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Dos Nossos Podcast · Fabrício Werdum

Werdum entra no Hall da Fama do ADCC e conta como invadiu o torneio em 2003

Em Las Vegas, o gaúcho relembrou a estreia no ADCC sem seletiva, sem convite e dormindo no tatame de uma academia.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Dos Nossos Podcast, publicada em 28 ago 2024 (0:34:26).

O Fabrício Werdum foi homenageado no Hall da Fama do ADCC, o campeonato mundial de grappling e submission, em Las Vegas. O canal dele gravou os bastidores da viagem, do outlet onde ele comprou o terno até o jantar depois das lutas. No meio disso tudo, o Werdum contou a história que mais me chamou atenção: ele entrou no ADCC pela primeira vez sem ser convidado. Ele mesmo se convidou.

Segundo o Werdum, a relação com a organização vem desde 2003. Foram cinco edições disputadas, a última em 2011, e ele disse que a homenagem vinha depois de 26 anos de trabalho. Deu para ver que ele segurou o choro mais de uma vez.

“Entrei no ADCC sem ser convidado, eu me convidei na verdade.”

Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:03:57

Dormindo no tatame para economizar

A história começa em Los Angeles. O Werdum contou que tinha acabado de lutar o Pan-Americano e dormia na academia do Marcos Vinícius para economizar dinheiro. Ele brinca nas palestras que dormiu no tatame, mas que era em Beverly Hills, então valeu a pena.

Uma noite, segundo ele, apareceu o Mark Kerr procurando alguém para treinar. O americano ia fazer uma superluta contra o Ricardo Arona no Brasil. O Marcos olhou para o lado, viu o Werdum dormindo e apontou. O Werdum lembra que o Kerr ofereceu 200 euros por dia de treino. Ele ia embora para a Espanha no dia seguinte, trocou a passagem e ficou mais duas semanas.

Na hora de ir para o Brasil, o Kerr não pretendia levar o parceiro de treino. Quem botou pilha foi o Marcos Vinícius, e o Werdum acabou embarcando junto.

A revista, o lobby e o nome na lista

Já no Brasil, na sexta-feira, véspera do evento, saiu numa revista de jiu-jitsu uma nota dizendo que o Werdum tinha ficado em terceiro no absoluto do Pan-Americano, perdendo para o Pé de Pano. Na mesma hora, segundo ele, a organização inteira do ADCC estava reunida no lobby do hotel.

Ele interrompeu a reunião, disse que queria lutar e deixou a revista com eles. A resposta, pelo que ele contou, foi um não bem claro: para participar precisava de seletiva, de classificação, e as dez categorias estavam completas.

No dia seguinte, no café da manhã, um lutador perguntou a que horas ele ia lutar. O Werdum achou que era brincadeira. Subiu no terceiro andar do hotel e o nome dele estava lá. Tiraram foto, mandaram assinar e avisaram que a luta dele era a primeira do evento, porque o ADCC começa pelos pesados. Depois ele descobriu o motivo da vaga: o Ricco Rodrigues não pôde ir, e ele entrou no lugar.

“Pega tuas coisas rápido porque a tua luta é a primeira.”

o apresentador, no Dos Nossos Podcast · 0:07:34

A baiana contra Kosaka e o pódio duplo

A estreia foi contra o japonês Kosaka, que o Werdum descreve como um grande lutador de grappling que lutava direto no Pride. Estava zero a zero. Quando os dois saíram do tatame, o Kosaka veio cumprimentar e o Werdum aproveitou para dar uma baiana e derrubar o japonês. Ele mesmo admite que não deveria ter feito, mas fez.

“Eu tive que usar uma malandragem para poder ganhar.”

Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:08:37

Passou a segunda luta e chegou à final da categoria. Segundo o Werdum, o Sheik gostou da atuação e o convidou para o absoluto também. Resultado: segundo lugar na categoria e terceiro no absoluto, num campeonato em que ele nem estava inscrito na véspera.

No discurso da homenagem, ele transformou isso em conselho. Disse para cada um criar a própria oportunidade.

“Acredite na oportunidade e crie a sua oportunidade, não fique esperando.”

Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:18:15

Depois da cerimônia, ele voltou ao assunto e resumiu tudo numa frase: entrou pela janela. Contou que nem tinha como esperar aquilo em 2003, e que foi exatamente por isso que fez questão de falar de oportunidade no palco. Às vezes a gente espera demais, disse ele, quando o certo é criar a chance e aproveitar o momento.

O que o Werdum viu no ADCC de hoje

Na arena, o Werdum comparou o evento com o de 2003. Para ele, a estrutura é outra e o público hoje entende grappling. Antes, as pessoas só entendiam o MMA, onde dá para ver o nocaute. Agora a galera vibra com um movimento diferente no chão.

Sobre a superluta principal, Gordon Ryan contra Felipe Preguiça, ele fez uma leitura de quem já esteve ali. Achou o Preguiça displicente e disse que, nesse nível, um vacilo mínimo decide a luta. O mesmo, segundo ele, valeu para o Nicolas, que perdeu para um adversário que deu duas quedas e ficou ativo o tempo inteiro.

“Pra ser campeão hoje do ADCC tem que tá muito bem treinado e muito atento o tempo inteiro.”

Fabrício Werdum, no Dos Nossos Podcast · 0:28:08

Ele também se impressionou com as crianças da nova geração, que segundo ele já fazem tudo e lutam bonito, e elogiou o Rafael Lovato, que continua lutando aos 41 anos.

Sakuraba, Minotauro e os amigos de sempre

A viagem teve encontros com gente grande. O Minotauro também estava lá, e o Werdum esbarrou no Sakuraba, que tinha acabado de lutar com a mão quebrada. O japonês convidou o Werdum para um evento de grappling dele no Japão, cinco atletas contra cinco, e o gaúcho disse que toparia.

Acompanharam a homenagem o Babalu, o mestre Rafael Cordeiro, o Cobrinha e outros amigos antigos. Para o Werdum, essa turma junta pesou tanto quanto a placa, que vai para a sala da vaidade da casa dele.

Ele também comentou que ainda é reconhecido pelos fãs, mesmo sem lutar com a frequência de antes, e atribuiu isso ao podcast e aos outros projetos que mantêm o nome dele circulando.

O que fica do vídeo é a história de 2003. Um peso-pesado sem vaga, dormindo em academia, que deixou uma revista no lobby do hotel e saiu do torneio com duas medalhas. Vinte e um anos depois, voltou ao ADCC para receber a homenagem.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.