Pura Connection · Wander Braga
Wander Braga conta como ganhou a faixa-preta de Jorge Pereira no vale-tudo
Na conversa, o lutador lembra a escola dura do mestre, o Rickson no seu córner e o ano em que o visto negado quase o derrubou.
Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 7 min de leitura
Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 20 mar 2023 (1:23:35).
O Wander Braga recebeu a faixa-preta de um jeito que eu nunca tinha ouvido falar: em cima de um ringue de vale-tudo, em Vitória, no Espírito Santo, logo depois de uma das lutas mais duras da vida dele. Quem amarrou a faixa na cintura dele foi o mestre, Jorge Pereira. Assisti à conversa do Wander no Pura Connection e essa história, sozinha, já valia o episódio.
Mas a entrevista vai bem além disso. O Wander fala da escola de porrada do Jorge, do tempo em que treinou com o Rickson Gracie nos Estados Unidos, da estreia no vale-tudo em São Paulo e do período em que perdeu o visto americano, entrou em depressão e chegou a ficar cego de um olho. Em todas essas histórias, o jiu-jitsu aparece como a coisa que segurou ele de pé.
Da briga no colégio ao tatame do Jorge Pereira
Segundo o Wander, tudo começou por causa de uma briga no Colégio Barra da Tijuca. Ele estava se dando bem em pé, a briga foi para o chão e tiveram que separar. Um colega, que ele chama de Gordinho, viu aquilo e disse que ele tinha disposição, mas precisava aprender a lutar no chão. O Wander tinha 12 anos quando esse amigo levou ele para treinar na antiga casa da Barra onde, segundo ele, o Jorge treinava com o Rickson e outros nomes grandes. A criançada fazia a aula e depois ficava olhando os ídolos.
Aos 14 anos, a turma do bairro levou o Wander para um treino na academia do Jorge. Ele contou que já era faixa colorida, entrou naquele clima de todo mundo olhando para o garoto que vinha de outra academia e tomou um pau de um menino da idade dele. Mesmo assim ficou. O motivo foi o tipo de treino que ele viu por lá.
“Quando eu olhei os treinos de porrada do Jorge, de vale-tudo, eu falei: é aqui que eu vou ficar.”
Wander Braga, no Pura Connection · 0:08:34
Com o Jorge ele passou por todas as faixas até a preta. O Wander contou que o pai morreu quando ele tinha 14 anos e que o mestre virou a grande referência da vida dele, com o lado bom e com o lado que ele não gostava. Segundo ele, na academia do Jorge não se treinava só jiu-jitsu: tirava o kimono e treinava porrada também, todo dia. Havia até treinos de grupo contra grupo, com os faixas-marrons de um lado e a molecada de azul, branca e roxa do outro.
O Wander também lembrou do Carlinhos Toledo, um peso-galo faixa-marrom do Jorge que, segundo ele, finalizava todo mundo em dez segundos. A galera contava em voz alta na arquibancada. O Jorge, de acordo com o Wander, ligou dos Estados Unidos mandando dar a preta para ele.
A faixa-preta amarrada depois de uma guerra em Vitória
A história da faixa é a parte que mais me marcou. O Wander contou que a equipe do Jorge foi de carro para um vale-tudo em Vitória, e ele ia fazer três lutas na mesma noite. Já estava aquecido no ringue quando viu o primeiro adversário chegar de calça jeans, dizendo que não ia lutar porque não tinha sido pago.
“Me pagaram também não. Acabou, estamos aqui para lutar.”
Wander Braga, no Pura Connection · 0:26:41
Com a desistência, ele ganhou a semifinal, voltou ao vestiário, ganhou a final e pegou o troféu. Foi aí que o Jorge pediu o microfone e perguntou se a cidade não tinha nenhum casca-grossa para subir no ringue. Segundo o Wander, desceu da plateia um lutador local, que ele lembra como Ouriço, e os dois fizeram a maior guerra da vida dele. Depois de 15 ou 20 minutos, sem gongo, o adversário disse que já tinha representado a cidade, os dois se abraçaram e o Wander foi declarado campeão de novo.
Aí veio o Jorge. De acordo com o Wander, o mestre disse que sempre soube que ele era um grande competidor, mas faltava a prova de defender o jiu-jitsu numa situação extrema, com a cidade inteira contra. Tirou a faixa e amarrou a preta ali mesmo. O Wander confessou que andava chateado por não ter sido graduado antes e que só naquele dia começou a entender o jeito do mestre.
