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Podcast Nem Me Viu · Wanderlei Silva, Rafael Cordeiro

Wanderlei Silva diz que sente falta de brigar e critica Bambam por Popó

Num Nem Me Viu de emergência, Fabrício Werdum reuniu Wanderlei Silva e Rafael Cordeiro para falar da falta de respeito com lutadores na era das lutas contra influenciadores.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 27 nov 2023 (0:36:10).

O Wanderlei Silva foi direto quando perguntaram por que desafiou um segurança grandalhão, mais novo e mais pesado que ele: está com saudade de brigar. A frase veio num Nem Me Viu fora do comum, que o Fabrício Werdum chamou de comunicado oficial e montou em cima da hora, com o Wanderlei em Curitiba e o mestre Rafael Cordeiro nos Estados Unidos.

“Tô com saudade de brigar. Eu gosto do negócio.”

Wanderlei Silva, no Podcast Nem Me Viu · 0:22:13

O tema era a falta de respeito com os lutadores na onda das lutas de boxe contra youtubers e influenciadores. Assisti à conversa e gostei de ver três gerações de luta falando do assunto com calma, entre uma piada e outra, porque é um tema que chega todo dia na academia.

O caso Popó e Bambam

O ponto de partida foi a luta do Popó com o Bambam. O Werdum lembrou que o Popó é quatro vezes campeão mundial e tem uma história bonita, e disse que acha válido esse tipo de desafio. O problema, para ele, é quando a promoção vira falta de respeito, com xingamento ao país e à família.

O Wanderlei concordou que o Bambam passou do limite. Segundo ele, dá para promover um combate sem descer o nível, e quanto mais baixo o que a pessoa fala, mais ela mostra que nunca teve um mestre nem aprendeu a filosofia da arte marcial. Ele também deu o palpite dele para a luta.

“O Popó tem a mão pesada. Eu particularmente acho que o Popó vai meter a porrada no Bambam com gosto.”

Wanderlei Silva, no Podcast Nem Me Viu · 0:12:48

O Werdum contou como isso se resolvia nas antigas: faltou com respeito, os dois entravam no tatame e resolviam ali mesmo. Hoje, disse ele, tem muita gente falando atrás da câmera, sabendo que nada vai acontecer, e ainda tem processo no meio.

O Felipe, irmão do Werdum e professor de arte marcial, trouxe um ponto que eu achei certeiro. Para ele, o Bambam está cumprindo o papel dele: sem a confusão, pouca gente pagaria para ver a luta. O erro, na visão do Felipe, é do lutador profissional que entra na briga de internet com quem é especialista nisso. O caminho, disse ele, é ficar quieto e resolver no ringue, sem aliviar.

Rafael Cordeiro: cada um na sua praia

O Rafael Cordeiro falou como quem viu o esporte nascer. Lembrou que a geração dele lutava sem luva, pela academia e pelo mestre, que ele mesmo teve passagem como lutador defendendo a academia e o mestre, mas ficou conhecido como técnico. E que o esporte chegou a um patamar bonito, com crianças e mulheres treinando, depois de muito trabalho.

A preocupação dele é ver gente que nunca lutou se igualar a quem construiu uma história. Para o mestre, dar essa brecha joga no lixo o que a arte marcial fez.

“Cada um na sua praia, dentro daquilo que nós somos treinados e formados para fazer.”

Rafael Cordeiro, no Podcast Nem Me Viu · 0:08:41

Ele também disse que essa promoção de xingar e empurrar vem do modelo americano da luta livre de televisão, e citou o técnico de vôlei Bernardinho: você não controla o ruído, controla a sua disciplina. Na visão dele, quem odeia um lutador acompanha a vida dele mais do que a própria esposa.

Lutar 100%, sem dar chance

O Werdum puxou o caso do Vitor Belfort, criticado por ter nocauteado o Holyfield. Ele fez questão de dizer que o Vitor não é amigo dele, mas perguntou ao mestre se o lutador deve dar chance ao adversário nesse tipo de luta. O Rafael Cordeiro respondeu sem rodeio: tem que lutar 100% e definir o mais rápido possível. Para ele, o Vitor fez a parte dele, e o único exagero foi a comemoração.

O Wanderlei explicou o próprio desafio pelo mesmo caminho. Disse que está pesando 103 quilos, treinando todo dia, e que idade não conta. Para ele, essas lutas são uma apresentação marcial entre duas pessoas que aceitaram, e o que separa isso da luta livre americana é que aqui é de verdade.

Quando um seguidor sugeriu que o MC Daniel, que tinha desrespeitado o Wanderlei, lutasse com alguém do mesmo tamanho, o Wanderlei ofereceu o filho, Thor, de 20 anos e 65 quilos. Ele também disse que o que falam dele na internet não o afeta, porque só incomoda quando a pessoa fala a verdade.

Briga de academia, não

O fechamento ficou com o Rafael Cordeiro, e foi a parte que eu mais levaria para os meus alunos. Mesmo com o papo de resolver no tatame, ele disse ser contra briga de academia: um nocaute errado pode matar alguém, e o dono da academia vai ter que vender a alma para pagar o seguro. Quem quer lutar que lute numa regra real, com alguém do seu tamanho e da sua idade.

Sobre aposentadoria, ele disse que só o lutador sabe a hora, e que ninguém tem o direito de mandar o outro parar. E terminou lembrando que a arte marcial serve para formar um pai, um filho e uma pessoa melhor, e que às vezes defender a honra é saber ir embora.

Antes de sair, o mestre ainda deixou um recado aos amigos: nas conversas internas eles dizem uns aos outros quando alguém está certo ou errado, mas diante do público estão sempre juntos, para qualquer combate que a vida apresentar.

“Lutador é lutador, entretenimento é entretenimento.”

Rafael Cordeiro, no Podcast Nem Me Viu · 0:31:05

O Werdum encerrou agradecendo e defendendo o mesmo ponto que abriu a conversa: pode promover, pode desafiar, mas sem perder o respeito. Ele citou o McGregor e o Chael Sonnen como exemplos de quem soube vender luta com inteligência.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.