Pular para o conteúdo

Podcast Nem Me Viu · Alex Pereira

Alex Poatan conta como a luta o tirou do alcoolismo antes do UFC

No primeiro episódio do Nem Me Viu, ele falou da borracharia, da cachaça, do kickboxing e dos meses morando na casa de Glover Teixeira.

Por Gabriel Guimarães, faixa-preta e professor de jiu-jitsu · · 5 min de leitura

Entrevista completa no canal Podcast Nem Me Viu, publicada em 10 ago 2022 (1:48:55).

Hoje todo mundo conhece o Alex Poatan como o cara da mão pesada que chegou ao UFC já com fama de nocauteador. O que pouca gente sabe é que ele só começou a lutar com 21 anos, e começou por um motivo bem específico: parar de beber. No episódio de estreia do Nem Me Viu, o podcast do Fabrício Werdum, o Poatan contou essa história sem rodeio.

Assisti à conversa e o que mais me chamou atenção foi a franqueza. Ele disse que até pouco tempo sentia vergonha de falar do assunto, mas que hoje vê necessidade, porque muita gente sofre com bebida e droga, direta ou indiretamente, e pode descobrir no esporte uma saída. Do outro lado da mesa, o Werdum contou uma história parecida, só que com o jiu-jitsu no papel de salvação.

“Eu falei assim: o esporte é que vai me salvar.”

Alex Pereira, no Podcast Nem Me Viu · 0:12:26

Borracharia aos 12 anos e a cachaça todo dia

O Poatan cresceu na periferia de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Segundo ele, o pai era pedreiro, a mãe dona de casa, e ele começou a trabalhar numa borracharia com 12 anos, fazendo serviço pesado de adulto. Foi ali que a bebida entrou de vez na vida dele.

Ele contou que bebia todos os dias, chegava tarde em casa e atrasado no trabalho. Tentou parar três, quatro, cinco vezes. Na primeira ficou um mês, depois dois, e sempre voltava com tudo. A bebida preferida era a cachaça, porque cerveja era cara. Na borracharia, muito cliente pagava o serviço deixando uma dose paga no bar, e ele aceitava todas, porque nunca sabia quando viria a próxima.

“Eu bebia quase um litro por dia.”

Alex Pereira, no Podcast Nem Me Viu · 0:15:05

Em algum momento ouviu que o esporte podia salvá-lo. Futebol estava fora, porque ele mesmo admite que nunca soube jogar bola. Foi atrás de arte marcial e caiu no kickboxing. Segundo o Poatan, ele começou em 2009 e, mesmo treinando, continuou bebendo muito. Foram quatro anos de luta, dentro e fora do ringue, até ele decidir parar de uma vez. Desde então, disse, não consumiu mais nada.

O Werdum e o jiu-jitsu na praça

Enquanto o Poatan falava da cachaça, o Werdum lembrou do próprio passado. Ele contou que nunca foi de beber, mas que, antes da luta, cheirava cola com os amigos na praça. Segundo ele, o jiu-jitsu fez a diferença: começou a treinar e, no começo, ainda treinava e depois descia para a praça. Com o tempo foi diminuindo, até largar, em parte por vergonha dos colegas de treino.

“Dizem que o jiu-jitsu salva. Realmente me salvou.”

Fabrício Werdum, no Podcast Nem Me Viu · 0:17:40

O sócio do Werdum no podcast lembrou que o Fabrício também só teve contato com a luta por volta dos 20 anos e que, depois do primeiro treino, não parou mais. Os dois chegaram tarde ao esporte e viraram referência mesmo assim.

Do kickboxing amador ao Glory

A carreira do Poatan começou no amador. Ele contou que ganhou o Paulista, depois se classificou para o Brasileiro, e que por três anos pagou para lutar, com ajuda de comerciantes e vizinhos que faziam vaquinha para inscrição, viagem e alimentação. No amador, segundo ele, foram 28 lutas, com 25 vitórias por nocaute, quase todas no primeiro round.

