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Pura Connection · Vinicio Antony

Vinicio Antony diz que o jiu-jitsu esportivo esqueceu a defesa pessoal

Mestre de karatê e faixa-preta de jiu-jitsu, ele critica o faixa-preta que para de treinar, explica a faixa-coral que usa e conta como terminou o trabalho com Lyoto Machida.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 31 mai 2024 (1:46:08).

Vinicio Antony é conhecido como mestre de karatê e técnico de lutadores do UFC, mas diz que o jiu-jitsu está no sangue dele. Treinou jiu-jitsu antes mesmo do karatê e ainda chama o tatame de sua cachaça. É com essa autoridade que ele faz uma crítica dura: o jiu-jitsu de hoje, segundo ele, virou um jogo e deixou a defesa pessoal para trás.

Assisti à segunda conversa dele no Pura Connection e o que mais me chamou atenção foi como ele junta tudo: a história das artes marciais japonesas, o faixa-preta que para de treinar com medo de ser finalizado, a faixa-coral que causou barulho nas redes e o fim do trabalho com Lyoto Machida.

O jiu-jitsu de 1982 e o de hoje

Vinicio conta que fez aula de jiu-jitsu em Copacabana em 1982, e que o treino era outro. Tinha guarda com soco e pisão, começava pela defesa pessoal, com saída de agarrada e de gravata, depois vinha uma posição de chão e só no fim o rola. Para ele, era um treino muito mais completo como arte marcial.

Hoje, descreve, os alunos chegam, tocam a mão, um senta e puxa para a guarda. Segundo Vinicio, ninguém treina mais soco, cotovelada ou postura de defesa, e isso tudo faz parte da técnica do jiu-jitsu.

“Eles não treinam defesa pessoal, não sabem colocar uma guarda, não sabem dar um soco.”

Vinicio Antony, no Pura Connection · 0:55:51

Ele lembra que o livro de judô Kodokan, do tempo em que o jiu-jitsu japonês virou judô, tem um capítulo inteiro de soco, cotovelada, pisão e joelhada. E diz que foi isso que Maeda ensinou a Carlos e Hélio Gracie, que desenvolveram a arte em cima dessa base até ela virar esporte.

“É um jogo onde um cara que treina a mesma técnica que você tenta te superar naquela mesma técnica.”

Vinicio Antony, no Pura Connection · 0:56:54

Vinicio acha que o jiu-jitsu foi a última luta a entrar de vez no mundo esportivo, bem depois do judô e do taekwondo. Os outros, diz, estão nesse processo há muito mais tempo.

O faixa-preta que para de aprender

Um dos pontos mais fortes da conversa é sobre a faixa-preta. Para Vinicio, muita gente trata a faixa como prêmio, olho no troféu: pegou, acabou. Ele fala da síndrome do faixa-branca, o aluno destemido que quer rolar até com o professor, e do faixa-preta que faz o caminho inverso.

“O cara chega na faixa-preta e não quer mais dar rola com ninguém, porque ele não quer ser finalizado.”

Vinicio Antony, no Pura Connection · 0:27:36

Segundo ele, é exatamente aí que o sujeito para de aprender. O que não nega treino, que bota para jogo, aprende o tempo todo. Se for finalizado, parabéns, obrigado e vida que segue. A competição, diz, é consigo mesmo: ser melhor que ontem.

Nos seminários, Vinicio conta que coloca todo mundo de faixa-branca, inclusive ele. O motivo é prático: quando as faixas ficam separadas, o aluno mais graduado domina e o faixa-branca não tem coragem de perguntar. Ele lembra que, na graduação original das artes marciais, o caminho começa na branca e termina na branca de novo.

Sobre finalização, tem uma frase que eu já vou roubar para as minhas aulas: quem se debate e faz força às vezes até escapa, mas só aprende a fazer força. O certo, diz ele, é aceitar, bater quando precisar e entender por qual caminho o outro chegou.

“Aquilo que você sabe pouco é mais perigoso que aquilo que você não sabe nada.”

Vinicio Antony, no Pura Connection · 0:23:14

A faixa-coral e a Budokan

Vinicio conta que a associação dele adotou o sistema de graduação criado pela primeira entidade que regulamentou as artes marciais no Japão, em que o faixa-preta com mais de 31 anos de faixa, que continua treinando, ensinando e botando para jogo, usa a faixa-coral. Quando ele apareceu com a coral, choveu crítica, e ele ganhou de 50 a 60 mil seguidores do dia para a noite. Diz que foi de propósito, para chamar atenção para o trabalho.

A mistura de estilos vem de berço. O pai, segundo ele, era lutador profissional de boxe e botava os filhos de luva para trocar soco desde pequenos. Depois veio o jiu-jitsu e, por fim, o karatê. Um mestre de karatê dele, João Ricardo, também era mestre de luta livre e dava treino na Budokan para Marco Ruas e Hugo Duarte. Vinicio conta que ia direto para lá e percebeu que, numa sala apertada com 30 caras trocando porrada, a guarda do karatê não funcionava. O que o salvava era o jiu-jitsu e o boxe.

Ele também leva o karatê para o chão. Segundo Vinicio, quando aplica uma kimura ou um estrangulamento, encaixa a escápula como faz no soco do karatê, o que dá uma alavanca muito maior.

O fim do trabalho com Lyoto Machida

Vinicio conta que se ofereceu para treinar o Lyoto de graça, como retribuição ao pai do lutador, que o ajudou muito na carreira. Diz que reconstruiu a confiança do Lyoto no karatê e que vieram quatro vitórias seguidas. Depois da primeira, conta, o pai do Lyoto o levou até o quarto, abriu um vinho e agradeceu.

O problema, segundo ele, veio depois. Na luta com Chael Sonnen o Lyoto já questionava o método, e na seguinte, contra Gegard Mousasi, no Bellator, quis relaxar. Vinicio conta que o camp teve futebol com Fabrício Werdum e sparring com quem o Lyoto escolhia. Na luta, perdeu por decisão dividida e, segundo a análise que fizeram depois, tomou 29 chutes na perna da frente sem aplicar uma vez a estratégia treinada.

“Bicho, eu não posso lutar por você.”

Vinicio Antony, no Pura Connection · 1:20:49

O que fica da conversa

Vinicio fala com a segurança de quem tem 183 lutas oficiais no karatê, parou de competir em 1998 e diz que nunca sentiu saudade. Para ele, a arte marcial serve para formar gente, e lutar é a parte menos importante. O recado para quem treina jiu-jitsu é simples: não pare na faixa-preta, treine a defesa pessoal que está na raiz da arte e continue aceitando ser finalizado.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.