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Pura Connection · Aldo Caveirinha

Aldo Caveirinha: de Rio das Pedras à equipe de jiu-jitsu que chegou ao UFC

Faixa-roxa aos 16 anos, ele foi mandado por Carlinhos Gracie para Belo Horizonte no mesmo dia e construiu dali uma associação espalhada pelo mundo.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 6 min de leitura

Entrevista completa no canal Pura Connection, publicada em 17 jul 2023 (1:39:23).

Aldo Caveirinha tinha 16 anos, era faixa-roxa e tinha acabado de descer a Pedra da Gávea num sábado de manhã quando Carlinhos Gracie perguntou se ele queria viver de jiu-jitsu. Ele disse que sim, imaginando que a mudança seria no mês seguinte. Era naquela tarde. Foi assim, segundo o próprio Caveirinha, que um garoto da comunidade de Rio das Pedras foi parar em Belo Horizonte para assumir uma academia, e de lá montou uma associação com filiais fora do Brasil e alunos no UFC.

“Minha vida profissional foi decidida com 16 anos de idade, dessa forma.”

Aldo Caveirinha, no Pura Connection · 0:36:40

Assisti à conversa dele no Pura Connection e o que fica é um cara que ri o tempo todo, mas que não esconde as feridas. Ele fala de fome, de traição de aluno, de mágoa com a imprensa do jiu-jitsu, e volta sempre para a mesma palavra: gratidão.

Do projeto social à Gracie Barra

O Caveirinha começou num projeto social dentro da comunidade, onde quem não tinha dinheiro não pagava. O professor era o seu Renato, com um instrutor faixa-marrom chamado Miranda. Depois foi para uma academia onde conheceu o pessoal da família Soneca, e em seguida para a filial da Gracie Barra de Jean Jacques. Segundo ele, quando o Jean Jacques se mudou para os Estados Unidos, fez uma reunião e mandou todos os alunos treinarem com o Carlinhos, que foi o mestre do Caveirinha até a faixa-preta terceiro grau.

Ali ele pegou a Gracie Barra dos anos 90 por dentro. Conta que viu Ryan Gracie faixa-roxa e Ralph faixa-marrom, e lembra do Ryan chegando para ele, garoto, e dizendo que quem não treinasse pelo menos duas vezes por dia não podia nem usar a camisa da academia. O treino era numa lona de caminhão, sob telha de amianto, na Barra a 40 graus.

Segundo o Caveirinha, era um ambiente só para casca-grossa: dez rolas de dez minutos, gente passando mal no treino, e quem aparecia para pedir informação ia embora assustado. Ele também lembra que a Gracie Barra, na visão dele, ganhava campeonatos de ponta a ponta e que o Carlinhos percebeu que a Carlson estava indo para o MMA e decidiu focar só no jiu-jitsu. Mesmo assim, conta que viu o mestre apertado de dinheiro em plena época de campeonatos.

Aos 16 anos, sozinho em Belo Horizonte

A história da mudança envolve o Feitosa. Segundo o Caveirinha, o Feitosa tinha acabado de ser campeão mundial, depois de uma final com o Shaolin, e dava aula em Belo Horizonte, mas queria voltar ao Rio para competir. O Carlinhos precisava de alguém para ficar no lugar. O Caveirinha, que ajudava nas aulas do instrutor Eduardo de Lima, o Velho, correu para casa, enfiou quatro camisas numa mochila, avisou a mãe às pressas e ouviu da namorada que em BH nem praia tinha. Foi mesmo assim.

O começo foi duro. Sai um faixa-preta campeão mundial e entra um faixa-roxa de 16 anos: ele conta que uns 80% dos alunos sumiram no mês seguinte. Diz que reconstruiu com simpatia e humildade, e com uma missão fixa na cabeça, ajudar a mãe. Também admite que errou, brigou e saiu na noite, como qualquer garoto daquela idade.

Em 2000, segundo ele, deu uma entrevista a uma revista dizendo que a equipe dele teria atletas no UFC, campeões e faixas-pretas dando aula fora do Brasil. Os alunos eram faixas-brancas e azuis, e o pessoal riu. Dez anos depois, conta, começou a acontecer. Ele cita Paulo Borrachinha, que disputou o cinturão do UFC, e Matheus Nicolau, que segundo ele deve lutar pelo título em breve.

“Eu vejo que a minha equipe vai ter vários atletas do UFC, vamos ter campeões da minha academia e vários faixas-pretas dando aula fora do Brasil.”

Aldo Caveirinha, no Pura Connection · 1:09:28

Competir até perder o sentido

O Caveirinha diz que competiu dos 9 ou 10 anos até uns quatro anos antes da conversa. Para ele, a geração dos anos 90 é diferente: muita gente daquela época segue competindo até hoje, enquanto o atleta atual ganha três mundiais e para. Ele parou quando perdeu o fogo. Nos últimos seis campeonatos, conta, levou metade de ouro e ligou para a esposa perguntando o que estava fazendo ali.

Ele lembra também do treino pesado em BH: três horas por dia, treino de manhã e à noite, aula o dia inteiro. Segundo ele, a esposa precisou levantá-lo da cama várias vezes para beber água. Mesmo com uma equipe forte de competição, ele diz que nunca obrigou aluno a lutar. Tem faixa-preta há mais de 20 anos na equipe que nunca disputou um campeonato, e ele respeita, porque o médico que treina não pode quebrar o dedo.

Traição, gratidão e a crítica à Gracie Magazine

A parte mais pesada da conversa é sobre traição. O Caveirinha contou que, na pandemia, um aluno pediu uma reunião, chorou por uma hora e meia dizendo que ia deixar de dar aula para ajudar a mãe, e uma semana depois abriu academia a três quarteirões. Contou de aluno que levou para a Europa, com passagem parcelada no nome dele, e que trocou o nome da academia. Disse que até o irmão mais novo saiu da associação depois de ouvir conselhos de outros.

“O homem sem gratidão é igual a uma caneta sem tinta. Não serve de nada.”

Aldo Caveirinha, no Pura Connection · 1:15:07

Ele também saiu da associação da Gracie Barra, e diz que fez isso olho no olho, conversando com o Carlinhos e a diretoria. Garante que não fala mal da academia onde pegou a faixa-preta, que tem a tatuagem no braço até hoje e que aprendeu a ser empreendedor vendo o Carlinhos pensar. A mágoa dele é com a Gracie Magazine. Segundo o Caveirinha, depois que ele saiu, a revista deixou de citar os feitos dele e nunca mencionou que um campeão do UFC era aluno dele. Ele chegou a chamar a revista de "câncer" na vida de alguns professores, dizendo isso "com dor no coração", e reconheceu que ela ajudou muito o jiu-jitsu numa época.

O que fica da conversa

Hoje o Caveirinha mora no Havaí, tem filial na Europa com gente que o acompanha há quase 25 anos, está perto da sexta filial no Texas e diz que não sabe quantos faixas-pretas já formou. Recebeu o título de cidadão honorário de Minas Gerais e fala de BH como a terra que o abraçou.

Ele diz que não reclama de nada porque já passou fome na comunidade, e que faz questão de mostrar a foto de onde morava para quem reclama perto dele. Também defende que o jiu-jitsu é um lugar sem racismo, onde o parceiro de treino te ajuda a evoluir não importa a cor. Pode soar otimista demais, mas é a leitura de quem, segundo ele, construiu tudo com a faixa.

“Medalha fica velha, enferruja, um dia vai acabar. Mas o que você é fica para sempre.”

Aldo Caveirinha, no Pura Connection · 0:40:17

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.