A estreia profissional, em 2011, foi dura. Ele disse que desceu de categoria para aproveitar a oportunidade, sentiu o cansaço dos rounds de três minutos, acostumado aos de dois do amador, e perdeu por pontos para um adversário experiente. Mesmo assim, percebeu que levava jeito. Voltou, virou campeão brasileiro profissional de kickboxing e, em 2014, conseguiu vaga no Glory como azarão num GP. Segundo o Poatan, nocauteou o americano da semifinal no primeiro round com um cruzado de esquerda e depois venceu a final.

Na conversa, o Werdum lembrou que o Poatan ganhou duas vezes de Israel no kickboxing e foi campeão em duas categorias do Glory. O Poatan concordou, mas disse que a carreira dele é maior do que essas duas vitórias.

O apelido também tem história. Ele contou que um treinador ligado a Paulo Zorello, campeão mundial de kickboxing, perguntou se ele tinha origem indígena. O Poatan foi para casa, perguntou aos pais e descobriu que os avós eram indígenas. Daí veio a entrada nas lutas com música do Sepultura gravada com indígenas e o apelido Poatan, que ele traduz como mão de pedra.

Quatro meses na casa de Glover Teixeira

A parte que mais interessa a quem treina chão veio quando o assunto foi Glover Teixeira. O Poatan contou que o empresário Joinha colocou os dois em contato. A ideia inicial era ajudar o Glover na trocação para a luta contra o Marreta, mas, nas palavras do Poatan, quem mais ganhou foi ele, principalmente no solo. Ele ficou quatro meses morando na casa do Glover.

“Principalmente na parte de chão, eu devo a esse cara.”

Alex Pereira, no Podcast Nem Me Viu · 1:06:31

Segundo o Poatan, no primeiro treino ele quis ir para o chão, e o Glover o corrigiu duas vezes: primeiro fazer o que era certo para ele, ficar em pé, e aprender o resto aos poucos. Se caísse, levantar. O Werdum riu e contou que fez o mesmo com Mirko Cro Cop. Segundo ele, em 2006 foi contratado para treinar o croata no chão e morou dois anos na casa dele, na Croácia, treinando cedo no frio. A primeira lição que deu ao Mirko foi a mesma: foi para o chão, levanta.

No fim do episódio, amigos mandaram vídeos. Lyoto Machida disse que ficou impressionado com a história de alguém que começou tão tarde. O companheiro de treino Caio Magalhães, da academia do Glover nos Estados Unidos, contou que o Poatan mudou a visão da equipe na trocação, e o Poatan devolveu o elogio: para ele, o forte do Caio é o jiu-jitsu, e é com ele que tem aulas individuais nas posições em que sente mais dificuldade.

O café que não chegou ao Joinha

A história mais divertida foi a do Joinha. O Poatan contou que, anos antes de conhecê-lo, viu o empresário sentado no sofá de uma clínica em São Paulo. Ficou ali parado, pediu um café, depois outro, prometendo a si mesmo que falaria com ele quando terminasse a xícara. Tomou o segundo já gelado e não teve coragem. Tempos depois, foi apresentado ao Joinha por outra pessoa, e hoje acha que foi melhor assim.

“O cara mudou minha vida.”

Alex Pereira, no Podcast Nem Me Viu · 1:27:52

O que fica da entrevista é o retrato de um lutador que chegou ao topo quase sem olhar para os lados. Ele mesmo disse que não conhece muita gente do meio porque nunca parou para estudar a história da luta, e que até hoje custa a acreditar na importância que ganhou. Para quem acha que 21 anos é tarde para começar, o Poatan e o Werdum são dois bons argumentos.

Este artigo é um relato próprio da entrevista. As falas são de quem as disse e estão ligadas ao minuto do vídeo. Viu algum erro? Peça a correção.