho consciente para ativar essa mudança, em vez de esperar que ela aconteça sozinha. A ideia que ele repete é que o lutador controla a performance, e o resultado depende de muita coisa fora do alcance, de lesão a decisão de juiz.

Flávio Álvaro e a luta como vida ou morte

A parte mais forte da conversa veio no fim, quando o Flávio sentou à mesa. Ele contou que entrou nas artes marciais por raiva, para bater no padrasto violento. Com o tempo, entendeu que a violência não levava a lugar nenhum, mas guardou uma relação com a morte que o Wagner descreveu como coisa de livro japonês. O Flávio entrava em cada luta pronto para morrer e, segundo o Wagner, não bateria nem se estivesse com a perna quebrando.

“Todos eles estavam ali para matar ou para vencer. Eu já estava morto.”

Flávio Álvaro, no Pura Connection · 0:44:32

Ele contou uma luta no Rio Heroes, um evento sem luva, com cabeçada, sem tempo e com pesos muito diferentes, num GP de três lutas na mesma noite. Chegou à final com a mão quebrada e o olho caído. Se perdesse, disse, a família ia morar na rua. Depois de 35 minutos apanhando e com o braço quebrado, venceu. Ensanguentado, foi direto à casa do dono do aluguel, de madrugada, pagou seis meses e depois comprou uma casa para a mãe.

O que segurava tudo isso, segundo ele, era o código de conduta: estava pronto para morrer, mas nunca quis matar ninguém. Quando via que o adversário não tinha mais como se defender, a luta acabava para ele. O Wagner resumiu com o gesto do tapinha no jiu-jitsu, que qualquer academia do mundo respeita sem juiz. Segundo o Wagner, o Flávio só parou de lutar quando a esposa engravidou. O próprio Flávio fechou a história com humor.

“Meu filho salvou minha vida.”

Flávio Álvaro, no Pura Connection · 0:42:27

O que fica da entrevista é que a Fighting Nerds treina a cabeça com o mesmo cuidado que treina a raspagem ou a passagem. Da guilhotina do Demian ao medo de infância do Caio, os dois treinadores tratam o emocional como parte do treino, e isso eu levaria para qualquer tatame.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.