Ele contou também que mais de uma vez pediu ao Jorge para suavizar os treinos, com luva e tempo, e que o mestre nunca mudou de ideia. O Wander respeita, mas deixa claro que já tentou.
Estreia no Ibirapuera e o recorde de torneios
A estreia do Wander no vale-tudo é outra história boa. Segundo ele, estava surfando quando o Léo Dalla passou de carro e chamou para ir a São Paulo ver o Jorge lutar. Ele largou a prancha com os amigos e foi de chinelo e camiseta. Na arquibancada, o Jorge olhou para ele e perguntou quanto estava pesando. Eram 73 quilos, e o Jorge queria que ele perdesse três para completar a categoria de 70.
Ele correu para perder peso e subiu no ringue. Segundo o Wander, fez três lutas na noite e foi campeão, sem luva, sem protetor bucal e sem coquilha, com areia entrando no ringue.
“Quando eu vi, tava lá em cima do ringue, sei lá, 10 mil pessoas no Ibirapuera gritando jiu-jitsu.”
Wander Braga, no Pura Connection · 1:15:10
O Wander disse que tem 17 lutas registradas no Sherdog, mas acha que foram umas 20 e poucas, porque muitas não ficaram gravadas. Ele contou ter visto numa entrevista que seria o recordista de torneios de vale-tudo com três lutas na noite, com cinco eventos, à frente do Babalu. Depois vieram dois anos parado por labirintite, a mudança para os Estados Unidos, o King of the Cage e, segundo ele, um contrato com o UFC.
Rickson, o córner que mudou a luta
Quando chegou aos Estados Unidos, com uns 26 anos, o Wander ouviu do Jorge que era só ir ao Rickson e dizer que era aluno dele. Segundo o Wander, o Rickson abriu um sorrisão e perguntou como estava "aquele maluco". A partir dali ele passou a treinar na academia e na casa do Rickson, e diz que aprendeu de novo a ser atleta com ele.
Numa superluta de jiu-jitsu na Califórnia, o Wander estava nervoso porque vinha só do vale-tudo, sem treinar de kimono. O Rickson botou a mão no ombro dele e disse que ia estar lá. Segundo o Wander, o Rickson já não fazia córner naquela época, e aquela foi a única vez que ele ficou no canto de uma luta dele. Durante a luta, ele não conseguia passar a guarda do adversário.
“Ele só falou uma coisa: tá indo para o lado errado, vai para o lado direito.”
Wander Braga, no Pura Connection · 1:04:40
Ele foi para a direita, passou e ganhou. Para o Wander, aquilo mostrou a percepção do Rickson: enxergar o que o lutador lá dentro não vê.
Visto negado, depressão e covid: o jiu-jitsu como remédio
A parte mais pesada da conversa é sobre a vida fora do ringue. Segundo o Wander, ele tinha casa comprada, duas academias rodando e contrato com o UFC quando entrou com o pedido de green card. O pedido foi negado, ele foi ao consulado americano no Brasil e, segundo ele, a funcionária nem quis olhar a papelada. Ficou fora dos Estados Unidos.
O Wander contou que passou nove meses em depressão e chegou a ficar cego do olho direito por três meses. Foi a mãe quem mandou ele voltar a treinar. Ele recusou o calmante que o médico queria receitar.
“Meu calmante é o jiu-jitsu. Eu vou voltar a treinar, isso tudo vai passar.”
Wander Braga, no Pura Connection · 0:54:23
Segundo ele, uma semana depois o olho voltou a funcionar. Anos depois veio a covid, com falta de ar, oxigenação caindo e o medo de morrer. Ele disse que usou vídeos de respiração do Rickson e lembrou de um treino em que um parceiro de 100 quilos estava sufocando ele e o Jorge mandou continuar. Na última luta, contra um adversário chamado Barbosa, o ar sumiu de novo e ele pensou em pedir para parar.
“Vou pedir para parar? O Jorge vai me matar.”
Wander Braga, no Pura Connection · 0:42:26
O que fica da entrevista é isso. O Wander conseguiu o green card, deu seminários na Califórnia e contou em primeira mão que vai abrir uma academia com o nome dele na Carolina do Norte. Ele é um sujeito que aprendeu a aguentar o desconforto num tatame muito duro e levou esse aprendizado para o hospital, para o consulado e para a família. Para quem quer entender a Barra da Tijuca dos anos de ouro do jiu-jitsu, vale ouvir a conversa inteira.
Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.